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09/03/2007 - 00h16

Déspota africano 'cura' Aids

Der Spiegel
Marco Evers
O presidente de Gâmbia está causando alvoroço com sua alegação de ser capaz de curar a Aids. Dificilmente alguém no país ousará contestá-lo e, infelizmente, muitos podem acreditar nele.

É difícil ganhar renome como um tirano na África; os padrões são muito altos. Jean Bédel Bokassa, da República Centro-Africana, acredita ser o 13º apóstolo, se coroou imperador e dizem desfrutar de uma ocasional refeição de carne humana. No Congo, o cleptocrata Mobutu Sese Seko construiu uma pista de pouso para seus jatos Concorde fretados no meio da floresta tropical. Agora, o presidente de Gâmbia, um Estado do Oeste africano, está se esforçando para acrescentar seu nome à lista.

Yahya Jammeh, 41 anos, é presidente da amargamente pobre Gâmbia desde que tomou o poder em um golpe em 1994. Nas três supostas eleições de lá para cá, ele não abriu mão do cargo. Entre seus feitos até o momento estão dar aos 1,6 milhão de cidadãos de Gâmbia um arco do triunfo impressionante - assim como Napoleão deu aos franceses - assim como fundar a primeira e única universidade de Gâmbia.

Agora ele deu um passo além. Há poucas semanas, Jammeh convocou seus seguidores e alguns poucos embaixadores, dignitários e repórteres de TV para anunciar em um discurso truncado que, tendo feito algumas descobertas fantásticas, ele agora é capaz de curar a Aids (assim como a asma). O presidente reconheceu para sua platéia atônita que as terapias ainda têm algumas limitações - ele só pode curar a Aids às quintas. A asma, por outro lado, só pode ser tratada às sextas e aos sábados.

Cerca de 20 mil gambianos - 1,2% da população - estão infectados pelo HIV. Jammeh alega ter tratado nove deles com sucesso em janeiro e 27 outros em fevereiro. Ele também se orgulha das 500 vítimas de asma que curou. E promete agir em breve para eliminar outras doenças, já que alega dispor de um "mandato" - aparentemente de ninguém menos que Deus.

Organizações de ajuda internacionais ficaram horrorizadas ao descobrir que milhares de gambianos infectados esperam ser tratados pelo presidente. Jammeh disse que curará qualquer um, jovem ou idoso. Ele não aceitará pagamento, mas fez uma estipulação: aqueles que estão tomando medicação antiviral devem parar de fazê-lo imediatamente. Dois respeitados especialistas em HIV/Aids entregaram imediatamente sua renúncia em protesto.

Vestido de branco da cabeça aos pés, o chefe de Estado fica em pé diante de seus pacientes, murmurando orações e acenando o Alcorão. Então Jammeh esfrega uma pasta verde na pele deles, depois os borrifa com um líquido cinzento de uma velha garrafa de Evian e lhes dá algo amarelo para beber. Bananas - ministradas oralmente - completam o tratamento. Após repetir o procedimento por várias semanas, ele proclama os pacientes curados. Todos eles. Sem exceção.

O problema com déspotas

Jammeh explica que o método, baseado nas propriedades curativas de sete ervas e orações corânicas, é "à prova de falha". Apesar de preferir realizar as sessões de cura em público e diante das câmeras de TV, ele está disposto a conceder a dignitários sociais e religiosos audiências privadas.

Perguntas críticas, por outro lado, não são bem-vindas. Uma correspondente britânica da rede "Sky News" sugeriu que Jammeh devia apresentar seu método para ser testado por peritos independentes. O presidente retrucou: "Eu não preciso convencer ninguém. Eu posso curar a Aids e não preciso explicar nada". Ele ficou visivelmente irritado com o pedido dela para analisar a amostra de sua mistura de ervas. "Nem em um milhão de anos", foi a resposta dele.

O problema com déspotas é que ninguém ousa discordar. O "Daily Observer", um jornal gambiano, comentou sem o menor sinal de ironia que a "invenção" do presidente foi "a maior já testemunhada em nosso mundo moderno". Logo, escreveu o jornal, milhões de pessoas virão ao país para serem curadas. Os gambianos podem aguardar por um boom econômico que os colocará anos-luz à frente de países cuja riqueza é baseada em meros diamantes, ouro ou petróleo.

O ministro da Saúde do país é formado em ginecologia, treinado na Ucrânia e Irlanda. Tamsir Mbowe, 43 anos, está sempre presente quando o estadista exibe sua capacidade de cura - mas mesmo que devesse saber mais, ele também elogia o que chama de "intervenção do presidente no setor de saúde". Mbowe até mesmo alega que a capacidade de Jammeh de curar qualquer paciente foi "medicamente provada".

Longe disto: O Ministério da Saúde coletou amostras de sangue para provar os espantosos poderes de cura de Jammeh e as enviou para um laboratório no vizinho Senegal. Apesar de o ministério insistir que os resultados oferecem prova clara dos poderes de cura do presidente, o cientista senegalês que realizou os testes discorda enfaticamente. Ele disse que nenhuma conclusão pode ser obtida porque os gambianos não testaram o sangue antes da intervenção pseudomédica do presidente.

Uma representante da ONU na Gâmbia ousou afirmar que não há prova de curas bem-sucedidas. Ela também alertou os pacientes supostamente curados a não acreditarem que não mais são capazes de disseminar o HIV.

O presidente Jammeh respondeu prontamente a estes comentários: rotulando a representante da ONU de persona non grata e lhe dando 48 horas para deixar seu país - o que ela fez. Segundo o "Daily Observer", os comentários dela foram "irresponsáveis".

Nenhum continente foi mais duramente devastado pela Aids quanto a África. Cerca de 25 milhões de pessoas foram infectadas e 12 milhões de crianças são órfãs da Aids. A epidemia se espalha há décadas. Em muitos lugares, curandeiros tradicionais recebem mais atenção do que médicos treinados em universidades. Milhões de homens acreditam que sexo com uma virgem os curará da Aids. O presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, questionou abertamente se o vírus HIV de fato causa a Aids. Seu ex-vice-presidente, Jacob Zuma, praticou sexo sem proteção com uma mulher infectada em 2005 e disse posteriormente em um tribunal que, por ter tomado uma ducha após o ato, não havia nenhum risco.

Alguns membros do Parlamento de Gâmbia estão expressando cautelosamente preocupação de que o presidente esteja insano. Fazendo todo o possível para confirmar esta impressão, o autoproclamado curador de Aids agora diz ter descoberto talento para prever o futuro. Ele alega ser capaz de prever o momento da morte de uma pessoa após um simples olhar em seus olhos.

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