UOL Notícias Internacional
 

04/10/2006 - 00h15

Alemanha Oriental está viva e bem

Der Spiegel
Hubertus Knabe
São quase 17 anos desde a queda da Alemanha Oriental comunista, mas o regime continua sendo comemorado em milhares de nomes de rua por toda a região. Aqueles que enfrentaram a ditadura, por outro lado, mal são lembrados.

Fábio Schiavartchel/Folha Imagem 
Frankfurter Allee, a principal avenida no regime comunista, antes chamada de Stalinallee

Qualquer um que passear pelo interior da Alemanha oriental pode ser perdoado se chegar à conclusão que, 16 anos após a reunificação da Alemanha, os comunistas ainda governam o país. As ruas mais importantes de quase toda vila possuem nomes como Rua Ernst Thälmann (o ex-chefe do partido), Rua Rosa Luxemburg (membro fundadora do movimento comunista alemão) ou Rua da Amizade (comemorando a aliança da Rússia soviética com a Alemanha Oriental comunista). Estes nomes não apenas sobreviveram à revolução pacífica do outono alemão de 1989 e à reunificação no ano seguinte, mas também continuam existindo após 16 anos de democracia.

Quando os comunistas chegaram ao poder na Alemanha Oriental após a Segunda Guerra Mundial, um de seus maiores esforços foi imortalizar seus heróis em ruas e praças. Todos os nomes anteriores, fossem de compositores ou flores, foram forçados a dar espaço para ícones comunistas. Estádios de futebol e fundições receberam nomes de altos líderes comunistas. Até mesmo cidades inteiras foram rebatizadas: Chemnitz se tornou Karl Marx Stadt e Eisenhüttenstadt mudou para Stalin Stadt.

Apesar destas duas cidades terem revertido para seus nomes originais, muitos nomes comunistas ainda sobrevivem até hoje. O próprio partido comunista buscou corrigir seus piores excessos. Pelo menos toda a lembrança do ditador soviético Joseph Stalin foi apagada, da mesma forma que o líder do partido comunista alemão, Walter Ulbricht, também perdeu prestígio. Já em 1962, Stalinallee, em Berlim, foi rebatizada de Frankfurterallee.

Após a queda da ditadura comunista em 1989, o povo alemão também voltou sua raiva contra a prática de abusar de espaços públicos para fins de
propaganda. Particularmente nas grandes cidades, nomes como Otto Grotewohl (o primeiro primeiro-ministro da República Democrática Alemã), Otto Winzer (o ministro das Relações Exteriores da Alemanha Oriental) ou Georgi Dimitroff (o líder da Internacional Comunista) foram todos eliminados do mapa. Mas o entusiasmo revolucionário logo passou e, particularmente no interior da antiga Alemanha Oriental, a cultura socialista permanece viva em placas de rua.

Mantendo o comunismo alemão vivo

Uma investigação realizada pelo Memorial para Vítimas da Stasi em Berlim revelou que a República Democrática Alemã -como a Alemanha Oriental era conhecida- continua viva em muitas áreas do leste alemão. O pai fundador do movimento comunista, Karl Marx, é lembrado em 550 ruas alemãs. Seu companheiro de armas, Friedrich Engels, aparece em 243 ruas ou praças. Outras 596 ruas são batizadas de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, que foram assassinados após uma tentativa de golpe em 1919.

Mas o vencedor disparado é Ernst Thälmann, que queria derrubar a República de Weimar em prol de um governo comunista e foi morto em um campo de concentração nazista: um total de 613 ruas e praças levam seu nome.

Em muitos lugares, as supostas conquistas do socialismo ainda continuam sendo celebradas: 337 Ruas da Juventude comemoram o culto comunista da juventude no trabalho e na agricultura; 285 Ruas da Unidade ainda existem em homenagem à fusão forçada do partido socialista SPD e do partido comunista KPD; 220 Ruas da Amizade lembram o laço "inquebrável" com a União Soviética; 90 Ruas dos Pioneiros elogiam as organizações infantis do partido comunista. Mesmo abreviações comunistas ainda existem em muitas placas de rua - apesar de cada vez menos pessoas saberem o que significam: 48 Ruas DSF comemoram a Sociedade para a Amizade Alemã-Soviética. 44 Ruas LPG reconhecem os feitos da Cooperativa Agrícola para Produção Coletiva e 36 Ruas MTS celebram as Estações de Maquinários e Tratores da Alemanha Oriental.

Mesmo funcionários do partido comunista, que estiveram envolvidos no
estabelecimento e manutenção da ditadura alemã-oriental, ainda são lembrados em muitas cidades do leste alemão: 90 ruas recebem o nome de Wilhelm Pieck, o primeiro chefe de governo do partido socialista alemão e o primeiro presidente da República Democrática Alemã. Dezessete lembram do chefe de governo Otto Grotewohl, que reprimiu violentamente a insurreição de 17 de junho de 1953. Membros do comitê central comunista da Alemanha Oriental, como Otto Arndt, Kurt Bürger, Erwin Kramer e Otto Winzer, também continuam lembrados em nomes de rua. Mesmo Walter Ulbricht, que foi banido da vida pública na República Democrática Alemã em 1972, ainda tem uma rua: em Chemnitz. Vinte ruas comemoram soldados de fronteira mortos em ação, aponta o estudo.

Apesar da ditadura comunista ainda estar viva e bem no leste alemão, a
resistência contra o regime mal é comemorada. Um apelo feito por conhecidos ativistas de direitos civis em 2003 fez pouco para mudar isto. Apenas 16 nomes de rua lembram o levante popular de 1953, enquanto meras 10 comemoram o dissidente alemão-oriental Robert Havemann. Fora estas, apenas uma dúzia de ruas na Alemanha levam nomes de vítimas do regime comunista, como Arno Esch, Jürgen Fuchs, Walter Janka ou Walter Linse.

Assim, o que dizer sobre a Alemanha se, 16 anos após a reunificação, quase toda aldeia do leste alemão ainda presta homenagem à ditadura comunista alemã-oriental e se esquece de suas vítimas e daqueles que a enfrentaram? Nada de bom. E isto deve ser corrigido.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,56
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h21

    1,28
    73.437,28
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host