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09/12/2006 - 00h35

Invasores serão comidos

Der Spiegel
Philip Bethge
Americanos excêntricos têm mais tigres do que todo o mundo selvagem. Mas ter grandes felinos pode ser um hobby perigoso, especialmente quando os animais se voltam contra seus proprietários.

Vincent Lowe, 49, não teve nem tempo de pegar sua pistola de calibre .357. Em um pulo poderoso, o tigre de 220 kg atravessou o arame de sua gaiola e alfinetou Lowe no chão. A mordida do tigre fraturou o pescoço de Lowe como se fosse um palito de pão, matando-o quase instantaneamente.

"Ele não devia trabalhar tão perto da jaula. Ele ignorou todas as regras e provocou o bicho!" disse Robert Baudy sentado em sua sala de estar, escura de cortina fechadas, vestindo roupas de safári e parecendo uma reencarnação octogenária do Dr. Marsh Tracy do seriado de televisão dos anos 60 "Daktari".

"Peguei um dos meus rifles e corri até ele", disse Baudy. "Tive que matar meu próprio tigre!" Mas então um sorriso cruza o rosto do senhor de 83 anos. "Com um rifle excelente, a propósito, um magnum .22, alemão. Precisei de apenas dois tiros."

Baudy claramente gosta do papel de caçador. Francês de nascença, Baudy passou os últimos 30 anos criando tigres, leões, pumas e leopardos em Center Hill, Flórida. Milhares de grandes felinos nasceram sob os carvalhos antigos da fazenda de Baudy, "Savage Kingdom". Baudy aparentemente vê a morte de seu funcionário, Vincent Lowe, como um acidente de trabalho. Mas para outros, o caso enfatiza o absurdo da indústria de tigres.

"Sou o inimigo número dos ativistas de direitos dos animais", diz Baudy. Ele olha pensativo para uma enorme pintura de dois tigres na neve na sala de estar. "Você sabe, esses ativistas são loucos. É minha culpa se as pessoas não sabem como lidar com esses animais?" pergunta o criador de tigres.

Bem vindo aos EUA, terra do predador. Há mais tigres morando nos EUA do que em qualquer outra parte do mundo. As estimativas estão entre 10.000 e 15.000 animais. Os especialistas calculam que há no máximo 7.000 tigres vivendo no mundo selvagem.

Milhares de americanos sucumbiram ao fascínio dos grandes felinos predadores. Criadores como Baudy fornecem à indústria filhotes de tigre inofensivos. Mas os filhotes logo se tornam animais grandes e poderosos, demais para muitos dos proprietários. Ativistas de direitos dos animais criticam a prática porque muitos dos animais, traumatizados e aleijados, acabam passando seus últimos dias em zoológicos de terceira categoria.

Esse mundo que tem uma mistura estranha de adrenalina, urina de gato seca e odor levemente pungente de carne fresca que os tigres comem aos quilos por dia é mais comum na Flórida. Esta espécie de excentricidade que levaria alguém a comprar um tigre é evidente para qualquer um que atravessa West Palm Beach, com seu brilho artificial.

Um aviso no portão de metal pesado do terreno de Steve Sipek diz tudo: "Invasores serão comidos." O ator de 64 anos, que fez o papel de Tarzan, não tem tigres apenas como bichos de estimação. Ele literalmente vive com eles.

De fato, Sipek transformou toda sua casa em uma jaula para felinos. Os visitantes do antigo rei da selva entram por uma passagem estreita por uma porta nada imponente. O senhor da mansão está sentado com dois de seus gatos, Bo e Little Bo, em uma sala por trás de uma grade de arame. Uma barra de metal fina é a única coisa que impede os dois tigres de saírem da jaula.

Sipek é um gigante. Usando o nome artístico de Steve Hawkes, ele trabalhou em filmes como "Tarzan, o Rei da Floresta" e "Tarzan and the Brown Prince" nos anos 60 e 70. Ele também fez o papel de um peru gigante que bebia sangue em um filme B obscuro chamado "Blood Freak". Mas ser domador de grandes felinos é o papel da sua vida. Sipek diz que vivenciou uma espécie de despertar quando um leão acorrentado ao seu braço certa vez o tirou de um cenário incendiado e ele acredita que foi escolhido para cuidar dos grandes gatos.

