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15/11/2006 - 00h05

No meio do "nada", surge a nova capital do Cazaquistão

Der Spiegel
Christian Neef
Esqueça a farsa do filme "Borat". O Cazaquistão está em vias de se tornar uma locomotiva da Ásia Central. O seu presidente, Nursultan Nazarbayev, construiu por iniciativa própria uma capital nova em folha, no meio das estepes, destinada a ser o símbolo maior das riquezas do seu país.

Toda dia, ao anoitecer em Astana, quando os soldadores chegam ao canteiro da construção que fica do outro lado da rua para integrar a equipe noturna, Vassily Lestyev dá-se conta de que ele já perdeu a sua batalha. Uma pálida luz azul toma conta da sua sala de estar, enquanto a barulheira das britadeiras se torna ainda mais ensurdecedora do que durante o dia.

Um novo hotel está sendo construído bem na frente do casebre de barro de Lestyev, e o seu esqueleto de concreto está plantado a oito metros apenas da Rua Kossygin, 8 - o endereço de Lestyev. A sua casa está com os dias contados. A água já foi cortada e desde que as escavadeiras passaram a circular muito perto da sua soleira, rachaduras do tamanho de um dedão começaram a dilacerar as paredes.

Lestyev tem 80 anos. Ele traja um pulôver desgastado e uma calça de jogging de moletom azul, e mal consegue ficar em pé. A sua mulher de 86 anos está fritando cebola no fogão a carvão. O casal construiu esta casinha com as suas próprias mãos, mas agora uma carta do tribunal do distrito, que está em evidência sobre a mesa, ordenou que a propriedade seja evacuada "dentro de uma semana". Se não cumprirem a ordem, eles serão removidos à força. "Neste caso", reza a carta, "nós não assumiremos nenhuma responsabilidade pelos seus pertences".

Os zumbidos, os gritos e os estrondos dos canteiros de obra podem ser ouvidos em cada esquina de Astana, agora que o presidente cazaque, Nursultan Nazarbayev, declarou este assentamento cossaco situado a 970 quilômetros ao norte da antiga capital, Almaty, a nova capital do país. A decisão transformou esta cidadezinha outrora sonolenta numa cidade pulsante. Até o momento, a transformação dividiu os seus habitantes em duas classes. Os Lestyev pertencem obviamente à categoria dos perdedores.

Aldeia sonolenta

Yury Braun, por sua vez, é um vencedor. Um empresário cazaque que apresenta uma curiosa semelhança com o ator francês Lino Ventura, Braun é bem alimentado e ostenta com insolência o bronzeado que ele pegou durante as suas recentes férias de nove dias nos Emirados Árabes Unidos.

Sentado à mesa do seu escritório, na Rua Auesov, Braun bebe chá verde e está visivelmente satisfeito. Os seus diversos negócios - o grande restaurante no andar térreo, o hotel adjacente, uma padaria e uma loja no nível da rua - estão florescentes. 125 empregados mantêm o seu pequeno reino pulsando de modo contínuo. E não haveria de ser diferente: o local é muito bem situado em Astana, e o seu proprietário de 50 anos é um homem que afirma que sempre soube que as coisas iriam "tomar um rumo melhor, dia ou outro" nesta pequena cidade das estepes cazaques.

Braun é descendente de alemães. Astana, conhecida anteriormente pelo nome de Zelinograd, ainda era uma cidade "alemã" há apenas uma década e meia, povoada principalmente pelos descendentes de alemães do Volga que o antigo ditador soviético Josef Stalin (1878-1953) banira e expulsara em 1941, rumo a campos de concentração nas planícies selvagens da Ásia Central.

Mas quando o império soviético ruiu, quando as enormes fábricas de máquinas agrícolas foram fechadas e que os campos de trigo da região deixaram de ser cultivados, a maioria dos alemães mandou-se de cuias e malas para o oeste - e retornou ao "Reich" alemão. De repente, essa região, que era considerada pelo antigo líder do Partido Comunista, Nikita Khrushchev (1894-1971) como um possível celeiro do país, mas que acabou se revelando muito menos produtiva do que o esperado foi abandonada por muitos dos seus habitantes.

