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28/03/2007

A marcha das "Orgs"

Der Spiegel
Holger Stark e Marcel Rosenbach
Em Berlim
À primeira vista, o prédio do bairro de Charolottenburg, em Berlim, parece um complexo comum de escritórios: uma construção de sete andares funcional, com janelas de vidro. A jovem recepcionista está vestida de preto e usa um microfone futurista.

Para os cientologistas, entretanto, o prédio é uma capela, um local para estudar sua própria doutrina e, talvez mais importante, uma declaração política. Estamos de volta. Ou melhor: ainda estamos aqui.

A "Org Ideal", como os cientologistas chamam o prédio, é sua nova base na capital alemã - e está localizada a apenas alguns minutos do parlamento federal, o Reichstag. Sua inauguração oficial foi celebrada com uma festa glamorosa em janeiro. Para reforçar o impacto de relações públicas, o músico de jazz Chick Corea fez uma apresentação, como convidado especial.

Os cientologistas tiveram sucesso com o golpe de surpresa. A inauguração da nova bandeira vistosa a um quarteirão do sistema nervoso central da política alemã pegou o governo local de Berlim, o Senado, de surpresa. Pior, foi um incorporador estatal que vendeu o prédio moderno na Otto-Suhr-Alle para o que parecia ser uma empresa imobiliária perfeitamente inofensiva de Copenhagen, em 2005. A capital dinamarquesa abriga uma "Org avançada", uma espécie de sede européia da comunidade religiosa.

A cientologia está montando uma ofensiva nas capitais e principais cidades da Europa. Já existem "escritórios nacionais" em Madri, Londres e Bruxelas, e a inauguração de novas filiais foi discutida em uma "conferência de expansão", no ano passado. "Se quisermos implementar nossas campanhas planetárias para a salvação, então temos que atingir os altos níveis do governo alemão em Berlim", afirma um documento da cientologia, acrescentando que a sede de Berlim é responsável por "fomentar o acesso necessário ao parlamento alemão, para assegurar que nossas soluções sejam genuinamente apresentadas a toda a sociedade alemã".

O parlamento alemão como alvo

Jovens amigáveis com visão estreita vêm ocupando a capital alemã, dia após dia, desde o início do ano, tentando conquistar transeuntes, estudantes ou turistas com os ensinamentos do fundador da organização, o autor de ficção científica Lafayette Ron Hubbard. Os missionários cientologistas também estão de olho nos membros do parlamento alemão. Sabine Weber, a sorridente vice-presidente de cientologia na Alemanha, explica que sua tarefa é falar com tantos políticos, autoridades públicas e influenciadores potenciais quanto possível. Weber faz questão de referir-se consistentemente a sua organização como "Igreja da Cientologia". Ela diz que ela e seus colegas são "muito ativos", especialmente para combater o que chamam de "discriminação" por igrejas estabelecidas e autoridades.

Essa pressão continuará aumentando no futuro próximo. A agência de inteligência federal doméstica, o Escritório de Proteção da Constituição, e os departamentos estaduais colaboradores estão alarmados com a ofensiva de propaganda da cientologia e querem aumentar a vigilância sobre a organização. A maior parte das autoridades federais e locais concordou em reunião em fevereiro que a "vigilância geral e sistemática da inteligência" onde quer que a cientologia esteja ativa é "pré-requisito básico" para impedir os perigos associados à organização.

"A cientologia tornou-se muito mais confiante em público", adverte Johannes Schmalzl, diretor do escritório de Proteção da Constituição no Estado de Baden-Wurttemberg. "Este é um grupo perigoso, que usa a manipulação psicológica e tem uma auto-imagem antidemocrática, um grupo que quer quebrar a vontade de cada um de seus membros", adverte. "Por isso temos que adotar medidas de combate expressivas."

A agência de inteligência reagiu às tentativas da organização de montar uma "Org ideal" nova e maior em Stuttgart com uma campanha intensa oferecendo aos cidadãos mais informações sobre o grupo controverso. Em seus esforços para monitorar os seguidores de cientologia, no início de março, a agência de inteligência interna em Hamburgo passou a usar agentes secretos e métodos de inteligência como vigilância e grampos de telefone. Em Berlim, as autoridades planejam "decidir em breve se as declarações feitas pela cientologia em conexão com seu novo ramo em Berlim" servem de base para voltar a monitorar a organização, disse o ministro do interior da cidade, o social democrata Erhart Körting.

Grande combate

O interesse das agências de inteligência na cientologia está voltando, apesar de a organização ter sido relativamente silenciosa nos últimos anos. Quando o Ministério do Interior da Alemanha avaliou que a cientologia era potencialmente inconstitucional em 1997, os seguidores de Hubbard foram submetidos a medidas de vigilância elaboradas pelo Escritório para a Proteção da Constituição e suas filiais estaduais.

