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08/11/2006 - 00h07

Um guarda-sol para a Grande Barreira de Corais

Der Spiegel
Franziska Badenschier

e Stefan Schmitt
A Grande Barreira de Corais está esbranquiçando. As temperaturas crescentes das águas podem significar uma catástrofe para a infra-estrutura de turismo da região. Mas o governo tem algumas idéias.

A ministra do Turismo da Austrália, Fran Bailey, está "muito preocupada". A Grande Barreira de Corais sustenta uma indústria de turismo de US$ 5,8 bilhões que emprega cerca de 33 mil pessoas, ela disse. Mas os recifes de coral não estão cooperando. Cientistas descobriram que, apesar dos corais em pontos mais escuros dos recifes ainda manterem suas cores vivas, aqueles sob luz direta do sol estão começando a esbranquiçar. Os turistas certamente ficariam desapontados se os corais da Grande Barreira se tornassem pálidos.

Mas Bailey tem um plano. Após os resultados promissores de um teste de dois anos, ela desejar erguer vastos toldos -basicamente guarda-sóis gigantes- para impedir os recifes de descorarem.

Sugestões como a de Bailey não são totalmente novas na Austrália. Idéias semelhantes ganharam manchetes nos últimos anos: toldos em pontões; estruturas como guarda-sóis firmemente ancoradas. Não restou nenhuma idéia inexplorada. Mas o que é novo é o governo apoiar tais idéias.

Corais desbotados são notícia antiga

"Obviamente, nós estamos lidando com esta questão de ambos os lados", ela disse recentemente à "Australian Broadcast Corporation", "a causa do problema e também tentando encontrar formas práticas para mitigarmos o problema". Cientistas e a oposição em Canberra têm suas dúvidas -a respeito de ambos os lados da abordagem.

A elevação da temperatura das águas é considerada responsável pelo esbranquiçamento dos corais. A faixa de temperatura na qual os corais podem sobreviver é estreita: assim que a água aquece demais, os corais adoecem. Mesmo uma variação de um ou dois graus Celsius é suficiente. Os corais dependem de algas microscópicas chamadas zooxanthellae para fornecer açúcar e outros nutrientes para eles. Mas quando a água está quente demais, estas algas morrem.

E quando as algas marrons-avermelhadas desaparecem, as cores brilhantes dos corais desvanecem até que tudo o que resta é um esqueleto de carbonato de cálcio -uma estrutura branca fantasmagórica que não se parece muito com o que os turistas aprendem a esperar a partir de seus cadernos de viagem.

Tal esbranquiçamento dos corais ocorre regularmente, segundo Claudio Richter, um especialista em recifes de corais do Centro para Ecologia Marinha Tropical (ZMT) em Breman, Alemanha. Richter disse à "Spiegel Online" que o fenômeno já foi observado antes, inclusive perto da costa leste australiana. Ele acrescentou que o coral não necessariamente morre quando suas cores desaparecem -é apenas quando as temperaturas da água permanecem altas demais por muito tempo que sua sobrevivência fica em risco.

Especialistas estão céticos

"A idéia da cobertura pode fazer sentido econômico para o setor de turismo local, mas de um ponto de vista ecológico, e no que se refere à sobrevivência do recife, não faz sentido", disse Katharina Fabricius, uma especialista na Grande Barreira de Corais do Instituto Australiano para Ciência Marinha, à "Spiegel Online". O simples tamanho do recife torna duvidoso que alguns poucos toldos possam impedir a água de aquecer.

"A idéia também não leva em consideração o fato de que há correntes", apontou o cientista Richter, de Bremen. A Corrente Leste Australiana está constantemente alimentando a Grande Barreira de Corais com água quente. Qualquer efeito benéfico que os toldos poderiam ter se perderia.