Braun decidiu ficar. Um engenheiro da construção civil especializado em construir prédios comerciais, ele utilizou o "dinheirinho" que ele havia conseguido numa mina de ouro para comprar o prédio do qual é hoje proprietário na Rua Auesov. O presidente cazaque, Nursultan Nazarbayev, esteve no restaurante de Braun, o Yegorkino, em seis oportunidades e, segundo Braun, "ele gostou da nossa comida". Orgulhosamente ele presenta fotos nas quais ele posa ao lado do presidente. E agora, milagre entre os milagres, ele adquiriu repentinamente uma nova propriedade onde ele planeja construir um segundo hotel que incluirá um clube de bilhar. O novo edifício ficará na ribanceira esquerda do Rio Ishim, onde a construção do novo palácio presidencial de Nazarbayev já está concluída. Trata-se de uma localização excepcional, que sem dúvida será extremamente valorizada dentro de poucos anos.

As histórias de Braun e Lestyev são apenas duas das muitas sagas de sucessos e de fracassos, dos ricos e dos pobretões, nesta remota cidade pioneira cazaque situada numa planície desolada a meio-caminho entre o sul da Rússia e a fronteira chinesa. Mas, diferentemente do que ocorreu no Oeste americano 110 anos atrás, a expansão acelerada de Astana não é movida pela corrida ao ouro, e sim pela vontade de ferro de um monarca déspota.

"Palácio da Paz e da Harmonia"

A Torre Bayterek, nome que significa "Árvore da Vida", uma ampla esfera de vidro empoleirada no topo de uma flecha de metal de 100 metros de comprimento que se parece um pouco com o troféu da Copa do mundo da Fifa, encarna a determinação feroz com a qual Nazarbayev, o último líder comunista do Cazaquistão que foi reeleito no ano passado para um quarto mandato com 91% dos votos, está construindo a sua nova capital assim como se marca um boi com ferro incandescente, em meio ao vasto descampado deserto das estepes da Ásia Central.

A torre forma o centro de um eixo monumental que corre em linha reta por toda a extensão do distrito governamental e conecta entre eles os novos centros do poder do país. Na extremidade oeste desse eixo estão os quartéis-generais das companhias de petróleo e de gás que pertencem em parte ao Estado, cujos edifícios estão conectados entre si por um arco de triunfo. Por sua vez, a extremidade leste é marcada pela "Ak Orda", a residência presidencial, de mármore branco, cuja estrutura de granito é coroada por um domo azul-céu. O célebre arquiteto inglês Sir Norman Foster projetou uma pirâmide de vidro de 62 metros da altura, o "Palácio da Paz e da Harmonia", que se encontra agora no parque que fica logo atrás do novo palácio de Nazarbayev.

Outros símbolos do poder de Nazarbayev foram distribuídos pelo eixo, dentre os quais se incluem os arranha-céu que abrigarão o Parlamento e o Senado do país, o prédio da Corte suprema, um edifício para os arquivos nacionais, cuja forma é comparável a de um ovo gigante, além de uma "Torre dos Transportes" dotada de uma fachada cuja superfície de vidro é tingida de ouro. Atrás dessas estruturas fica o bairro diplomático, uma coleção de mansões miniaturas de teto vermelho, alinhadas em meio à paisagem assim como fileiras de soldados obedientes, situadas a uma distância convenientemente reduzida do palácio presidencial. As cúpulas daquilo que agora passou a ser a maior mesquita do Cazaquistão e, um pouco mais adiante, as torres do Palácio do "Triunfo" - uma réplica perfeita de um grande monstro construído em Moscou do tempo de Josef Stalin - resplandece na luz do sol do outro lado desta avenida.

