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06/09/2006

Sobrevivendo em uma Jerusalém dividida

Der Spiegel
Mathieu von Rohr
Mohammed Ikirmawi tinha no seu restaurante especializado em humus (alimento popular mediterrâneo feito da mistura de grão-de-bico amassado com pasta de gergelim e temperos) um negócio próspero em Jerusalém. Mas duas intifadas tiveram um impacto dramático sobre o seu ganha-pão. O caos que se seguiu fez com que Ikirmawi ficasse pensando em qual seria o seu próximo passo.

"Sonhamos com o seu humus", lhe dizem as pessoas na Cisjordânia. "Ikirmawi, quando você abrirá o seu restaurante aqui?".

Mohammed Ikirmawi, o homem que segundo essas pessoas faz o melhor humus de Jerusalém, senta-se tristemente na sua cadeira. Ele tem 42 anos, e na sua face pode-se ver a barba há três dias por fazer de um homem cujo estabelecimento comercial enfrenta problemas. Do seu restaurante, ele olha para a rua. A rua que separa a zona oriental da ocidental de Jerusalém, árabes de judeus e o seu pequeno restaurante dos seus fregueses.

"Qualquer um que tenha provado o meu humus jamais o esquece. Quem prova precisa voltar, mesmo que tenha que vir da Alemanha", afirma. Mas Mohammed Ikirmawi parece ter perdido o entusiasmo pelo seu próprio negócio.

O seu restaurante, próximo ao Portão de Damasco, que separa a área muçulmana da cristã na cidade velha de Jerusalém, funciona no mesmo local desde 1952.

O estabelecimento está longe de ser sofisticado, consistindo apenas de umas poucas mesas, algumas cadeiras, uma pequena cozinha e uma placa com a inscrição "Restaurante Ikirmawi". O seu avô abriu o negócio, o seu pai deu continuidade ao restaurante e Ikirmawi o mantém funcionando.

Neste país, uma pessoa dificilmente poderia errar ao vender humus, a mistura de cor clara à base de grão-de-bico que todos usam para passar no pão árabe.

O humus, a iguaria preferida por israelenses e palestinos, é provavelmente a única coisa quanto a qual todos aqui concordam. Mas isso não ajuda Ikirmawi em nada. Atualmente os negócios estão devagar, muito devagar. O seu restaurante fica na linha divisória entre Jerusalém Oriental e Ocidental, uma fronteira que não é marcada por um muro, mas por esta rua que passa pelo Portão de Damasco e continua em direção ao norte. Qualquer um pode atravessá-la, mas são poucos os que o fazem. No passado, os judeus vinham ao restaurante de Ikirmawi para comprar humus, mas atualmente eles se sentem muito inseguros no local.

Antes, cerca de 30 mil trabalhadores vindos das regiões a oeste chegavam à cidade todas as manhãs, e muitas compravam os seus cafés-da-manhã no restaurante de Ikirmawi, por dez shekels, o equivalente a 1,80 euro. Mas, atualmente, esta fronteira está fechada, e aqueles trabalhadores são obrigados a permanecer em suas casas.

"Eu não acredito em fronteiras", diz Ikirmawi. "Eles deveriam abrir todas as fronteiras. Maldição! Isto é o Oriente Médio".

Uma família reflete a história local

Ele afirma: "Não dá para planejar nada neste país". Mohammed Ikirmawi
conhece uma palavra de alemão: "Arschloch" (idiota), e adora usá-la ao se referir a políticos, todos os políticos. Tudo o que ele quer é administrar o seu negócio, mas a política o arruinou. Ele garante que sempre foi assim. A história do seu restaurante reflete a história deste país.

O avô de Ikirmawi, Mahmoud, era um homem rico. Na década de 1930 ele era dono de uma fábrica de sorvetes e de uma grande fazenda, tendo sido o primeiro a plantar banana na região. Ele também era o dono de um grande restaurante de 24 mesas, entre o Portão de Jaffa e a Rua Jaffa, no centro de Jerusalém.

Em 1948, foi criado o Estado de Israel, e irrompeu a primeira guerra
árabe-israelense. Quando a guerra terminou, o restaurante ficou do lado
errado da fronteira, o lado israelense. Para manter o negócio funcionando, os filhos do avô de Ikirmawi transportaram as cadeiras e as mesas através fronteira durante a noite, passando furtivamente por entre casas destruídas e evitando as armas dos soldados, tudo isso na tentativa de levar o material necessário para a nova sede do restaurante.

Eles finalmente reabriram o restaurante em 1952. O tamanho do
estabelecimento ficou reduzido, e ele ficou próximo ao muro de quatro
metros de altura que assinalava a nova divisa. Agora, Jerusalém Oriental fazia parte da Jordânia. Esse não era um bom lugar para um restaurante, mas já era alguma coisa.

Mas, 15 anos depois, o muro foi subitamente demolido. Era o ano de 1967, e os israelenses expulsaram os jordanianos na Guerra dos Seis Dias. Ávidos pelo humus, todos voltaram a freqüentar o restaurante de Ikirmawi, e a vida passou a transcorrer quase que como antigamente, quando todos moravam juntos nesta cidade. Desde então, o negócio de Ikirmawi floresceu - pelo menos durante as duas décadas que se seguiram. Mas, depois disso, o movimento começou a cair abruptamente. A cada novo confronto - a primeira e a segunda intifada - um número cada vez menor de clientes freqüentava o restaurante.

Atualmente, existem as drogas e muitos clientes ruins. Ele sonha com
clientes diferentes, fregueses que tenham classe e uma vida melhor. Ele
deseja transferir o restaurante para Tel Aviv.

Ikirmawi possui um passaporte israelense, o que significa que terá permissão para se mudar. Ele diz que não enfrentará qualquer concorrência em Tel Aviv. Ikirmawi sabe como eles fazem humus por lá - sem salsa. Segundo o especialista em humus, a salsa é um ingrediente fundamental. Eles também economizam no tahini, uma pasta feita de sementes de gergelim moídas - o ingrediente mais caro do humus. Ikirmawi jamais economiza no tahini. "O tahini é tudo", explica. Ele está convencido de que o seu humus simplesmente será o mais gostoso da cidade.

Mas é claro que manter um estabelecimento comercial em Tel Aviv é algo
completamente diferente. E ele não entende como os israelenses são capazes de comer humus no almoço, ou mesmo no jantar. Os árabes comem humus exclusivamente no café da manhã. Mas Ikirmawi garante que se adaptará. Final, ele é um homem de negócios.

Para Ikirmawi, o segredo de um bom humus é servi-lo fresco, algo que muito pouca gente faz. A combinação de alho, suco de limão e salsa faz com que o humus azede em apenas uma hora. Ele precisa ser servido imediatamente, e só pode ser preparado em pequenas quantidades.

Ikirmawi insiste que é o único capaz de fazer o humus real, e está
convencido de que, com essa abordagem, ele rapidamente conquistará o mercado em Tel Aviv.

Ele pretende trabalhar durante mais alguns anos, ganhar muito dinheiro em Tel Aviv, e se aposentar aos 50 anos de idade. Segundo Ikirmawi, àquela altura a sua vida não dependerá mais do selvagem Oriente Médio, que só faz dificultar a sua vida de empresário. Danilo Fonseca

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