"Tocar em um tigre é como tocar a face de Deus", diz Sipek. Ele cuidou de mais de 100 grandes felinos em sua casa durante os anos. "Salvei meus gatos de uma vida em uma jaula", alega. "Eles aqui podem até usar a piscina."

Depois tem a hora da comida. A namorada de Sipek, Kathi, arrasta dois baldes de carne. Sipek está como gosta. Segura a carne no nível do olho e os gatos de 300 pulam e comem da sua mão. A sobremesa é leite misturado com ovos, servido em uma mamadeira.

Os gatos quase não prestam atenção aos estranhos. Mas se uma pessoa volta suas costas para um dos tigres, ele imediatamente se torna nervoso e instintivamente agacha-se como se fosse dar um bote. A tensão é quase palpável. A pessoa subitamente se sente uma presa.

O policial Jesse Lee deve ter se sentido assim quando Bobo, tigre de Sipek, atacou-o há dois anos em julho. De acordo com o relatório da Comissão de Vida Selvagem da Flórida (FWC), "os dentes dos tigres estavam à mostra e suas orelhas estavam para trás. Lee caminhou para trás enquanto atirava cinco rodadas de sua AR-15 semi-automática". O corpo do tigre ficou nos arbustos. Eram 17h20.

Bobo tinha fugido do zoológico privado de Sipek no dia anterior. A polícia e funcionários da administração da vida selvagem da FWC e o próprio Sipek o procuraram. Ele foi visto várias vezes, mas os dardos paralisantes que os agentes atiraram não atingiram o alvo. No final Jesse Lee o matou.

Sipek enterrou o gato em seu quintal. O túmulo é decorado com flores e esculturas de animais. "Eu queria matar aquele policial bastardo", disse Sipek. "Meus amigos não me deixaram, mas eu o teria matado."

De acordo com o tenente Charles Dennis, da FWC, "o policial seguiu a política da agência. Um tigre de 300 kg pode ferir ou matar alguém. Quando ele agarra a pessoa, não tem saída. Não tem talvez ou poréns. Ele vai matá-la." O tenente estava sentado em seu escritório na FWC, com chapéu de caubói e óculos escuros. Dennis acredita que é fácil demais adquirir felinos grandes.

"Em minha opinião, temos que ser mais rígidos sobre as pessoas que têm tigres", disse Dennis, "deixe-me mostrar porquê". Ele abriu seu laptop. Uma série de pessoas cobertas em sangue e mutiladas apareceu na tela. A última imagem é de uma mulher com a garganta rasgada. "Joy Holiday era treinadora de animais. O mesmo tigre matara outra pessoa dois meses antes." Por que o tigre não fora sacrificado? "Você sabe, a maior parte dos americanos pensa assim: 'Se você tem um tigre, então é seu problema se o tigre decide te comer.'"

De acordo com o Fundo Internacional para o Bem Estar Animal, cinco pessoas foram mortas por grandes felinos desde 2003 só nos EUA. Mais de 40 outras ficaram feridas, algumas severamente. Em muitos casos, são os especialistas que se tornam vítimas. Roy Horn, astro de show é um exemplo famoso. Horn e seu parceiro Siegfried Fischbacher formavam a dupla mundialmente famosa Siegfried & Roy. Ele foi atacado por um tigre há três anos durante uma apresentação no Hotel Mirage, em Las Vegas. O animal, chamado Montecore, mordeu o pescoço do apresentador e o arrastou do palco. Horn quase não sobreviveu.

Crianças também foram mortas. Americanos gostam de tirar fotografias com grandes felinos. Foi esse tipo de desejo que matou Haley Hilderbrand, de 17 anos, em agosto. Ela estava posando para uma foto ao lado de um tigre em um zoológico privado em Mound Valley, Kansas. Até hoje ninguém sabe por que Haley subitamente dobrou-se para frente. O tigre mergulhou os dentes em seu pescoço, matando-a na hora.

Nem mesmo esse tipo de incidente desestimula os grandes entusiastas de permitir que seus tigres interajam com crianças. Gloria Johnson, amante de felinos da cidade de Havana, no Norte da Flórida, diz que a "educação da vida selvagem" é sua missão na vida. "Há poucas pessoas especialmente e altamente treinadas para ensinar crianças sobre o que significa a extinção", diz Johnson. "Significa nunca mais."