Os bate-estacas seguem desfechando seus socos ensurdecedores em meio a essa coleção de torres ornamentadas e de minaretes dotados de fachadas voluptuosas e de tetos em forma de cebola. Contudo, o que mais falta nesse ambiente são pessoas. A nova Astana é uma criação artificial, uma espécie de combinação de Moscou com Las Vegas, um atalho entre a alta tecnologia da moderna cidade de Wolfsburg (onde fica o quartel-general da Volkswagen na Alemanha) e uma vetusta cidade de fábricas, um coquetel de modernidade eurasiana com antigos manufaturados soviéticos. Mas os críticos já centraram fogo contra o caráter megalomaníaco da nova cidade, dela denegrindo praticamente tudo, desde as suas pretensões de recriar um espírito "Mil e Uma Noites Árabes" até as suas "fantasias de poder moldadas no concreto".

O czar Pedro o Grande (1672-1725), numa iniciativa que visava a abrir a Rússia para a Europa, fez construir a sua nova capital, São Petersburgo, nos brejos do Golfo da Finlândia. Oscar Niemeyer planejou a sua Brasília como uma cidade-capital modelo; a capital da Austrália, Canberra, é o resultado de uma disputa entre Sydney e Melbourne; e a nova capital da antiga Birmânia (hoje Mianmar, no sudeste asiático), Nay Pyi Taw (a 350 km ao norte de Yangun, a antiga capital), foi concebida como um refúgio afastado, pela junta militar paranóica que dirige o país.

US$ 2 bi por ano

Mas, o que dizer de Astana? "Eu também fui surpreendido pela decisão de transferir a capital", admite Amanshol Chikanayev. Este que é o arquiteto em chefe de Nazarbayev, agora atua como consultor do presidente para questões de planejamento urbano. No seu escritório situado atrás da nova sede da prefeitura, o professor está sentado em meio a maquetes e armários repletos de mapas e desenhos. Ele discute sobre as supostas razões que estariam por trás da decisão do seu presidente de construir uma nova capital para este que é o nono maior país do mundo (2.717.306 km2), num esforço gigantesco que irá custar anualmente ao Estado US$ 2 bilhões (R$ 4,32 bilhões) por muitos anos ainda.

A localização da capital atual, Almaty, bem ao lado da fronteira no sul do país e muito perto da China, era "uma via sem saída em termos econômicos", comenta Chikanayev. Ela também apresentava riscos em termos de segurança para o governo, uma vez que os cazaques étnicos estavam em minoria em relação à maioria de etnia russa depois de o país ter declarado a sua independência em 1991, enquanto a metade do país permanecia numa situação desconfortável, exposta ao seu maior vizinho ao norte. Por fim, prossegue Chikanayev, Nazarbayev estava convencido de que a melhor maneira de alinhar o seu país, que se encontrava então numa situação econômica conturbada, com o Ocidente era separar ele mesmo e o seu governo dos poderosos clãs de negócios em Almaty.

Ao que tudo indica, o sucesso comprovou que Nazarbayev estava certo. O Cazaquistão conheceu uma expansão sem precedente desde que ele conseguiu assegurar para si o controle dos seus próprios recursos naturais, os quais incluem petróleo, gás natural, urânio e ouro. O país já conseguiu economizar US$ 13 bilhões (R$ 28,1 bilhões) em reservas; ele está enviando os seus próprios satélites ao espaço e, com US$ 40 bilhões em investimentos estrangeiros diretos, tornou-se, com a exceção dos países bálticos, o maior receptor per capita de capital estrangeiro entre os Estados que pertenciam à antiga União Soviética.

Este antigo reino de pastores nômades hoje possui uma rede de energia e de gás natural, um sistema de educação secundária completo e extenso, uma moderna rede bancária e fundos de pensão privados - uma realidade dos sonhos para muitos cidadãos do maior vizinho do Cazaquistão ao norte, a Rússia. É claro, os Cazaques têm razões de sobra para se queixar de que a nova comédia, "Borat!: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan" ("Borat!: Ensinamentos culturais da América em benefício da gloriosa nação do Cazaquistão", um filme satírico dirigido por Larry Charles que bateu recordes de bilheteria nos Estados Unidos; estréia no Brasil: 16/02/2007) que transformou o Cazaquistão num objeto de risadas para o mundo inteiro, pinta um quadro totalmente enganador do seu país que avança a passos largos rumo à prosperidade.

