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14/02/2007 - 01h40

"Cartas de Iwo Jima" gera debate no Japão sobre a Segunda Guerra Mundial

Der Spiegel
David Gordon Smith
BERLIM - O Japão nunca tratou com a mesma profundidade que a Alemanha sua história na Segunda Guerra Mundial. Agora, o épico de Clint Eastwood "Cartas de Iwo Jima" levou o Japão a reexaminar seu papel na guerra, como explicaram os atores do filme.

Divulgação 
Épico de Clint Eastwood "Cartas de Iwo Jima" levou o Japão a reavaliar seu papel na guerra


Para o ator Ken Watanabe, a viagem para a locação do filme "Cartas de Iwo Jima" foi uma experiência altamente emotiva. "Quando vi a ilha do avião pela primeira vez, não consegui parar de chorar", diz ele.

Não é surpreendente que a ilha provoque reação tão forte. Grande parte dos 22.000 soldados japoneses que participaram da Batalha de Iwo Jima, no início de 1945 -altamente superados pelas forças americanas de 100.000 homens- perderam suas vidas. "Parecia que o tempo tinha parado na ilha depois da guerra", disse Watanabe, que alega ter sentido a presença dos soldados japoneses mortos, quando visitou a ilha.

O ator japonês de 47 anos, que é mais conhecido pelo público ocidental por seu papel ao lado de Tom Cruise em "O Último Samurai", fez o papel do comandante japonês, general Tadamichi Kuribayashi, no filme de Clint Eastwood que foi indicado ao Oscar. "Cartas de Iwo Jima", que teve sua estréia alemã no domingo, como parte do Festival de Cinema de Berlim, conta a história da batalha pela ilha da perspectiva japonesa. O filme é uma espécie de acompanhamento para "A Conquista da Honra" que descreve o ponto de vista americano. Eastwood disse que queria fazer o segundo filme para que os dois lados da história fossem contados.

O filme gerou debate sobre a batalha e o papel do Japão na guerra. "No Japão, quase ninguém sabia dessa tragédia antes do filme", diz Watanabe. "Sessenta anos após a guerra, a maior parte das pessoas quer saber a verdadeira história. É um bom momento."

Tsuyoshi Ihara, que faz o papel do ativo oficial de cavalaria Baron Takeichi Nishi, concorda. "O filme despertou o interesse em reavaliar o que foi a guerra", diz ele.

Mudando a sociedade

Ele diz que o filme não é apenas entretenimento. "Espero que possa ser um meio de mudar a sociedade", diz, salientando que já foi visto por 4,5 milhões de pessoas, inclusive vários políticos, e foi sugerido como potencial material de estudo nas escolas. "O simples fato de estarmos olhando para o que aconteceu há 61 anos é muito importante para o Japão hoje."

O trabalho também salienta a mudança de atitude em relação à guerra no Japão. No filme, há tensões entre os soldados mais tradicionais, que aderem ao código guerreiro de bushido e querem cometer suicídio quando fracassam, e os soldados que estão mais preocupados em ficar vivos. Os últimos são personificados pelo personagem Saigo, um jovem recruta rebelde que tem saudade de casa, na melhor tradição de anti-herói de filme de guerra, como Yossarian em "Ardil 22" ou Hawkeye em "M.A.S.H.".

"É uma idéia bem nova, que pessoas assim existiam naquela época", diz o ator de 23 anos Kazunari Ninomiya, que faz o papel de Saigo. "Quando encontro pessoas da geração mais velha, que estão com 40 50 anos, elas dizem: seu personagem é tamanho covarde. Mas quando falo com minha geração, eles de fato ficam espantados porque você não ouve falar disso nos livros de história na escola. Eles dizem que se sentiriam como ele."

Ninomiya diz que deve se parecer de alguma forma com seu personagem -de fato, ele fez teste para outro papel, mas foi considerado perfeito para Saigo por Eastwood -e admite que também "fugiria"se estivesse em uma guerra.

Watanabe também acha que a cultura japonesa mudou radicalmente desde a guerra. "Eu discuti isso com jovens atores japoneses, e eles não conseguiam entender a atitude" (tradicional dos soldados), diz. "Eu também acho difícil. Eles tinham uma educação realmente estranha e maluca, como uma espécie de religião, naquela era."

Interessantemente, tanto Kuribayashi quanto Nihiri tinham estado nos EUA -Kuribayashi tinha sido attaché militar em Washington, enquanto Nishi conquistara medalha ouro no evento eqüestre nas Olimpíadas de Los Angeles de 1932. O filme sugere que os dois sentiam simpatia pelo "inimigo" americano. Para Ihara, uma das principais cenas do filme é aquela em que Nishi lê uma carta que um prisioneiro americano morto recebera da mãe.

"Macacos amarelos" contra "diabos"

"Disseram para os americanos que os japoneses eram macacos amarelos, e disseram aos japoneses que os americanos eram diabos", diz ele. "Aquela era a primeira vez que os japoneses encontravam o inimigo face a face. Veja como entendem que compartilham os mesmos sentimentos, que os soldados americanos também têm mães que amam seus filhos."

Como parte da pesquisa, Ihara reuniu-se com o filho de Nishi, de 83 anos, e estudou as cartas que Baron enviou para casa. "O que me impressionou foi que o conteúdo das cartas era muito mundano, como um resumo do que acontecia a cada dia", diz ele. "Como leitor, você não pensaria que estava no campo de batalha."

Watanabe fez grandes esforços para pesquisar seu personagem -ele disse que se sentiu sob enorme pressão ao fazer o papel de uma figura histórica. "Como ator japonês, eu tinha que fazer esse filme realmente direito do ponto de vista japonês", diz. Depois acrescenta rindo: "Se não fizesse corretamente esse filme, não poderia voltar para o Japão."

Como parte de sua pesquisa, ele até visitou o município de Naano, onde o general foi criado -vizinho ao município do próprio Watanabe- em um esforço para realmente compreender o general. Watanabe tomou água da região e passou-a na caverna em Iwo Jima onde Kuribayashi fez seu quartel general, como uma forma de bênção. "Evaporou na mesma hora", diz ele. "Foi como se ele estivesse me dizendo 'obrigado'".

E como foi trabalhar com Clint Eastwood, um herói do cinema ocidental? "Todo diretor é diferente, mas Clint é realmente especial", diz Watanabe. "Não tínhamos ensaios e fazíamos tudo em apenas uma tomada. Algumas vezes, eu errava a fala e queria refazer, mas ele dizia que não, que não importa -na vida normal as pessoas também erram."

Ihara gostou do estilo do diretor americano, "porque toda sua energia fica concentrada em apenas uma tomada. No princípio, fiquei muito nervoso, mas excitado. Depois de gravar, entretanto, achei que era a melhor direção."

Ninomiya, que é mais famoso no Japão como membro do grupo de meninos Arashi e admite que apenas viu "cerca de 20 filmes" em sua vida -não ficou intimidado pela lenda de Hollywood: ele nunca tinha ouvido falar em Clint Eastwood quando fez as audições. "Só fui para poder impressionar meus amigos, dizendo que tinha conhecido Eastwood", diz ele.

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