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14/11/2006 - 00h12

Gelo antártico revela elo climático com Groenlândia

Der Spiegel
Gerald Traufetter
O gelo na Antártida está dando aos cientistas alemães um vislumbre único da história do clima na Terra. Eles descobriram evidências de uma gangorra de temperatura global conectando os dois hemisférios.

A aldeia alemã mais ao Sul consiste de alguns trailers cor de laranja. Até aqui, entretanto, reina a organização alemã. O serviço de limpeza é estritamente organizado, o lixo é separado em diferentes categorias, e aos domingos todos se reúnem para um assado. Neste lugar o incomum é o dia-a-dia -o acampamento se localiza sobre uma camada de gelo de três quilômetros de espessura.

Localizada na interior da Antártida, a Estação Kohnen fica bem no meio do deserto gelado em torno do Pólo Sul. Somente cerca de uma dúzia de pessoas moram neste ponto solitário durante o curto verão polar -pesquisadores europeus apreciando a hospitalidade alemã e fazendo pesquisa climática.

De fato, a Estação Kohnen é responsável pela mais recente descoberta sobre o destino do clima global -e a publicação de seus resultados na revista Nature dificilmente poderia ter sido em melhor momento. O artigo foi publicado enquanto 6 mil delegados reúnem-se na capital do Quênia, Nairóbi, para uma conferência da Organização das Nações Unidas sobre como melhor lidar com o clima modificado pela humanidade.

O Projeto Europeu para o Centro Gelado da Antártida (Epica) conseguiu olhar para trás e ver o futuro. Sua análise das amostras de gelo obtido por perfuração na estação Kohnen revelou um elo significativo entre variações de temperatura na Groenlândia e na Antártida -um mecanismo que governa a oscilação entre fases quentes e frias nos hemisférios Norte e Sul. "Chamamos de gangorra bipolar", diz Hubertus Fischer, pesquisador do Instituto Alfred Wegener da Alemanha de Pesquisa Marinha e Polar (AWI) e autor do novo estudo.

Sua principal preocupação eram evidências de mudança climática incomum reveladas por amostras de gelo da Groenlândia há alguns anos. As temperaturas durante a última Era do Gelo, segundo os núcleos das amostras, tinham oscilado repetidamente para cima e para baixo - "Em mais de 10 graus em poucas décadas", explica Fischer.

Os cientistas há muito se perguntam se essas enormes variações de temperatura tinham sido apenas um fenômeno regional. O resultado mais recente mostrou que não. A amostra de gelo de 2.774 metros que a equipe Epica extraiu da Antártida em fevereiro revela uma imagem espelho das mudanças de temperatura no Hemisfério Norte. "Quando ficava quente no Norte, o oceano em torno da Antártida esfriava", disse Fischer. "E vice-versa: o Hemisfério Sul ficava mais quente quando o Norte esfriava."

Essas variações de temperatura parecem ser causadas pelo sistema de correntes no Oceano Atlântico. Agindo como uma esteira rolante gigante, o sistema leva água do pólo Sul para os trópicos e de lá para Europa e Groenlândia. A extensão Norte do sistema é chamada de Corrente do Golfo.

A corrente varia em fluxo -às vezes é mais forte, às vezes é mais fraca. A análise das amostras de gelo mostrou que dois fatores determinam essas flutuações: por um lado, a corrente pode ser enfraquecida por um período de grande precipitação e degelo. A entrada de água doce torna a água mais leve, que não corre tão rápido para as profundezas entre a Groenlândia e a ilha ártica de Spitsbergen. "O resultado é que a esteira diminui de velocidade", diz Fischer.

Algum tempo depois, entretanto, ela volta a acelerar, e o impulso pode vir do Sul. Inicialmente, a corrente enfraquecida leva os mares do Sul a se tornarem mais quentes. Eventualmente, depois de um período de tempo de até centenas de anos, as águas do Sul podem aumentar de temperatura em até 3º C, concluíram Fischer e sua equipe com base na análise do gelo.

Esse aquecimento pode levar a um aumento da salinidade da água nos limites das camadas do gelo antártico, enquanto o gelo de água menos salina se rompe e flutua embora. A água mais pesada e mais salgada dos limites afunda, e a esteira rolante gigante volta a ganhar velocidade, acreditam os pesquisadores. "Essas fases alternaram-se repetidamente na história da Terra", explicou Fischer.

As amostras de gelo continham outra surpresa para os pesquisadores. As massas de gelo do Antártico são muito menos estáveis do que se pensava até hoje. Quando o chefe de perfuração da equipe Frank Wilhelms ia mais fundo na rocha, entrava água pelo buraco. "Corre um riacho abaixo da crosta de gelo", conta.

A pressão enorme de 250 bars aparentemente está levando o gelo a derreter -mesmo à temperatura de -2º C. "Teríamos que assumir que uma parte considerável do gelo da Antártida está em cima dessa camada líquida", conclui o cientista.

A recém descoberta conexão Norte-Sul pode definitivamente ter conseqüências: "Austrália, América do Sul e África do Sul em particular podem sofrer temperaturas ainda mais altas do que pensávamos", diz Fischer.

A mensagem contida no gelo dará pouco conforto aos políticos ambientais em Nairóbi, diz o glaciologista. A gangorra climática de fato ajuda a distribuir o calor entre Norte e Sul. "Mas não muda o fato que, em média, (o clima) vai ficar mais quente."

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