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03/11/2006

Turquia em transição -menos Europa e mais Islã

Der Spiegel
Annette Grossbongardt
À primeira vista, o hotel "Sah Inn Suíte", em Alanya, não parece diferente dos outros no resort ensolarado da costa mediterrânea turca: uma construção pesada cheia de sacadas, de frente para uma piscina generosa, cercada de guarda-sóis e espreguiçadeiras. Mas, de fato, somente os homens podem dar um mergulho refrescante nessas águas azuis cintilantes. As mulheres de férias no Sah-Hotel nadam em uma piscina estritamente isolada. E uma cerveja gelada? Esqueça. Não há álcool aqui; em seu lugar, uma mesquita oferece comunhão com Deus.

Por que tanta religiosidade? É um esforço dos hoteleiros em mostrar sua consideração com os muçulmanos praticantes que queiram apreciar "umas férias dentro das leis religiosas". E o número de opções para essas férias devotas está crescendo na Turquia secular. Os maiôs de banho islâmicos são a nova onda nas praias e piscinas em torno do país. Hoje em dia, mulheres praticantes se aventuram nas areias vestidas da cabeça aos pés. A fabricante dessas roupas castas é a marca de moda Hasema de Istambul, cujos clientes incluem as esposas de importantes políticos do partido governante AKP, o Partido de Justiça e Desenvolvimento, religioso e conservador.

O jornal Cumhuriyet, que tende a ser crítico do AKP, já considera a Turquia "refém dos regulamentos de vestimenta islâmica". A imprensa secular cobre meticulosamente todos os incidentes violentos que parecem ser motivados pela religião: uma estudante de biquíni agredida por fanáticos religiosos, por exemplo, ou um casal atacado por beber cerveja abertamente durante o mês de jejum do Ramadã. Um policial bateu em uma menina porque estava supostamente vestindo uma saia curta demais. Esses são incidentes chocantes na Turquia, onde supostamente há leis para proteger contra o paternalismo religioso, onde os restaurantes ficam abertos durante o Ramadã e onde os lenços de cabeça são proibidos nas universidades, escolas e escritórios públicos.

Membros do departamento do governo de controle da rádio visitaram redes islâmicas que -sob nomes como "Rádio Lua Cheia" ou "Rosa Tulipa"- reclamam contra cristãos e judeus em "programas de auditório religiosos" ou advertem as mulheres a não apertarem as mãos de homens e lembrarem-se de se comportarem com modéstia.

Os três mosqueteiros muçulmanos

Mesmo a censura, que não é desconhecida na Turquia, agora é praticada em nome da modéstia política. Na semana passada, por exemplo, o Ministério da Educação gerou uma tempestade de ira com seu regulamento decretando que imagens da famosa pintura de Delacroix, a "Liberdade Guiando o Povo", fosse removida dos livros escolares. A razão: os seios nus da porta-estandarte no retrato da revolução de julho de 1830 na França.

Recentemente, o próprio Ministério da Educação ficou revoltado com o fato de várias editoras terem, por iniciativa própria, reescrito os livros para crianças que o ministério havia recomendado para uso em sala de aula. Nas versões editadas, Pinóquio, Heidi e Tom Sawyer vivem em um mundo islâmico onde os habitantes desejam ao outro uma "manhã abençoada" ou pedem comida "em nome de Alá". Aramis, um dos três mosqueteiros, até se converte ao islamismo.

Será que a Turquia está de fato se tornando mais islâmica?

Particularmente agora, depois de chegar tão perto da Europa? O que é inegável é que, um ano após o início das negociações de ingresso na UE, o ambiente na Turquia, com sua população 99% muçulmana, é cada vez mais anti-europeu, anti-Ocidente e nacionalista. Somente um terço dos turcos apóiam a entrada na UE, de acordo com uma pesquisa publicada na semana passada no jornal Milliyet -uma mudança dramática para os turcos, que há tanto tempo são grandes fãs da Europa.

Uma semana antes da publicação do Relatório de Progresso da UE, o governo em Ankara agora teme um agravamento do ambiente. Se o relatório for, como se espera, negativo -fortemente crítico da justiça e dos limites na liberdade de expressão, assim como da relação turca com o Estado do Chipre- então a Turquia estará perto de um "choque gigantesco", disse o jornal.

"A Europa somente quer uma assimilação da nossa parte"

Muitos, até turcos pró-Ocidente, sentem que a Europa criticou-os injustamente, ou até repeliu-os. "Os Estados europeus orientais foram apoiados, praticamente empurrados para a entrada na UE. O mesmo não pode ser dito sobre a Turquia", protesta Cem Duna, membro do conselho da poderosa associação industrial Tüsiad, que continua a defender a entrada na UE. Os turcos religiosos, por outro lado, estão desapontados que a Europa e o AKP, amigável à Europa, não conseguiram implantar maiores liberdades religiosas. "Nossas mulheres que usam lenços na cabeça ainda não têm permissão para estudar", reclama Ali Bulaç, colunista do jornal islâmico Zaman. A circulação de publicações religiosas triplicou nos últimos anos.

