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09/01/2007

Derrotado no Iraque, Bush necessita de um "Plano C"

Der Spiegel
Georg Mascolo e Bernhard Zand
As imagens trêmulas da execução do ex-ditador Saddam Hussein só fizeram aprofundar a tragédia iraquiana. Enquanto os xiitas comemoram a morte do homem que eles consideram responsável pela perseguição que sofreram, os políticos sunitas estão deixando o país. E contrariando todas as expectativas, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, agora quer aumentar a presença militar norte-americana no Iraque.

O fato aconteceu precisamente da forma que Abu Ali Sheibani havia previsto no verão passado: o tirano seria enforcado no penúltimo dia do ano. Ele sofreria uma "morte fria", e a clemência não seria uma opção disponível.

Com um histórico de previsões tão precisas, quem ousaria duvidar de que a próxima profecia do mais famoso vidente do Iraque se concretizará? Segundo Sheibani, o país passará por uma nova provação em fevereiro. Ele prevê que os seus compatriotas sofrerão com "ainda mais guerra e mais derramamento de sangue".

Este é um bom período para se exercer a função de profeta da desgraça do Iraque. Afinal, a verdade dificilmente poderia ser menos sombria do que as tenebrosas previsões em um país tão sufocado pela violência. Não é de se admirar que atualmente os iraquianos estejam prestando tanta atenção a tudo que os profetas e os astrólogos têm dito sobre o futuro.

A audiência de Sheibani está na casa de centenas de milhares de indivíduos. Da relativa segurança do Líbano, ele apresenta um programa diário na TV Scheherazade, no qual prevê rotineiramente o fim do Iraque e dá conselhos sobre as desordens mentais - como depressão, colapsos nervosos e psicoses - que afligem os iraquianos que ligam para o show. Este provavelmente será um ano de muito trabalho e desafio para Sheibani. No dia da execução de Saddam Hussein, o popular profeta televisivo afirmou que a morte do ex-ditador implicaria no recrudescimento da deterioração do panorama iraquiano.

Mais uma vez a previsão de Sheibani é confirmada pela realidade. Em vez de marcar o fim do capítulo mais horrendo da história mais recente do Iraque, a execução do ex-ditador só abriu novas feridas. Se os xiitas compõem odes à morte de Saddam Hussein e a rede de televisão estatal retransmite diariamente um coral de crianças da cidade xiita sagrada de Karbala cantando uma música que celebra a morte do ditador ("Queremos vê-lo morto/Esta é a reconciliação do povo iraquiano"), durante o funeral de Saddam os líderes tribais sunitas removeram a tarja negra que usam sobre os seus turbantes, o iqal, como sinal de que a morte do ex-líder não ficará sem resposta.

Rumo ao inferno

Mais do que com a execução em si, os sunitas estão indignados com as circunstâncias caóticas em que Saddam Hussein foi executado. O vídeo trêmulo feito na câmara de execução nas antigas instalações do serviço de inteligência de Saddam no norte de Bagdá - imagens que já se constituem em um peça documental da época, assim como as cenas de tortura da prisão Abu Ghraib - é mais um elemento explosivo que contribui para a tragédia do Iraque de pós-guerra, além de ser uma evidência da fraqueza do governo iraquiano. Planejada originalmente para ser o cumprimento solene de uma sentença judicial, a execução acabou se transformando em um espetáculo no qual o enforcador de ontem bateu boca com o enforcador de hoje. "Vá para o inferno", gritou uma das testemunhas da execução um pouco antes da abertura do alçapão da forca. As suas palavras poderiam muito bem terem sido dirigidas a todo o país.

As imagens são "repugnantes", disse o assessor de segurança nacional do Iraque, Muwaffak al-Rubaie, uma das testemunhas da execução. Durante algum tempo na semana passada, Rubaie chegou até a ser suspeito de ter distribuído as imagens, que geraram indignação em todo o mundo. "Quem quer que esteja envolvido e seja responsável por isso deveria estar envergonhado", afirmou o vice-primeiro-ministro britânico John Prescott.

Já as reações de Washington foram notavelmente contidas. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, que ainda mantém consigo a pistola que Saddam usava quando foi capturado, já tinha ido dormir quando o seu arquiinimigo seguia para a forca em Bagdá. Na manhã seguinte, Bush divulgou uma declaração afirmando que a execução foi "um marco importante na rota do Iraque para se tornar uma democracia".

Como sinal da hesitação dos Estados Unidos quanto à execução, o embaixador norte-americano Zalmay Khalilzad tentou desesperadamente convencer o primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki a cancelar o enforcamento, ou pelo menos a adiá-lo para uma data posterior ao Festival do Sacrifício muçulmano. O diplomata advertiu Maliki que a execução poderia ser interpretada como uma vendeta xiita.

Mas Maliki se manteve firme na sua decisão, e os norte-americanos finalmente cederam sete horas antes do horário marcado para a execução. O caos que se seguiu na forca só serviria como confirmação das suas advertências.

Bush prepara o Plano B

Mais tarde os porta-vozes de Bush minimizaram o incidente, afirmando que a sua significância era insuficiente para que o presidente desse qualquer outra declaração a respeito. Mas a verdade é que a execução de Saddam Hussein ocorreu no pior dos momentos para o governo dos Estados Unidos, quando Bush se prepara para revelar o seu plano para o futuro do Iraque nesta semana.

