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21/12/2006

Auxílio social radical na Faixa de Gaza - O "Tio Hamas" toma conta dos palestinos

Der Spiegel
Ulrike Putz
na Faixa de Gaza
O Ocidente classifica o Hamas como uma organização terrorista, mas na Faixa de Gaza, o grupo islamita é muito respeitado por ajudar as famílias necessitadas. Os grupos internacionais de auxílio humanitário também elogiam o Hamas por ser isento de corrupção.

A vida de Etidal Sinati na pobreza teve início em uma noite em março de 2003. Helicópteros israelenses faziam ataques aéreos contra o campo de refugiados Jabalia, no norte da Cidade de Gaza. O marido de Etidal, Mohammed, e um grupo de outros homens saíram para avaliar os estragos. Mas os israelenses não tinham terminado. Um helicóptero de ataque voltou e disparou contra os civis que observavam a destruição. O marido de Etidal foi morto, deixando-a com sete filhos, sem ninguém para sustentá-los. Do dia para a noite, Sinati se tornou uma beneficiária de auxílio social - e passou a ser leal ao Hamas. O grupo muçulmano radical passou a sustentar a família destituída.

"O meu marido não apoiava o Hamas. Na verdade, ele gostava do Fatah", conta a viúva Sinati. Faz frio na sua cabana de dois cômodos. Um tio doente mental senta-se em um canto da habitação, às vezes rindo para si mesmo enquanto coloca um cobertor de lã sobre a cabeça. "Mas sem o Hamas nós não teríamos sobrevivido, e até mesmo com o apoio deles as coisas têm sido difíceis".

A pensão oficial para a viúva de um "mártir" - um palestino morto pelas forças armadas de Israel - é de 100 euros a cada três meses. Para uma família grande que mora na Faixa de Gaza, isso dá para uma boa refeição à base de frutos do mar, mas não é o suficiente para os outros gastos. "Assim, o Hamas adotou os meus filhos", diz Etidal Sinati. A viúva recebe o equivalente a 15 euros por mês de auxílio para cada criança, e todos os filhos freqüentam gratuitamente uma escola administrada pelo Hamas. "Votei no crescente na eleição de janeiro", diz Etidal, que é analfabeta. A lua em quarto crescente é o símbolo do Hamas.

Um partido para os pobres

À primeira vista o Hamas, um partido que cuida dos pobres com o seu dinheiro e as suas obras de caridade, parece estar tocando uma nota bem conhecida no instrumento do populismo. Por outro lado, toda grande organização de auxílio internacional está elogiando o grupo islâmico devido à qualidade do seu trabalho. "No relatório de 2003 do Grupo de Crise Internacional, as mais importantes organizações não governamentais norte-americanas deram notas máximas ao trabalho do Hamas. Elas não teriam sido capazes de fazer um serviço melhor", diz Helga Baumgarten, professora da Universidade Birzeit, em Ramallah.

Baumgarten acredita que o sucesso do partido, que emergiu da radical Irmandade Muçulmana em 1987, se baseia em dois fatores: o trabalho altamente profissional da agência de auxílio social do grupo, e da freqüentemente citada integridade do Hamas. "De fato, todos os estudos concluíram que o Hamas atua sem nenhum traço de corrupção", diz Baumgarten. "Isso possibilitou que a organização conquistasse o respeito da população no decorrer dos anos".

No entanto, o Hamas não é um partido moderado. Ele se vê como a vanguarda da resistência palestina à ocupação israelense. Após uma vitória eleitoral surpreendente em janeiro passado, a organização se recusou a renunciar ao conflito armado ou a reconhecer Israel. O fato de desde a sua criação recorrer seguidamente aos atentados suicidas à bomba contra cidadãos israelenses também contribuiu para que o Hamas fosse classificado como organização terrorista no Ocidente - apesar das suas atividades filantrópicas no dia-a-dia.