Quando o AKP chegou ao poder, há quatro anos, Bulaç ainda estava entusiasmado com a possibilidade de ingresso na UE. Mas então a Corte Européia de Direitos Humanos determinou que a Turquia estava certa ao excluir o uso de lenços nas salas de aula. Bulaç lembra-se com raiva como sua mulher foi proibida de entrar na cerimônia de graduação da filha por causa de seu lenço. Agora ele declara: "Temos que encontrar outra forma, talvez nos voltar para a Ásia e Oriente Médio. A Europa somente quer uma assimilação da nossa parte."

O colunista influente representa um setor religioso emergente na sociedade turca. Como outros colegas seculares, muitos turcos religiosos também se beneficiaram da recuperação econômica dos últimos anos. O resultado foi uma nova burguesia religiosa, e agora ela quer tirar vantagem de sua recém adquirida afluência.

"Qualquer pessoa que seja rica e religiosa pode viver feliz em seu próprio mundo", diz o especialista em islã Serif Mardin. "Você compra alta moda islâmica, anda de carro sofisticado com janelas escuras, compartilha a Internet com outros fiéis, tem conta em um banco islâmico e relaxa em piscinas separadas." Em Istambul, onde os ricos freqüentemente vivem com luxo bem guardado, há agora também distritos separados para muçulmanos praticantes. E o crescimento deste novo setor islâmico confiante está pesando no equilíbrio difícil entre a Turquia islâmica e a secular.

Economista, lutadora e mulher moderna

Os turcos voltados para o Ocidente temem que a imagem do país esteja sofrendo. "Qualquer um que não conheça a Turquia se pergunta como eu posso viver aqui como uma mulher moderna -e aqui é ótimo", diz Ümit Boyner, do conselho da têxtil de mesmo nome em Istambul. Esta economista de 42 anos que luta kick boxing chefiou uma campanha da associação comercial para melhorar a imagem da Turquia. "Queremos mostrar que uma terra com identidade islâmica é completamente compatível com a Europa." Para Boyner, a Turquia será "para sempre um Estado secular".

Mas isso é exatamente o que está em risco, advertem os Kemalistas, que se consideram os sustentadores dos ensinamentos seculares do Mustafá Kemal Atatürk. Esses turcos profundamente voltados para a vida material, que costumavam ser a elite do país, sentem-se ameaçados pela islamizacao da sociedade. Especificamente, apontam para o fato que, sob o AKP, os setores religiosos da sociedade voltaram para a burocracia do governo.

Sob o primeiro-ministro Tayyip Erdogan, a adesão às leis de proteção ao secularismo foi frouxa, reclama Ural Akbulut, reitor da Universidade Técnica de Ancara. Já se pode ver mulheres com lenços na cabeça em algumas universidades, salienta. "No meu campus, ninguém pode se apresentar em uniforme religioso", enfatiza Abkulut. "Se suspendermos a proibição dos lenços, amanhã elas aparecerão de xador e no dia seguinte com uma burca. No final, eles estariam batendo nas meninas que usam roupas modernas. Vimos no Irã como acontece rapidamente".

Recentemente, Akbulut discutiu sobre os perigos que enfrenta a República com seu amigo Ilker Basdug, comandante do Exército turco. Basbug, em uma apresentação muito respeitada, publicamente advertiu sobre uma "ameaça fundamentalista" à Turquia que alcançou "dimensões alarmantes". Erdogan, de sua parte, rejeita veementemente as acusações. "Queremos levar a Turquia para a Europa", insiste uma pessoa próxima a Erdogan, "e estamos mantendo o curso".

O jornal de língua inglesa The New Anatolian também abordou a questão em sua página na Web, em um artigo que indagava se Erdogan ia fazer da Turquia um segundo Irã. Ainda está longe. A Turquia está se tornando mais conservadora, diz o consultor econômico Sinan Ülgen, mas não está se tornando um Estado islâmico. Ainda assim, o AKP quer dar "mais espaço aos interesses religiosos e criar um novo equilíbrio entre secularismo e religião", diz Ülgen.

Observando os imames

Até o Presidente de Assuntos Religiosos da Turquia, Ali Bardakoglu, está convencido que "o secularismo e a modernidade" estão "irrevogavelmente e profundamente ancorados na identidade turca". A Diretoria de Assuntos Religiosos (RAD) sob Bardakoglu é uma das principais ferramentas de controle da religião pelo Estado. Os 70.000 imames da Turquia são servidores públicos que respondem ao RAD. Os sermões de sexta-feira são acompanhados de perto para impedir a pregação do ódio. "Na Turquia, nutrimos um islã moderado e tolerante", enfatiza Bardakoglu.

Ele mesmo, liberal, certamente não é amado por muitos muçulmanos ultra-religiosos. O lenço de cabeça não é de forma alguma obrigatório, diz este teólogo e advogado culto. "Não se define um muçulmano pelo que veste, se bebe álcool ou usa barba." Qualquer um que defina a religião dessa forma contradiz "a essência do Islã", sugere este observador da fé. Por quase meio século, a Turquia vem buscando entrar para a União Européia. No entanto, agora que as negociações foram iniciadas, o entusiasmo está caindo. E a influência do Islã subindo Deborah Weinberg

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