O presidente também está convencido de que o Cazaquistão já está bem adiantado no processo de transição que irá transformá-lo num dos países os mais bem-sucedidos do mundo. Nazarbayev deixou claro que ele tem planos para tornar o seu país uma das "50 nações mais prósperas do mundo" por volta de 2030, e que ele se tornará o quinto maior exportador de petróleo até mesmo antes disso e, de maneira implícita, o poder dominante na região da Ásia Central.

Gordas aranhas numa teia

Movido por um feroz apetite por energia, o Ocidente, no afã de compartilhar as riquezas dos cazaques, vem mostrando uma boa-vontade extrema em fazer vistas grossas ora para o estilo autoritário de Nazarbayev, ora para a inexistência de eleições livres no país, ora para os assassinatos de membros da oposição e o nepotismo que grassa no clã presidencial. De fato, as filhas e os genros de Nazarbayev estão confortavelmente inseridos e protegidos nos negócios do petróleo e da construção, e nos meios de comunicação, assim como gordas aranhas numa teia.

É claro, Almaty entrou em rebuliço quando o presidente deixou claro que todos os membros do ministério, os embaixadores estrangeiros, as companhias aéreas internacionais e até mesmo o circo nacional não teriam outra escolha senão fazer as malas e mudar-se para lá - uma cidadezinha da província que desponta agora, logo atrás da capital da Mongólia, Ulan Bator, como a segunda capital mais gelada do mundo, um lugar que ainda permanece coberto de neve na época em que as amendoeiras já estão florescendo em Almaty. Astana, segundo afirma um habitante ofendido da antiga capital, "não possui nem sequer calçadas, e cada tijolo, cada sarjeta precisam ser trazidos de algum outro lugar".

Mas, aos 60 anos, Amanshol Chikanayev, o arquiteto, enxerga na inocência de Astana a sua maior oportunidade. Ele acredita que a cidade vai se tornar um símbolo para o país, que está prestes a reinventar a si mesmo. "Nós não vamos reeditar as fábricas de produtos manufaturados da era soviética", diz Chikanayev, "e, além de vender matérias-primas, nós também pretendemos tirar vantagens do nosso potencial intelectual". Em sua opinião, Astana representa uma ruptura do Cazaquistão com o seu passado.

De um modo bastante paradoxal, o homem que está fazendo essas previsões otimistas é um cidadão que se tornou maior de idade sob o comunismo e cujo terno parece ter sido confeccionado também naquela era. Mas, para Chikanayev, o filho de um rico fazendeiro criador de gado, a nova cidade também constitui uma forma de compensação pelas injustiças do passado. Os soviéticos destituíram de seu título de "Kulak" (o termo Kulak se refere àqueles que eram ricos fazendeiros ou camponeses durante o Império russo e foram mais tarde perseguidos pelos soviéticos) o seu pai durante os anos 1920 e levaram-no para as florestas das montanhas do Ural. Chikanayev nasceu na cidade russa de Yekaterimburgo. Mais de 2 milhões de cazaques foram mortos naquele tempo, e os Chikanayev só conseguiram retornar à sua terra de origem 30 anos mais tarde.

E agora, prossegue Chikanayev, os Cazaques finalmente recuperaram a sua soberania. Ele planeja formas de convencer conterrâneos cazaques do antigo Centro soviético de pesquisas de armas biológicas da Ilha de Vozrozhdeniye, no Mar de Aral a retornarem para Astana. De fato, se esta iniciativa de Chikanayev for bem-sucedida, "essas pessoas que são preciosas para nós" voltarão para casa. Entre elas estão especialistas cazaques nos mais diversos setores, da antiga indústria de armas, matemáticos, engenheiros em informática, entre outros, que desenvolveram suas pesquisas na Rússia. Ele espera ver Astana transformar-se numa cidade "high-tech", e convencer a maior quantidade possível de pessoas qualificadas a se instalarem na nova capital. Atualmente, Chikanayev está redesenhando o plano-mestre da cidade que foi projetado pelo proeminente arquiteto japonês Kisho Kurokawa. Segundo Chikanayev, este último nada viu em Astana a não ser uma "fachada atraente".