Já parece certo que o presidente ignorará quase que completamente o relatório apresentado no início de dezembro passado pelo Grupo de Estudos do Iraque, liderado pelo ex-secretário de Estado, James Baker. Fontes afirmam que Bush se opõe a duas propostas-chave contidas no relatório: uma ofensiva diplomática que envolveria Irã e Síria e uma maior pressão de Washington sobre o governo Maliki. Em vez disso, Bush parece estar determinado a enviar ainda mais tropas para a guerra civil iraquiana, apesar da convicção do Pentágono de que isso só provocará o aumento das baixas norte-americanas.

Acredita-se que a proposta de Bush envolverá o envio de dezenas de milhares de soldados adicionais ao Iraque. Antes do Natal, a Casa Branca anunciou planos para aumentar a presença do exército e do corpo de fuzileiros navais em território iraquiano. Parece que nem mesmo o presidente espera ser capaz de trazer tão cedo as tropas dos Estados Unidos para casa.

Bush está tão despreocupado com as críticas dos democratas quanto com a queda acentuada do apoio da população norte-americana à guerra. Segundo as pesquisas, apenas 11% da população é favorável ao envio de mais tropas ao Iraque. No seu website, o Comitê Nacional Democrata chamou o presidente de "o homem mais teimoso da Terra".

Nem mesmo os militares apóiam mais o presidente. John Abizaid e George Casey, os dois generais norte-americanos que atualmente estão no comando no Iraque, também se opõem aos planos do comandante-em-chefe. "A situação no Iraque exige mais soldados iraquianos", disse Abizaid com ironia. Ele teme que o envio de mais tropas norte-americanas só faça com que o instável governo iraquiano fique ainda mais dependente dos Estados Unidos. Os líderes militares norte-americanos acreditam que o governo Maliki não tem um interesse sincero em acabar com a guerra civil travada nas ruas do país.

Bush, de sua parte, aparentemente não mais acredita na "Estratégia para a Vitória" prometida por ele meses atrás, segundo a qual unidades iraquianas assumiriam gradualmente a responsabilidade das forças armadas norte-americanas. As forças de segurança iraquianas, treinadas com assistência norte-americana, estão demonstrando cada vez mais que não passam de braços militares de facções xiitas ou sunitas - dependendo do local onde estão estacionadas. De fato, os oficiais militares dos Estados Unidos começaram a confiscar telefones celulares dos soldados iraquianos durante as operações de repressão, a fim de impedir que estes indivíduos alertem os seus companheiros xiitas ou sunitas.

Os dois líderes militares rebeldes estão sendo substituídos. O almirante Wiliam Fallon, ex-comandante do Comando dos Estados Unidos no Pacífico, substituirá Abizaid, que já está com data marcada para ir para a reserva. A remoção de Casey será mais dolorosa para o general, que está sendo substituído pelo tenente-general David Petraeus, que foi o comandante da 101ª Divisão Aerotransportada quando esta invadiu Mosul. "O que quero saber é como vamos vencer, e não como bateremos em retirada", resmungou recentemente o presidente para um grupo de líderes militares.

Em outra mudança, o embaixador dos Estados Unidos, Zalmay Khalilzad deixará a altamente fortificada Zona Verde em Bagdá para suceder a John Bolton como embaixador norte-americano na Organização das Nações Unidas (ONU).

Um êxodo sunita

As fileiras de lideranças sunitas, que Khalilzad conduziu a um diálogo com os xiitas, também estão ficando a cada dia mais ralas. Adnan Pachachi, o ex-presidente do Conselho de Governo Iraquiano, Ghazi al-Yawer, o primeiro presidente do Iraque do pós-guerra, e Salih Mutlaq, líder do Partido da Frente Nacional do Diálogo - todos eles membros eleitos do parlamento iraquiano - já deixaram o país. "A coisa não faz mais sentido", disse laconicamente Mutlaq, ao explicar o motivo da sua saída. Tariq al-Hashimi, o vice-presidente sunita, também está ameaçando deixar o Iraque, alegando que os desentendimentos diários no seio do governo dominado pelos xiitas não lhe dão outra opção.

Para a maioria dos iraquianos, a vida diária já tem muito pouco em comum com a política oficial. A segurança é a principal preocupação daqueles que não dispõem dos recursos para deixar o país. Declarações divulgadas em Washington ou na Zona Verde não proporcionam mais nenhuma medida do grau desta segurança. Em vez disso, esse grau pode ser avaliado pelos preços dos armamentos. Atualmente esses preços estão em alta.

O primeiro-ministro Maliki, que na semana passada deu indicações de que está cansado do cargo, também parece estar seguindo a tendência geral. Ele declarou ao "Wall Stret Journal" que desde o princípio não estava muito ansioso para ocupar a posição, e que não pretende disputar a reeleição. "Desejaria que a minha missão tivesse terminado", disse ele, referindo-se a este mandato.

A próxima questão, agora que Saddam Hussein foi executado, é saber qual é exatamente o Plano C dos Estados Unidos. O que Washington deve fazer agora que todas as comissões foram consultadas, todas os planos apresentados e todas as estratégias consideradas - e ainda assim nada parece dar certo?

Washington aparentemente conta até mesmo com uma agência preparada para responder a esta questão: o Departamento de Análise de Terrorismo da Agência Central de Inteligência (CIA). Cerca de 75% de todos os especialistas da agência que integram a chamada Equipe Vermelha passaram dois dias simulando as conseqüências de uma derrota total no Iraque. Segundo a análise, tal derrota significaria um triunfo para os jihadistas muçulmanos e faria aumentar o apoio aos terroristas em todo o mundo.

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