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11/04/2007 - 01h25

Morar e estudar nas universidades chinesas

Der Spiegel
Andréas Lorenz

Em Pequim
Em uma manhã nublada na Universidade Normal de Pequim, oito alunos estão em uma pequena rua. Gritam: "Um, dois, três, entrem para o sindicato dos estudantes!" enquanto distribuem formulários de inscrição. Eles querem recrutar novos membros para pressionar os diretores da universidade a melhorarem as condições de estudo.

"Nossos dormitórios são pequenos e velhos. E o horário do chuveiro é curto demais", reclama uma estudante de literatura de 19 anos que se chama de "Melody" e usa óculos elegantes.

Depois de uma longa busca, uma colega, Mei Lan de 22 anos, finalmente encontrou um lugar no refeitório lotado. "Há estudantes demais aqui", reclama, comendo arroz com legumes e porco em uma bandeja de aço. "Esperamos na fila da biblioteca às cinco da manhã para podermos estudar em paz. Tive que alugar um quarto fora da universidade para fazer minhas provas finais, porque não há espaço em nenhuma outra parte." Ela divide seu quarto de 12 metros quadrados com sete outros estudantes. É extremamente difícil estudar ali, e as salas de aula estão ocupadas o dia todo.

E quase não há espaço nas aulas tampouco. "Há entre 70 e 80 alunos no meu curso", diz Mei. "Isso significa que perguntas ou discussões simplesmente não são possíveis." Seus pais, comerciantes da província de Zhejiang, estão pagando uma taxa anual de 5.500 yuans (em torno de R$ 1.450) por seu programa universitário de quatro anos. O quarto com quatro beliches para oito estudantes custa outros 650 yuans (aproximadamente R$ 170) por ano.

Alojamentos apertados, aulas superlotadas, taxas caras que "os jovens do oeste pobre do país nunca poderiam pagar", como diz Mei. É assim a vida na universidade para os estudantes - não só na Universidade Normal de Pequim- mas em toda a China.

"Há alunos demais aqui"

Ainda assim, educação e pesquisa são novamente consideradas bens preciosos na China -40 anos depois de Mao denegrir os intelectuais como "a fedorenta nona categoria". E agora, uma geração jovem bem formada deverá transformar o país em um superpoder científico, se for feita a vontade do Partido Comunista. O governo e o líder do partido Hu Jintao declararam que ciência e tecnologia têm um "importante papel em promover o desenvolvimento econômico e social e garantir a segurança do país".

No entanto, a estrada para se tornar uma nação educada e um superpoder científico é longa. Apenas 5% dos chineses entre as idades de 25 e 64 anos atualmente têm diploma universitário. Na União Européia, são 21% e, no Japão, 34%. Para alcançar esses níveis, o governo chinês está bombeando mais dinheiro na educação a cada ano - cerca de US$ 62 bilhões (aproximadamente R$ 124 bilhões) em 2006. Mesmo assim, alguns representantes do ensino superior na China, como Xu Zhihong, acreditam que isso é ainda pouco.

Há mais de 1.700 universidades e escolas técnicas públicas na China. Mas dos 8,8 milhões que fizeram os exames para ingresso no ano passado, apenas 5,4 milhões conseguiram entrar. Os outros 3,4 milhões tiveram que optar por uma universidade privada ou procurar emprego - apesar de poderem tentar ingressar em uma universidade pública novamente no ano que vem.

Apenas uma elite minúscula - em geral sistematicamente preparada para os exames de admissão das principais faculdades das grandes cidades - entram nas melhores universidades. O processo de seleção é duro, e as anuidades das escolas e universidades estão constantemente subindo. De fato, o ensino superior está se tornando privilégio dos membros da nova classe média urbana que, de acordo com o Banco da China, está investindo a maior parte de suas economias na educação dos filhos, no lugar de novos carros ou apartamentos. Para os milhões de talentosos filhos de agricultores e operários, por outro lado, um diploma universitário continua sendo um sonho distante.

Ainda assim o número de estudantes cresceu cinco vezes nos últimos 10 anos, como também o número de PhDs - de cerca de 45.000 para mais de 190.000 - entre 1998 e 2005. No ano passado, 17,4 milhões de jovens estavam estudando na China, comparados com apenas 15,6 milhões em 2005.

Falta de criatividade?

Para garantir que a ciência chinesa será capaz de competir internacionalmente, a maior parte dos fundos está sendo canalizada para 38 principais universidades. As outras -algumas delas com dívidas profundas- terão que se virar sozinhas. A Universidade Normal de Pequim, com seus 17.000 estudantes, junto com a Universidade Pequim, é parte da elite. Recentemente construiu uma biblioteca impressionante - uma construção de vidro audaciosa, com um telhado enorme que se projeta. No foyer, os alunos podem usar computadores para verificar quais dos 2,9 milhões de livros da biblioteca estão disponíveis.

O campus tem o tamanho de uma cidade pequena. Conta com creches, escolas, campos de esportes e supermercados. Funcionários e professores moram em prédios residenciais cinzentos, em meio a outros modernos para salas de aulas, mobiliados austeramente. Novos blocos de apartamentos foram construídos para os alunos de pós-graduação - mas já são pequenos demais: quatro jovens pesquisadores são forçados a dividir cada quarto.

Dezenas de garrafas térmicas coloridas estão depositadas na porta de uma pequena casa. Os moradores do campus vão até lá pegar água quente, pois não têm nos dormitórios. Funcionários aposentados sentam-se debaixo de árvores conversando e, no almoço, os alunos vão para o refeitório e o restaurante "Hollywood".

Aqueles que deixam o campus da universidade depois de suas provas finais, entretanto, não terão automaticamente um emprego, como acontecia até o final dos anos 70. Dos quase 4 milhões de alunos que se graduaram em 2006, oito meses depois, um terço ainda não tinha emprego em sua área de qualificação.

Uma razão por que a transição para o mundo do trabalho é tão difícil é que as universidades são pesadas em teoria, mas relativamente distanciadas da prática. Investidores estrangeiros, como Heinrich von Pierer, que preside o conselho supervisor da gigante de engenharia e tecnologia alemã Siemens, têm muitos elogios para os mais de 600.000 engenheiros e técnicos que as universidades chinesas produzem por ano. Ainda assim, somente cerca de 160.000 destes cumprem os padrões de corporações internacionais e principais empresas chinesas, segundo estudo recente da firma de consultoria McKinsey.

Especialistas dizem com pesar que o ensino superior na China não tem criatividade e pensamento crítico e está fora de contato com o mundo profissional. Como acontecia com os que aspiravam em se tornar secretários imperiais, espera-se dos alunos de hoje que adquiram e demonstrem conhecimento teórico. Na China, eles freqüentemente são chamados de "patos recheados" porque fazem lembrar os patos alimentados à força para produzir uma iguaria culinária.

Habilidades sociais, experiência prática ou capacidade de pensar por si mesmo recebem pouca ou nenhuma consideração nos exames de admissão. "A China não vai produzir nenhum talento inovador até que mude o sistema de provas", diz Zhu Qingshi, presidente da Universidade de Ciências e Tecnologia de Anhui.

Com sua jaqueta azul, a estudante de literatura Mei Lan não desanima com essas considerações. Ela está exatamente onde sempre quis estar: na Universidade Normal de Pequim. Quatro anos atrás, ela conseguiu mais de 600 pontos em suas provas, tornando-se uma das melhores alunas de sua província natal. Agora, ela simplesmente está esperando que este país em poderosa expansão - que está descobrindo a benção da sabedoria - lhe dê uma boa carreira. O que ela mais quer é se tornar professora do ensino médio.

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