Justa compensação

Contudo, para alcançar este objetivo, a cidade precisará de um número muito maior de arranha-céus para abrigar as "800.000 pessoas que estarão morando aqui por volta de 2030". A população da nova capital já soma 500.000 habitantes, o que explica o ritmo espantoso das construções no antigo bairro de Astana. Os cidadãos que moravam de longa data no bairro e que vêm dando lugar gradativamente às escavadoras lutam hoje para se ver atribuir o que eles consideram como uma justa compensação. Enquanto muitos aposentados se queixam da perda das suas hortas que agora foram destruídas e dos preços escandalosos praticados nos novos restaurantes, o espírito dos "novos cazaques", que têm como apelido os "Kasanovas", já tomou conta das avenidas da nova capital.

Os planejadores urbanos de Astana esconderam os edifícios pré-fabricados de concreto da era Khrushchev por trás de fachadas brancas, criando espaços para pubs e boates nos seus andares térreos. Os empreiteiros anunciam um "novo sentido da vida" para os que comprarem imóveis nos seus condomínios, enquanto bancos tais como o Texaka estão oferecendo "dinheiro rápido" àqueles que se dispuserem a pagar juros de 12%. Manadas tonitruantes de carros de fabricação ocidental encobertas pela poeira de cimento movem-se constantemente entre as fileiras de outdoors que anunciam os mais diversos serviços à disposição dos novos habitantes de Astana.

Mesmo se a sua construção acaba de ser concluída, todas as 459 residências dos condomínios "Elite" e "Deluxe" que foram construídas no palácio "Triunfo", situado atrás da "Torre Astana" já foram vendidas, a um preço por metro quadrado de cerca de 1.300 euros (R$ 3.597,07). Esta quantia equivale mais ou menos ao salário anual médio de um professor cazaque. Entretanto, "em todos os casos os clientes pagaram à vista", diz Shanar Ainabulatova, a subdiretora da Basis-A, a companhia que desenvolve as residências dos novos edifícios de Astana. Almaty pode estar ignorando com soberba a sua rival Astana, mas os seus habitantes não hesitaram um só instante a investir o seu dinheiro na nova capital.

O próximo projeto da Basis-A inclui um quarteirão inteiro planejado por completo que será chamado de "Romance" e comportará réplicas de criações da arquitetura européia do século 19. "O estilo refinado dos ingleses, a sofisticação dos franceses e a vivacidade dos italianos", comenta Shanar Ainabulatova enquanto folheia uma brochura lustrosa. As imagens descrevem uma Disneylândia cazaque, mas o que elas não conseguem mostrar é uma noção de proporcionalidade e de bom gosto. De fato, a megalomania é o nome do jogo em Astana. O esboço do novo ministério da fazenda, que dá de frente para os quartéis-generais do prédio repleto de vidros da KNB, a agência nacional de inteligência do Cazaquistão, foi projetado no tamanho de uma nota de dinheiro. Um especialista revela que a pirâmide de Foster, que abrigará um centro de conferências e uma ópera, deverá consumir a mesma quantidade de eletricidade que uma "pequena cidade alemã".

O ditador Nazarbayev mostra-se tão alheio a esta ostentação quanto às incursões que a indústria da construção vem empreendendo em Astana, que tem sido invadida por um exército de suíços, italianos, kuaitianos e jordanianos. O xeique do Catar doou o dinheiro necessário para construir uma nova mesquita. O grupo saudita Bin Laden, sob a cobertura de uma companhia chamada "KazArabInvest", construiu um centro cardiológico e agora está erguendo quatro torres de 20 andares. Por sua vez, a companhia sul-coreana Highvill Corporation está construindo um bairro inteiro completo com 600.000 metros quadrados de espaços residenciais.

