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20/12/2006

O envenenamento de Litvinenko - A Alemanha desempenha um papel central na investigação sobre o polônio

Der Spiegel
Uwe Klussmann e Andreas Ulrich
Uma foto de passaporte encontrada em um escritório de Hamburgo está sendo considerada uma das provas centrais em uma investigação sobre o assassinato do ex-espião russo Alexander Litvinenko. Ela revela que Dmitry Kovtun, um suspeito que se encontrou com Litvinenko no dia em que a polícia acredita que este foi envenenado, entrou em contato com o polônio-210 pelo menos dois dias antes.

A maioria dos russos associa um departamento municipal a uma grande espera. Isso tornou a situação ainda mais surpreendente para Dmitry Kovtun, 41, quando, após chegar na segunda-feira, 30 de outubro, à prefeitura de Hamburgo, no bairro Altona - uma estrutura clássica com uma vista para o Elba -, ele só tivesse que passar alguns minutos apresentando o seu pedido de um visto de residência permanente. Ele assinou o formulário, e o processo estava concluído.

Mas a sua assinatura não foi a única coisa que Kovtun deixou no formulário. No documento também ficou uma foto de passaporte - uma foto que os investigadores confirmaram estar contaminada com a radiação letal do polônio-210.

A foto contaminada de Altona desempenha agora um papel central na investigação britânica sobre a morte misteriosa do ex-oficial de inteligência do KGB (Comitê de Segurança do Estado, o serviço de inteligência da antiga União soviética), Alexander Litvinenko. Eles acreditam que o crítico do Kremlin foi envenenado com polônio no dia 1º de novembro no bar do Hotel Millennium, em Londres. E como o formulário de inscrição de Kovtun com a foto estava oficialmente datado, eles sabem agora que o russo de Hamburgo já apresentava traços de radiação dois dias antes do envenenamento de Litvinenko.

Em 1º de novembro, Kovtun voou de Hamburgo para Londres, a fim de se encontrar no Hotel Millennium com Litvinenko e com um segundo colega ex-KGB, Andrei Lugovoy. Agora os investigadores estão tentando determinar se foi Kovtun, que alega inocência no caso, que trouxe o veneno para Londres. Independentemente disso, promotores federais de Hamburgo o estão investigando devido a suspeita de que ele tenha portado substâncias radioativas ilegais.

A conexão Hamburgo

A atenção dos investigadores se voltou para Hamburgo pela primeira vez devido a uma matéria da "Der Spiegel", de duas semanas atrás, revelando que Kovtun voou para Londres via Hamburgo. Depois disso as autoridades policiais descobriram o endereço em que Kovtun ficou - Erzbergerstrasse 4, no bairro de Ottensen, em Hamburgo.

Quando especialistas do Departamento Federal de Proteção contra Radiação da Alemanha confirmaram a existência de radioatividade no local em 8 de dezembro, isso desencadeou uma atividade frenética por parte do Ministério do Interior da cidade-Estado. A polícia de Hamburgo informou o Departamento Federal de Investigação Criminal (BKA) e criou uma comissão investigativa especial. Os policiais reconstruíram o percurso de Kovtun - e ao fazerem isso descobriram traços de radiação em vários pontos da cidade e em outras localidades.

Kovtun conhece a área ao longo do Rio Elba como a palma da sua mão. Em 1992, o ex-oficial do Exército Soviético solicitou asilo político em Hamburgo, onde ao final de 1994 conheceu Marina, também de origem russa. Eles se casaram em 1996.

Mas Kovtun não é um tipo caseiro. Quando tem dinheiro, ele o gasta com as duas mãos e, assim, o casamento não durou muito. Atualmente Marina mora com o seu novo marido e os dois filhos na Erzbergerstrasse 4.

Mesmo hoje em dia, Kovtun continua sendo um amigo próximo da ex-mulher e da família dela, que é dona da casa. Quando ele voou para Hamburgo em 28 de outubro em um jato Tupolev da Aeroflot, vindo de Moscou, a sua ex-mulher Marina o pegou no aeroporto em um BMW station wagon.

Eles conversaram e beberam juntos na residência na Erzbergestrasse até tarde da noite. Marina e o marido ofereceram o sofá da sala para que Kovtun dormisse nele. Os investigadores encontraram traços de radiação no apartamento e no BMW. Mas, ao contrário do que ocorre no caso da foto, não é possível determinar a data exata em que esses outros traços foram deixados, e não se pode descartar a possibilidade de que essa radioatividade esteja vinculada a outros visitantes.

No domingo, 29 de outubro, Kovtun ligou para a sua ex-sogra, Eleonora W., uma psiquiatra respeitada. "Dmitry sempre me liga quando está em Hamburgo", diz ela. "Caso contrário eu ficaria brava com ele". Ela mora em uma ex-fazenda reformada com esmero, em Haselau, 30 quilômetros a oeste de Hamburgo. Ela o pegou no seu Chrysler 300C. "Ficamos sentados durante toda a noite na mesa da cozinha, bebendo e conversando", conta W.

Na manhã seguinte, a psiquiatra levou o ex-genro até Hamburgo. Tanto o carro quanto a casa de W. apresentam traços de radiação - mas a data em que esses traços foram deixados também não pode ser determinada. Kovtun ficou aliviado pelo fato de tudo ter sido resolvido tão rapidamente no departamento público, diz Eleonora W. Ele ligou para Marina, cujo marido usou o próprio cartão de crédito para reservar um lugar para Kovtun em um vôo da Germanwings, em 1º de novembro, com destino a Londres.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Kovtun se encontrou com Litvinenko e Lugovoy no Pine Bar, no Hotel Millennium, em Londres. Segundo Lugovoy, eles se encontraram para discutir uma cooperação entre a sua firma de segurança em Moscou e a companha de segurança britânica Erinys and Risc Management. Mais tarde, traços de radiação foram encontrados por toda parte - no Hotel Millennium e na companhia de segurança Erinys. O fato de nenhuma radiação ter sido detectada no ônibus que transportou Litvinenko até o hotel fez com que os investigadores acreditassem que o russo foi envenenado dentro do Hotel Millennium.

Um contrabandista nuclear ou mais do que isto?

Em Hamburgo, a polícia considera Kovton suspeito de ser um contrabandista nuclear. "Os traços encontrados fazem com que seja difícil descartarmos a hipótese de que ele portava polônio-210", diz Thomas Menzel, que está chefiando a investigação.

Mas Kovtun alega que visitou a companhia de segurança Erinys, em Londres, muito antes - em 16 de outubro. Mas, novamente, ao contrário dos traços de radiação encontrados na foto de Hamburgo, os traços achados na Erinys não podem ser datados. O advogado de Kovtun em Hamburgo, Stefan Knief, diz que o seu cliente provavelmente já estava contaminado ao voar de Londres para Moscou, e, da mesma forma, quando veio de lá, via Hamburgo, de volta a Londres. Assim, não haveria forma de ele ter transportado polônio conscientemente.

Essa teoria de um envenenamento anterior é a última esperança de Kovtun. Caso isso não possa ser confirmado, ele provavelmente será indiciado.

Mas os investigadores ainda não sabem com que tipo de crime estão lidando. Alguém determinou que o oficial de inteligência renegado Litvinenko fosse liquidado? A sua morte foi o resultado de um acidente durante a venda ilegal do material? Ou isso teria sido obra de forças sinistras que desejam desacreditar o presidente russo Vladimir Putin?

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