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09/11/2006 - 00h28

Uma herança nazista para os museus alemães

Der Spiegel
Michael Michael Sontheimer

e Andreas Wassermann
Um leilão de arte na noite de quarta-feira em Nova York promete ser um grande evento social. Mas também reacenderá uma grande questão enfrentada pelos museus alemães: quando se trata de arte tomada de colecionadores judeus pelos nazistas, a moralidade está acima do dinheiro?

Quando a crème de la crème dos colecionadores de arte se reunir na Christie's em Nova York, na noite de quarta-feira, será um dos grandes eventos sociais da estação. A maior casa de leilão do mundo espera que mais de 1.500 compradores potenciais compareçam à sua "Noite de Venda de Arte Moderna e Impressionista" no Rockefeller Center, não distante da Quinta Avenida. Disponíveis para leilão estarão obras de Paul Gauguin, Pablo Picasso e Gustav Klimt, assim como uma pintura de Ernst Ludwig Kirchner que estava em exibição no Museu Brücke de Berlim até 1º de agosto.

O leilão poderá render mais de US$ 300 milhões. A Christie's espera que a pintura de Kirchner de 1913, "Cena de Rua em Berlim", que o Senado de Berlim devolveu à neta do colecionador de arte judeu Alfred Hess, atinja mais de US$ 20 milhões.

Quando este ícone do expressionismo alemão mudar de mãos, ele inevitavelmente reacenderá o debate na Alemanha sobre as dificuldades que os alemães enfrentam para lidar com um aspecto singular de seu passado nazista. De fato, o caso Kirschner é apenas o início.

Herdeiros judeus reivindicam muitas peças de arte valiosas atualmente penduradas em museus alemães. Aqueles encarregados de chegar a uma decisão sobre as obras de arte - sejam diretores de museu ou políticos locais - enfrentam um dilema. Por um lado, há as reivindicações de descendentes de judeus alemães perseguidos ou assassinados, que querem a devolução das obras tomadas de seus ancestrais por coerção. Por outro lado, é do interesse público assegurar que peças de arte importantes permaneçam no país. Diretores de museu acusam alguns dos envolvidos de estarem mais preocupados com os milhões em jogo do que com as questões morais - advogados com mentalidade empresarial ansiosos em atender um mercado de arte ávido por novo material.

Moralidade contra dinheiro

A questão central envolve se o ato de devolução das obras com base moral não está sendo moralmente desacreditado por marchands lucrando milhões. Mas é certo que os diretores de museu alemães estão sob pressão considerável após a devolução da pintura de Kirchner, especialmente quando alguém considera que muitas obras poderão ter o mesmo destino. Especialistas estimam que até 50 obras famosas atualmente em museus alemães poderão acabar em mansões ou cofres de colecionadores ao redor do mundo. Os herdeiros de antigos donos de pinturas de Ernst Ludwig Kirchner, August Macke, Lyonel Feininger e Franz Marc exigem que as obras sejam devolvidas. Foi pedido ao Museu Staatsgalerie de Stuttgart, por exemplo, a devolução de uma pintura de Marc, de 1911, intitulada "Os Pequenos Cavalos Azuis". O Museu Wilhelm Hack, na cidade central alemã de Ludwigshafen, recebeu um pedido de restituição de "Julgamento de Paris" de Kirchner, e o Museu Sprengel, em Hannover, o de "Gato Atrás de uma Árvore" de Marc. Mais de uma dúzia de museus públicos foram afetados pelas reivindicações.

Mas ninguém sabe se a lista atual está completa. A única coisa que todas as partes envolvidas - os advogados dos herdeiros, assim como diretores de museu e políticos interessados em preservar a herança cultural alemã - têm em comum é o sigilo. Nem mesmo o democrata cristão Bernd Neumann, ministro da Cultura e de Mídia, sabe exatamente quais museus estão enfrentando tais reivindicações. Alarmado pelas fortes críticas públicas recebidas pela devolução da pintura de Kirchner pelo museu de Berlim, Neumann planeja convidar os diretores de grandes instituições culturais e museus, assim como peritos legais, para uma reunião na chancelaria neste mês para discutir a situação.