É claro que Johnson, 51, se inclui entre esses especialistas. Ela comprou seu tigre branco de um ano e meio de Baudy, pelo preço especial de US$ 5.000 (em torno de R$ 11.000). "Eu ofereci trabalho voluntário para Robert por um longo tempo", explica. "Um filhote de tigre branco em geral custa US$ 15.000" (em torno de R$ 33.000). Tigres amarelos, diz ela, podem sair por US$ 1.200 (aproximadamente R$ 2.600).

Johnson pegou um segundo empréstimo só para poder comprar seu tigre, Casanova. Sua casa de madeira simples está cheia de parafernálias para gatos. Grupos de crianças regularmente lotam sua sala de estar para admirar o tigre e dois pumas, Ashukalee e Lakota, no quintal.

"Levei Casanova para as escolas até ter seis meses", diz a petite Johson. Ela colocava o animal, que já tinha 45 kg na época, em uma coleira para mostrá-lo às crianças. Johnson está convencida de que as lições são valiosas para as crianças: "Quando olham nos olhos de um tigre vivo, isso é uma experiência que não têm na Internet ou na televisão."

Johnson diz que faz o papel da pequena loura dominando o tigre, uma versão pessoal de "A Bela e a Fera". Mas ativistas de direitos dos animais dizem que fãs de felinos que gostam de publicidade, como Johnson, meramente patrocinam o comércio dos animais, porque criam uma demanda ainda maior para os grandes felinos.

"Gloria passeia com seu tigre em uma coleira e o leva para a escola, enquanto ao mesmo tempo alega que os tigres não são bichos de estimação", diz Carole Baskin, "isso é balela". A loura de Tampa, arquiinimiga de Johnson, fez uma fortuna em imóveis e costumava investir no ramo de criação de grandes felinos. "Eu achava que estava fazendo alguma coisa para ajudar a proteger a espécie", diz Baskin, "mas sei hoje que nenhum do dinheiro da indústria vai para a preservação."

Hoje em dia Baskin opõe-se fortemente à propriedade privada de tigres. Ela dirige um santuário animal em Tampa, chamado Big Cat Rescue, que é essencialmente um lar para os rejeitados da indústria de grandes felinos. Animais aposentados do circo vivem seus últimos anos no lugar, que também serve de lar para tigres indesejados.

Auroara, uma tigresa, é um pouco vesga, tem o maxilar inferior adiantado e pernas deformadas. "Ela é um exemplo típico do que chamam de tigre descartável", diz o colega de Baskin Scott Lope. "Auroara é o resultado de extremo cruzamento consangüíneo, costumeiro na indústria para gerar os procurados tigres brancos." Mas Auroara não nasceu branca e foi vendida por poucos dólares para um proprietário privado. "Ele simplesmente a deixou aqui em certo ponto."

Shere Khan é outro exemplo. "Ele tem ossos fracos, dentes ruins e pernas curtas", diz Lope. "Provavelmente foi criado em uma gaiola pequena demais e foi mal alimentado, então não conseguiu se desenvolver da forma adequada."

"Em certa altura, os tigres se tornam grandes demais e fortes demais para quase todos os tratadores", diz Baskin. Ela diz que está cansada de administrar um campo de refugiados para felinos rejeitados, e quer ver uma lei mais rígida aprovada. "Dez Estados não têm a menor restrição", diz ela, acrescentando que, apesar de a Flórida ter leis que regulam a indústria, são praticamente impossíveis de fiscalizar. "A lei exige 1.000 horas de experiência com grandes felinos antes de poder comprar um tigre. Mas o problema é que os que estão atestando essa experiência são os que estão vendendo os animais."

No terreno do "Savage Kingdom" de Robert Baudy, esse tipo de crítica parece uma conversa ativista de um mundo distante. Há algo de atemporal e eterno sobre os grandes felinos de Baudy enquanto caminham sinuosamente em suas jaulas. "Não entendo todo o excitamento", diz Baudy. "Sessenta mil americanos se ferem com cavalos todo ano, mas apenas dois ou três com tigres". Ele coça gentilmente o tigre Romeo pelas barras da sua jaula. O som do ronronar do animal ecoa como trovão.

Baudy passeia com tristeza pela propriedade ensolarada. Ele sabe que seus dias estão contados. "Estou a caminho da extinção", diz. Ele ainda tem 17 grandes felinos. Duas tigresas estão grávidas e logo parirão.

Mas Baudy não vai vender os filhotes. A morte de Vincent Lowe teve conseqüências: depois de mais de 30 anos no ramo, o criador perdeu sua licença.

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