UOL Notícias Internacional
 

23/02/2007

Confronto no extremo ocidente chinês

Der Spiegel
Wieland Wagner
A China está mandando mais tropas para a província muçulmana de Xinjiang, no extremo ocidente do país, devido a preocupações crescentes em Pequim com a inquietação étnica na região de fronteira. Seus planos de desenvolvimento econômico para a região podem estar comprometidos.

Mao Tse Tung desafia o vento gelado que sopra das montanhas Pamir pela cidade de Kashgar. Pequim está a mundos de distância desse ponto na histórica Trilha da Seda, próximo ao Tadjiquistão e Quirguistão. Talvez por isso o camarada Mao precise de uma base tão alta para sua estátua, erguida a 24 metros acima da "Praça do Povo". Mao, porém, está sozinho - a praça está praticamente vazia.

É hora da prece. A algumas quadras dali, os moradores estão entrando na mesquita de Id-Kah - a maior casa de adoração muçulmana na Região Autônoma de Xinjiang, lar da minoria uighur no noroeste da China.

Os fiéis usam seus turbantes de pele cobrindo o rosto. Certamente o frio é terrível, mas também serve para disfarçar suas identidades. Muitos têm medo de ser reconhecidos.

Os muçulmanos são maioria em Kashgar, o que dá a essa cidade antiga que faz fronteira com a Bacia de Tarim um ar de oásis árabe. Uighurs, quirguizes e tadjiques trazem suas nozes, tâmaras e romãs ao mercado em charretes de burro. Em vez de pato de Pequim, o aroma é de carneiro assado e pão árabe.

Véu de suspeita

Mas um véu de suspeita cobre a região. Diferentemente de outras partes da Ásia Central, o chamado à prece em Kashgar não pode ser feito pelos alto-falantes do minarete. Servidores públicos essencialmente são proibidos de tomar parte nas preces muçulmanas, evidência de temores no governo central ateu que o islã possa se desenvolver em um movimento de independência.

Em janeiro, a polícia chinesa atacou uma base usada por combatentes do Movimento Islâmico do Turquistão Oriental (Etim) em Xinjiang, no oeste. A polícia alegou que a organização tem laços com a rede terrorista Al Qaeda. Foi a batalha mais sangrenta entre as forças do governo chinês e a resistência uighur em uma década. Um policial chinês foi morto e, desde então, é celebrado por Pequim como mártir da revolução. A polícia matou 18 dos chamados terroristas e prendeu 17 suspeitos.

Desde então, aviões e helicópteros militares vêm fazendo pousos regulares no aeroporto de Kashgar, enquanto a China reforça suas forças nas regiões fronteiriças montanhosas. Os vizinhos Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão e Paquistão são vistos como os principais esconderijos para os islâmicos da região.

Desde a batalha no campo Etim, qualquer um em Kashgar que não possa provar sua identidade é considerado suspeito. A polícia faz batidas em carros em estradas importantes e forças de segurança passeiam pela cidade à paisana. "Ficamos em casa à noite", diz Mohammed, uighur de 26 anos que opera uma barraca de roupas perto da "Rua da Libertação". A polícia mantém uma vigilância nas multidões de Kashgar, até em eventos aparentemente inofensivos como a abertura de um novo supermercado na frente da mesquita.

Massacre nas montanhas

De algumas formas a vigilância aumentada vai contra os alvos do governo chinês na região, para onde quer atrair empresas, fábricas e construções - qualquer uma que remova as estruturas de barro tradicionais da cidade. Pequim está gastando bilhões para desenvolver a Rota da Seda nesta região de fronteira, com novos oleodutos, linhas de trem e estradas. O plano é usar a nova infra-estrutura para trazer petróleo e gás natural da Ásia Central para o centro da China e exportar seus eletrônicos e têxteis na outra direção.

Os estrategistas de Pequim esperam que a riqueza venha pacificar a região inquieta de Xinjiang. Mas o massacre recente nas montanhas pode assustar os investidores, enquanto a China trava sua própria guerra contra terroristas islâmicos.

O presidente da China, Hu Jintao, há muito acredita que seu país é "vítima de terrorismo". Ele está se referindo primariamente, porém, às forças que lutam pela independência regional ou ao menos por maior autonomia do governo central, tão longe no leste.

O governo acusou a dissidente Uighur Rebiya Kadeer de "atividades terroristas violentas". Dois anos atrás, Pequim forçou a proeminente empresária local a emigrar para os EUA e impôs sentenças de prisão a seus filhos em Xinjiang por suposta evasão de impostos. Citando um usuário de Internet irritado que chamou Kadeer de "monstro separatista", o China Daily expressou um dos maiores temores de Pequim: que a dissidente, que foi eleita presidente do Congresso Mundial Uighur no ano passado, possa receber o Prêmio Nobel da Paz.

A "guerra ao terror" também é conveniente para a liderança chinesa. Em 2001, Pequim usou suas preocupações com supostas atividades terroristas como motivo para estabelecer a Organização de Cooperação de Xangai, que também conta com a Rússia, o Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Os perigos do terrorismo também foram usados para justificar exercícios militares conjuntos com os russos em 2005. Três anos antes, a China conseguiu o apoio americano para sua campanha para que a Organização das Nações Unidas classificasse o movimento de independência islâmico Etim como organização terrorista. Mas de fato pouco se sabe sobre os objetivos do Etim, e Pequim ainda não mostrou evidências claras dos supostos laços da organização com a Al Qaeda.

"Roubando nosso ganha-pão"

Apesar de seus sucessos, o governo chinês continua seriamente preocupado, temendo uma reprise da inquietação sangrenta das últimas décadas em Xinjiang. De acordo com os números oficiais, as atividades do movimento de resistência custaram 162 vidas e deixaram 400 feridos entre 1990 e 2001. Por aparente medo dos ataques, a China impôs restrições aos passageiros carregando líquidos em aviões desde 2003 - muito antes de regras similares serem adotadas na Europa e EUA. Com a perspectiva dos Jogos Olímpicos de 2008, a segurança já foi aumentada em torno da capital.

A estratégia da China de usar as bênçãos do capitalismo como um de seus instrumentos contra o terrorismo tende a ter o efeito oposto entre os uighurs. Cada vez mais chineses étnicos estão imigrando para Xinjiang, e desde hoje são pelo menos 40% da população.

A mudança na formação étnica da região aumentou o vão entre os ricos e pobres, e o declínio social tende a afetar mais os uighurs, como o vendedor de têxteis Mohammed primeiro. "Os chineses dirigem o comércio aqui hoje", diz com raiva. "Eles estão roubando nosso ganha-pão."

Além disso, como Xinjiang tornou-se uma base militar virtual, nem mesmo os mais pacíficos uighurs podem fazer manifestações. Dezenas de milhares de soldados chineses, por exemplo, estão alojados em Shule, um quartel perto de Kashgar.

Entretanto, não estão aqui apenas para lutar. Muitos também foram enviados à região para desenvolver suas próprias fábricas e fazendas. De acordo com um soldado, sempre que há distúrbios, as tropas simplesmente vestem o uniforme da Polícia do Povo.

Como se não fosse suficiente, o governo chinês também controla os relógios em Xinjiang. Apesar de a capital estar a 3.000 km de distância, a cidade tem que usar o horário de Pequim.

Apesar do mandato oficial, os relógios da mesquita em Kashgar, em um protesto silencioso, marcam a hora local verdadeira, duas horas antes de Pequim - exatamente da forma que a natureza fez Xinjiang. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host