Neumann está em uma situação difícil. Afinal, foi o governo alemão, em uma conferência em Washington em dezembro de 1998, que prometeu a devolução das obras de arte aos descendentes de vítimas do nazismo. Foi uma conferência da qual autoridades do governo alemão participaram com grande apreensão. Apesar do então ministro da Cultura, Michael Naumann, ser passionalmente favorável à devolução de tais obras de arte, o Ministério das Relações Exteriores temia que a Alemanha acabaria ficando no papel de ré em Washington. Segundo as minutas de uma reunião preliminar envolvendo vários ministros do governo, funcionários ficaram "preocupados" que a abordagem americana "poderia representar o estabelecimento de ilimitadas novas reivindicações de restituição".

Não impressionados pelos números desconcertantes

Os diplomatas ao menos conseguiram desarmar uma questão sensível. Após uma das reuniões preparatórias em Washington, eles enviaram um cabograma para a Alemanha, escrevendo que não haveria "conexão retórica entre os nazistas e a Alemanha". Mas em outro telegrama eles alertaram que a devolução de cerca de 110 mil peças, no valor de US$ 10 bilhões a US$ 30 bilhões, estaria em discussão.

Mas as autoridades em Berlim não ficaram impressionadas por estes números desconcertantes e suas instruções para os representantes da Alemanha em Washington permaneceram as mesmas. Os alemães, juntamente com representantes de 43 outros países, assinaram uma declaração com onze pontos. Segundo a essência da declaração, as obras de arte confiscadas durante a era nazista seriam procuradas, identificadas e seus herdeiros de direito determinados. Assim que isto ocorresse, "uma solução justa" seria acertada com os herdeiros.

O júbilo com o consenso de 1998 de lá para cá se transformou em irritação com a onda de reivindicações de restituição. Especialistas atualmente suspeitam que pelo menos algumas partes envolvidas em Washington estavam interessadas em mais do que apenas o bem-estar dos descendentes de vítimas das atrocidades nazistas. Após analisar antigos registros, funcionários da chancelaria encontraram o nome de um homem com aparentemente vários motivos.

Um americano e um dos mais pródigos colecionadores de arte do mundo teve um papel chave na realização da conferência. Ronald Lauder, 62 anos, é herdeiro da fortuna de cosméticos de sua mãe Estée Lauder e da companhia que leva o nome dela. Lauder, um bilionário cuja família judia tem suas raízes na Áustria, também foi tesoureiro do Congresso Judeu Mundial, que estabeleceu uma "Comissão para Recuperação de Arte". Diplomatas alemães descobriram que a pessoa por trás desta comissão foi "nomeada por instigação de Lauder", como os funcionários do consulado alemão em Nova York informaram ao Ministério das Relações Exteriores em Berlim.

Foram necessários muitos anos e peritos em arte para avaliar a verdadeira extensão do envolvimento de Lauder, especialmente nos esforços de herdeiros judeus para recuperar cinco pinturas do pintor vienense de art nouveau Gustav Klimt, em propriedade do governo austríaco. Os herdeiros finalmente prevaleceram neste ano, com Justiça. Lauder, que serviu como embaixador americano em Viena no passado, se gabou de ter servido como "uma espécie de consultor não oficial" para a família que reivindicava as pinturas. O sucesso dos esforços de Lauder se tornaram aparentes demais em junho, quando ele adquiriu uma das pinturas, "Adele Bloch-Bauer I", por US$ 135 milhões.

Simples mudança de terminologia

Michael Naumann era o homem na Alemanha que queria assegurar que as reivindicações de restituição dos judeus fossem tratadas de forma justa. A seu pedido, uma "Declaração Conjunta do Governo Federal, Estados e Associações Centrais das Municipalidades para Recuperação e Devolução de Ativos Culturais Confiscados em Decorrência da Perseguição Nazista, Especialmente Aqueles de Propriedade Judia", foi adotada em dezembro de 1999. Um conselho consultor foi formado para resolver disputas potenciais.