Hoje, as medidas de vigilância contra a cientologia ainda vigoram nos Estados da Bavária, Baixa Saxônia e Baden-Wurttemberg, mas foram suspensas em Berlim após uma decisão judicial em 2003 que proibiu todo tipo de vigilância secreta. Apesar de outros Estados, inclusive Brandemburgo no Leste, manterem um histórico das atividades da Cientologia, a organização raramente aparece nos relatórios anuais publicados por agências de inteligência domésticas em algumas áreas - em grande parte porque há poucos membros de cientologia nessas regiões e menos atividades suspeitas que requereriam vigilância.

Em reuniões regulares, as avaliações feitas por membros das agências de inteligência sobre a cientologia e sua relação com os valores fundamentais liberais democratas alemães diferem consideravelmente. O tratamento da cientologia em Berlim, Hesse e Renânia do Norte-Vestfália, por exemplo, é muito mais relaxado do que nas regiões do Sul, como Baden-Wurttemberg e Bavária. Sempre houve um consenso entre membros da inteligência que a cientologia era uma organização duvidosa, que usa a manipulação psicológica para recrutar e reter membros. Mas será uma ameaça à democracia? O Ministério do Interior em Berlim alega que uma das razões por ter parado de monitorar a cientologia era que a organização era "insignificante".

Enquanto isso, os cientologistas continuam praticando seu culto com seus rituais e "níveis de salvação" questionáveis, desde o chamado "pré-claro" até o "nível oito operador thetan". Isso fica evidente não só de suas atividades constantes para anunciar seu famoso "teste de personalidade". Visitantes da nova sede em Berlim também assistem a uma exibição das atividades internacionais da organização, uma introdução aos seus muitos "programas sociais", mas é difícil reconhecer grande parte deles como atividades organizadas pelos seguidores de Hubbard.

Os sucessos alegados do programa de estudo, "Escolástica Aplicada", com seu método "Tecnologia do Estudo" são anunciados em apresentações em modernos monitores de tela plana. Ao lado há tópicos como abordagem de Hubbard à reabilitação de criminosos ("Criminon") e viciados ("Narconono") assim como a luta contra a psiquiatria ("Morte em vez de assistência").

Os que mordem a isca e inscrevem-se em um curso, entretanto, têm dificuldades para sair. Wilfried Handl, de Viena, vivenciou isso. Handl foi cientologista por 28 anos. No início dos anos 80, ele tinha até chegado a uma alta posição na organização, de diretor executivo da Áustria.

"Escravidão moderna"

"Os cientologistas acreditam que sua doutrina é a única que leva à salvação e lutam pelo domínio do mundo", explica o ex-cientologista. Ele hoje acredita que a organização é "claramente inconstitucional". Os escritos de Hubbard concedem direitos civis apenas aos cientologistas avançados, os chamados "claros", diz ele. Handl alega que investiu mais de 150.000 euros (cerca de R$ 450.000) na organização e chegou a obter o status de "claro", mas começou a questionar suas crenças depois de ficar doente várias vezes de câncer. De acordo com a doutrina da cientologia, os "claros" não devem ser afetados por tais inconveniências terrenas.

Handl descreve a cientologia e os métodos que usa hoje como "escravidão moderna".

A organização opera até sua própria agência de inteligência, na forma do Escritório de Assuntos Especiais (OSA), que as agências de inteligência alemãs estão monitorando de perto. Documentos da OSA incluem declarações sobre o "dever vital" de "lidar com elementos repressores na sociedade que possam obstruir nossa expansão".

O ex-cientologista Handl é até a favor de excluir os membros da cientologia de certas profissões. Os seguidores de Hubbard não devem cuidar ou educar crianças e adolescentes, em sua opinião, assim como não devem ter permissão de praticar profissões médicas. As "Orgs ideais" em várias capitais européias, como a de Berlim, têm essencialmente um único objetivo, de acordo com o ex-cientologista: "Infiltrarem-se na política e influenciarem pessoas de influência."

A porta-voz da cientologia Weber refuta as alegações. "Somos apolíticos, não intervimos por princípio em assuntos políticos e respeitamos a lei", diz ela. A OSA alemã é responsável somente por "serviços legais e de relações públicas", disse Weber. Ela adoraria mostrar aos políticos e funcionários públicos o novo prédio na capital alemã, acrescenta - desde o programa de purificação, com as esteiras de corrida e a sauna ao lado, até o escritório sempre disponível para L. Ron Hubbard, caso ele venha visitar. Mesmo que tenha morrido em 1986.

Mas Weber não parece otimista que as celebridades políticas aparecerão para uma visita tão cedo. Ela diz que convidou, sem sucesso, representantes de ambas as instituições estaduais e das igrejas oficiais do país a contatarem a cientologia "sempre que houvesse qualquer tipo de conflito".

A organização, porém, está acostumada com uma visão mais ampla: os cientologistas que desejam entrar para o corpo de elite "Org do mar" devem assinar um contrato comprometendo-se com a organização por um bilhão de anos. A cientologia começou uma nova ofensiva de propaganda na Europa, abrindo novos escritórios nas capitais pelo continente. Autoridades alemãs estão reagindo com maiores esforços para monitorar a organização controversa Deborah Weinberg

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