Mas é difícil dizer se o Hamas usa deliberadamente o seu trabalho filantrópico para angariar a simpatia do povo. "O compromisso social não é um meio para um fim. Eu não interpretaria isso como sendo uma mera exploração", diz Baumgarten. E mesmo se fosse, vários partidos pelo mundo afora não operam diferentemente.

Construindo sobre a fé

O Al-Mujamma al-Islami, ou Centro Islâmico, no sudeste da Cidade de Gaza, é uma prova concreta de que o Hamas literalmente está construindo sobre a fé. A mesquita no andar térreo do centro recém-construído está funcionando há várias semanas, enquanto os funcionários do centro sentam-se entre caixas no quarto andar, acima da galeria das mulheres no salão de orações. O centro, fundado em 1973 pelo xeque Ahmed Yassin, e que é a mais antiga organização muçulmana de caridade em Gaza, cresceu demais para caber na sua antiga sede. Os seus 150 funcionários acabaram de se mudar para os seus novos escritórios no último final de semana.

A princípio, Yassin, um homem preso a uma cadeira de rodas, que fundou o Hamas em 1987, e que foi assassinado em um ataque israelense feito com um míssil de precisão, administrava as verbas da organização na sala de estar da sua modesta casa, relativamente próxima à sede. Hoje em dia o centro se transformou em uma enorme instituição de caridade na Faixa de Gaza, administrando 16 jardins de infância, 30 escolas alcorânicas e fornecendo dinheiro, alimentos e roupas a milhares de famílias sem dinheiro. O centro também paga um auxílio extra a 5.000 órfãos. É lá que Etidal Sinati coleta o auxílio financeiro para os seus sete filhos.

Nidal Shabana, o diretor do centro, atualmente gerencia um orçamento anual de cerca de US$ 1 milhão. Apesar da sua posição proeminente, Shabana continua sendo um homem modesto, embora uma ponta de orgulho pelo seu trabalho possa ser vislumbrada quando ele fala que a equipe islâmica de pingue-pongue recentemente venceu o campeonato da Faixa de Gaza sob o seu patrocínio. "A modéstia e a honestidade são princípios especialmente valorizados no islamismo", diz ele. Quando pedem a sua opinião a respeito da força crescente dos partidos muçulmanos no mundo árabe - um fenômeno visto com grande preocupação no Ocidente - Shabana se torna circunspecto. O comportamento dos líderes islâmicos é exemplar, diz ele, acrescentando que as suas mãos estão limpas. De forma indireta, Shabana está dizendo que considera os líderes políticos dos Estados árabes vizinhos corruptos e moralmente fracos.

Desde a década de 1970, o fracasso dos regimes autoritários no mundo árabe - dominado por famílias cujo objetivo é encher os próprios bolsos, e por burocracias inchadas e ineficientes - levou os grupos muçulmanos a preencherem um vácuo social e político nos Territórios Palestinos ocupados por Israel, no Líbano, no Egito e na Jordânia. O fato de o Hamas não ter sido reconhecido como o único partido governante nos Territórios Palestinos não se constitui de forma alguma em um fenômeno local. A resistência à luta do Hezbollah pelo poder em Beirute é algo de similar. Essas organizações religiosas fundamentalistas são uma ameaça aos regimes estabelecidos na região. Não são só Israel e os seus aliados ocidentais que desejam conter o avanço dos islamitas.

Etidal Sitani tem consciência de que a organização que jogou uma bóia salva-vidas para a sua família está enfrentando pressões dentro dos Territórios Palestinos e no exterior. Mas isso só fez aumentar o apoio dela aos seus benfeitores. O seu filho mais velho recentemente vestiu o uniforme do pai. Mas enquanto o pai era reservista em uma das forças de segurança do Movimento Fatah, o filho pretende lutar pelo Hamas. "Ainda não permitirei que ele ingresse nas milícias. Afinal, ele só tem 15 anos de idade", diz a mãe. "Mas ele poderá combater pelo Hamas quando fizer 20 anos".

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