Mas quando a declaração de Washington foi implementada, as opções de restituição na Alemanha foram expandidas por meio de uma simples mudança de terminologia. A frase "obras de arte confiscadas pelos nacional-socialistas" foi substituída pela frase "ativos culturais perdidos em decorrência da perseguição nazista". Os novos termos representavam que reivindicações também se aplicavam às chamadas "artes de refugiados", em outras palavras, pinturas que os judeus que emigraram da Alemanha durante a era nazista venderam para se sustentar.

Além disso, condições rígidas foram impostas ao destino das pinturas disputadas nos museus. Em caso de obras que foram vendidas durante a era nazista, os museus em questão eram obrigados a provar que não apenas concordaram em pagar um valor justo de mercado pelas pinturas, mas que o preço foi de fato pago. O problema é que para a maioria destas obras, recibos nunca foram emitidos ou já se perderam - como no caso de "Cena de Rua em Berlim" de Kirchner, que foi vendida em 1936. Incapaz de apresentar um recibo pela obra, a cidade de Berlim foi forçada a devolver a pintura.

Muitos museus alemães carecem de mais que apenas recibos. "Nos anos do pós-guerra", disse Naumann, "não havia consciência de injustiça nos museus alemães". Em janeiro de 1999, Naumann escreveu: "No meu entender, os museus alemães ainda precisam realizar esforços satisfatórios para tratar desta preocupação, realizando inventários precisos e abrangentes das obras de arte de origem dúbia ou questionável, isto é, aquelas saqueadas pelo Terceiro Reich".

De lá para cá isto mudou, apesar de não necessariamente de uma forma como Naumann endossaria. Muitos museus agora estão fazendo sua própria pesquisa como parte de um esforço para rebater os pedidos de restituição. Seus diretores se queixam de "advogados astutos" e dos "brutais ataques morais" que empregam para apoiar suas ameaças.

Na verdade, para começar, são freqüentemente os advogados que encorajam os herdeiros a impetrarem os pedidos de restituição. Este aparentemente foi o caso com a pintura de Kirchner e outras obras que antes pertenciam à coleção de Alfred Hess, um fabricante de sapatos da cidade de Erfurt, no leste. Há seis anos, a neta de Hess, Anita Halpin, não demonstrou nenhum interesse qualquer pelas pinturas de seu avô. Mas neste ínterim, ela pediu a restituição de várias dezenas de pinturas da antiga coleção Hess. Halpin é representada por David J. Rowland, um advogado com escritório na Park Avenue de Nova York que é especializado em restituições.

"Sujeito a venda forçada"

Apesar do Senado de Berlim estar agindo dentro do espírito dos esforços iniciais de Naumann, há um caso no qual o governo federal se comportou como muitos diretores de museu - simplesmente se recusando a devolver obras reivindicadas pelos descendentes de seus ex-donos. De fato, é um caso de tamanho destaque que até mesmo o presidente da Alemanha, Horst Köhler, se envolveu.

Há vários anos, Juan Carlos Emden, um chileno, exigiu que o Ministério das Finanças da Alemanha devolvesse duas pinturas valiosas do século 18. O avô de Emden, o empresário judeu Max Emden, foi forçado a vender as obras do pintor italiano Bernardo Bellotto, mais conhecido como Canaletto, após emigrar da Alemanha para a Suíça. O governo alemão é dono das obras desde 1949 (a Alemanha Ocidental era proprietária delas até 1990). Mas devolver as pinturas para Emden estava fora de questão, informaram burocratas do ministro das Finanças, Peer Steinbrück, aos advogados de Emden em uma decisão final em agosto. As pinturas, eles argumentaram, não foram "sujeitas a venda forçada".

Há muitos paralelos entre o caso de Emden e o da coleção Hess. Max Emden, um colecionador de arte que também era dono de obras de antigos mestres holandeses e impressionistas franceses, deixou a Alemanha definitivamente em 1933 e se estabeleceu em Ticino, na Suíça. Ele posteriormente foi forçado a vender o império corporativo que deixou para trás na Alemanha sob circunstâncias desfavoráveis.