Mas nenhuma dessas companhias pode sustentar a comparação com a onipresença dos turcos, que construíram a mesquita e a pirâmide. "Eles compram as propriedades como se estivessem numa linha de montagem, recorrem a empresas terceirizadas e então vendem o produto acabado", explica um oficial da cidade. Segundo este funcionário, é notório na cidade que os turcos seguem produzindo concreto em temperaturas próximas de -40 ºC e que os seus projetos apresentam as taxas mais elevadas de acidentes mortais nos canteiros de obras. Ele aponta para o esqueleto de um conjunto residencial gigantesco em construção que provavelmente deverá ser desmantelado dentro de pouco tempo para ser refeito. Astana está repleta de construções de "arquitetura temporária" que dificilmente poderão perdurar por mais de 20 anos, alerta Tsubokura Takashi, um assistente do planejador urbano japonês Kurokawa.

Onde estão os alemães?

Andreas Seewalt, um homem de negócios que dirige uma pequena companhia comercial instalada numa fábrica abandonada de máquinas de ceifar e enfeixar, diz que os turcos "não são populares entre os cazaques ordinários. Mas os altos funcionários ainda acreditam no conto de fadas segundo o qual os turcos reconstruíram a Alemanha inteira com as suas mãos depois da guerra. E a Alemanha tem uma sólida reputação por aqui".

De maneira bastante estranha, os alemães estão praticamente ausentes em Astana. A (companhia aérea) Lufthansa foi alvo de pressões por parte dos cazaques e passou a oferecer dois vôos semanais para a nova capital. O gigante industrial ThyssenKrupp fornece elevadores para os arranha-céus construídos pelos turcos. A Wirtgen, uma companhia alemã especializada na construção de estradas e em equipamentos de manutenção, está fornecendo tecnologia para a produção de asfalto; uma companhia berlinense esteve envolvida na construção do palácio presidencial e até mesmo o ministro alemão das relações exteriores, Frank-Walter Steinmeier, efetuou uma visita oficial em Astana na semana passada.

Mas, de maneira geral, as companhias alemães têm repugnado a se submeter a concorrências diretas para obter contratos de desenvolvimento. "Esta é uma situação costumeira nesta cidade", diz Seewalt. "Os alemães querem preços alemães e garantias do governo, mas nenhuma dessas duas opções está disponível por aqui. Caso quiser se envolver neste projeto gigante de Astana, você precisa poder contar com as pessoas certas ao seu lado em primeiro lugar - e isso representa um trabalho excessivo para os alemães".

Andreas Seewalt está familiarizado com os dois mundos. Ele tem 43 anos e assim como o hoteleiro Yury Braun, é um cazaque de origem alemã. Ele estudou a engenharia elétrica e emigrou para a Bavária com os seus pais em 1992. Mas quando os seus negócios faliram, ele resolveu retornar ao Cazaquistão com quatro caminhões lotados de tinta fabricada na Alemanha. Ele costuma enfrentar de maneira intrépida desafios para os quais ele de fato não está qualificado, e ele sabe como lidar com os corretores de poder da cidade.

A sua abordagem deu certo quando ele foi premiado com uma fatia do boom da construção de Astana: ele descolou um contrato para instalar as partes laterais do madeiramento da arena do novo circo, que fica agachado como uma espécie de Óvni entre o antigo e o novo distrito da cidade. Alguns amigos na Alemanha ajudaram Seewalt a recrutar profissionais e a providenciar o material necessário. O seu próximo projeto baseia-se num novo contrato, de 10 milhões de euros (R$ 27,67 milhões), destinado a instalar uma fachada de vidro na torre de escritórios de 182 metros de altura que abrigará a administração do sistema ferroviário do país.

Ainda assim, tanto os planejadores da cidade quanto os homens de negócios locais continuam à espera dos "verdadeiros" alemães, especialmente daqueles que não se intimidam com os riscos em investir em Astana. Talvez por antecipação, alguém abriu até mesmo uma cervejaria no estilo alemão, dotada de um jardim, onde se pode degustar marcas clássicas de cervejas alemãs tais como Weihenstephan e Franziskaner, enquanto diferentes pratos preparados com molhos bávaros figuram no cardápio. A clientela - todos os fregueses são cazaques - bebe cerveja alemã e ouve canções alemães de beber. Mas não há ninguém ali que seja capaz de traduzir as letras.

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