A Grande Barreira de Corais tem 2 mil quilômetros de extensão. Em termos geológicos, é uma cadeia de montanhas submarina. "Você certamente poderia montar um toldo acima do topo do recife", disse Richter, "mas tecnicamente isto não é possível". Além disso, Richter está convencido de que o projeto custaria uma fortuna. Bailey, a ministra do Turismo, não citou números quando fez sua proposta.

Várias tempestades tropicais intensas atingem a Grande Barreira de Corais a cada ano. As mais fortes -como o ciclone "Larry", que atingiu a barreira em março deste ano, ou "Ingrid", em 2005- podem causar danos sérios à barreira. Abaixo da superfície. Não é preciso muita imaginação para perceber o que tais tempestades fariam a uma construção de toldos e barras de metal acima da água. "A primeira tempestade arrastaria as barras", acredita Richter. "Eu apenas não consigo imaginar (tal plano) sendo posto em prática", ele disse.

Sprinklers no recife?

Mas outras propostas são ainda mais excêntricas. O conjunto imaginário de barras, toldos e pontões também poderia incluir fontes espirrando uma ducha para esfriar a água. O jornal "The Australian" noticiou que Andrew Skeat, o diretor da Autoridade do Parque Marinho da Grande Barreira de Corais, é a favor de chuveiros frios regulares para a atração turística. Água do mar espirrada, ele disse, poderia absorver parte dos raios UV do sol, esfriando assim a água abaixo. Skeat disse que os primeiros projetos-piloto, realizados em 2004, foram promissores.

"Se será prático e custo-eficaz é outra questão", reconheceu Skeat ao "Australian". Além disso, ele disse, o projeto não constitui uma "solução de escala ecológica para a mudança climática, mas poderia ser responsável pela manutenção de áreas particulares como a alta cobertura de corais".

"Solução para mudança climática." É uma frase chave que está sendo proferida e debatida em todo o mundo -especialmente nesta semana, com a realização de uma conferência da ONU sobre o clima em Nairóbi, Quênia. A Grande Barreira de Corais é uma parte importante de tal debate.

O governo australiano está sob tremenda pressão desde que o governo britânico publicou seu Relatório Stern na segunda-feira. No mesmo dia em que Fran Bailey anunciou seu plano para proteção da Grande Barreira de Corais com toldos especiais, os professores Stuart White e Chris Riedy, do Instituto para Futuros Sustentáveis da Universidade de Tecnologia de Sydney, criticaram o governo em um artigo publicado no "Sydney Morning Herald". Eles argumentaram que o governo precisa tratar um acordo para proteção do clima como "alta prioridade". Eles citaram "Um Futuro de Energia Limpa para a Austrália", um estudo pelo WWF australiano que traça um plano para redução dos gases responsáveis pelo efeito estufa na Austrália até 2050.

E isto é exatamente o que Nicholas Stern, o especialista em economia que avaliou os resultados da mudança climática para o governo britânico, está exigindo. O estudo de 700 páginas de Stern prevê que a mudança climática teria graves conseqüências para a economia mundial. De lá para cá, o governo conservador da Austrália está sob ataque por sua recusa persistente em se juntar ao Protocolo de Kyoto.

No mesmo dia em que o relatório foi publicado, uma membro do Partido Nacional do governo da Austrália mostrou quão fora de contato com a realidade realmente estão alguns dos políticos do país. Ela disse que tecnologia é a resposta. Novas tecnologias resolveriam as preocupações da humanidade ligadas ao clima da mesma forma que carros livraram o problema do estrume de cavalo ao eliminar as carroças da maioria das ruas e estradas, alegou De-Anne Kelly.

Anthony Albanese, um porta-voz para questões ambientais da oposição australiana, o Partido Trabalhista, rapidamente respondeu ao comentário. "O governo Howard simplesmente não é confiável quando se trata de mudança climática", ele disse em uma entrevista para a "Australian Broadcasting Corporation". "Eles não acham que é um assunto sério. O governo Howard está congelado no tempo, enquanto o mundo aquece à sua volta."

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