Como resultado, o imigrante judeu se manteve na Suíça basicamente com a venda de suas pinturas, que ele conseguiu trazer em segurança antes que pudessem ser tomadas pelos nazistas. O marchand de Hitler, Karl Haberstock, comprou os Canalettos em 1938, quando Emden os colocou à venda por meio de marchands em Munique e Londres. As vistas barrocas de cidades de Canaletto decorariam o "Museu do Führer" que Hitler planejava construir em Linz, Áustria, após a "vitória final" dos nazistas.

O preço de compra acertado pelos Canalettos foi de 60 mil francos suíços, um preço que o herdeiro de Emden, Juan Carlos, chama de "escandaloso". Até hoje, ninguém sabe se Max Emden recebeu pelas pinturas. Ele morreu no exílio na Suíça em 1940 e as pinturas se tornaram propriedade do governo alemão após o fim da Segunda Guerra Mundial. A decorativa "Zwingergraben" acabou na sala de jantar da Villa Hammerschmidt, que se tornou a residência oficial do presidente alemão em 1951. Mas o atual presidente, Horst Köhler, pediu a remoção da pintura após ser informado de sua história.

Adolf - não Alfred

Os funcionários do ministro Steinbrück estão aparentemente fazendo de tudo para impedir a perda de até 100 pinturas de propriedade do governo alemão, pinturas que peritos classificam como "arte de refugiados". Juan Carlos Emden, por sua vez, já deixou claro que não planeja pendurar os Canalettos "acima do sofá da sala de estar". De fato, grandes casas de leilão já sondaram Emden.

Hans Ottomeyer, diretor geral do Museu Histórico Alemão em Berlim, assumiu a mesma postura dura do Ministério das Finanças. No ano passado, o filho do dentista judeu e colecionador Hans Sachs fez a reivindicação do que restou de uma coleção excepcional que antes consistia de 12 mil pôsteres, e que Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, ordenou que fossem confiscados em 1938. Cerca de 3.500 pôsteres ressurgiram no Museu de História Alemã de Berlim Oriental após a guerra. A restituição das obras, alertou Ottomeyer, seria "uma grande perda, especialmente se a coleção for vendida peça a peça". Apenas após ser pressionado pela chancelaria, Ottomeyer concordou em permitir que o caso fosse discutido perante a comissão formada para resolver disputas.

Como Ottomeyer, Katja Schneider, diretora da Galeria Nacional Moritzburg na cidade oriental de Halle, argumenta que "nenhuma pintura será devolvida voluntariamente". Schneider também enfrenta uma reivindicação de Rowland, o advogado de Nova York. O alvo da reivindicação de Rowland é um grupo de pinturas expressionistas da coleção do industrial judeu de Frankfurt, Ludwig Fischer. Em 1924, a esposa de Fischer vendeu 24 pinturas de Kirchner, Marc e Erich Heckel em troca de uma anuidade de 20 anos. Mas em 1935 os nazistas cancelaram a anuidade. Além do pagamento pleno da anuidade, Rowland está exigindo a devolução de uma pintura a óleo de Franz Marc, "O Gato Branco", da coleção Fischer.

Para Rowland, que representa os três herdeiros de Fischer nos Estados Unidos, a "pequena oferta" que recebeu do museu Moritzburg é inadequada.

Além destes casos, os diretores de museu e os especialistas em restituição que se reunirão na chancelaria em 20 de novembro discutirão uma estratégia geral. Como os diretores de museu e políticos envolvidos em questões culturais estão "freqüentemente sobrecarregados", o recém-aposentado diretor do Museu Stuttgart Staatsgalerie, Christian von Holst, está defendendo o estabelecimento de um escritório central de pesquisa que rastrearia o caminho freqüentemente tortuoso das obras de arte.

É uma abordagem que também poderia beneficiar as grandes casas de leilão. Em um clássico ato falho freudiano, a atual revista da Christie's identifica incorretamente o colecionador de arte Hess, que antes era dono das pinturas de Kirchner, como Adolf - não Alfred.

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