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02/06/2007

Olhando para o Oriente Médio, quatro décadas depois da Guerra dos Seis Dias

Der Spiegel
Chirstoph Schult
Em Jerusalém
Nuvens negras pairam sobre a Cidade Velha de Jerusalém. Uma rara chuva de primavera acaba de lavar a poeira da praça na frente do Muro das Lamentações. Ainda há uma garoa, mas as pessoas já estão voltando ao famoso ponto de visitação.

Os primeiros a emergir são os judeus ultra-ortodoxos, com suas roupas pretas. Alguns se balançam para frente e para trás durante as preces, enquanto outros descansam a cabeça contra o enorme muro de pedra, aparentemente em transe. Atrás deles, um grupo de jovens israelitas religiosos forma um círculo, dão as mãos e cantam o hino nacional israelense. Os turistas gradualmente sentem-se confiantes o suficiente para retornar, e um grupo de japoneses insere bilhetes nas frestas do muro.

Ninguém nota os três idosos quando se aproximam lentamente do muro. Chamam-se Zion, Itzik e Haim. Eles estiveram no mesmo local há exatamente 40 anos. Eram membros de uma unidade israelense de pára-quedistas que recapturou o bairro judeu no dia 7 de junho de 1967, após quase 20 anos nas mãos jordanianas, e ocupou a cidade árabe antiga. "Uma das primeiras notas no muro foi a minha", disse Zion, alto, de barba. "Foi o instante mais comovedor da minha vida." O fotógrafo David Rubinger capturou o momento quando os três jovens soldados ficaram de pé, pela primeira vez, ao lado do Muro das Lamentações, perdidos em pensamentos.

A fotografia de Rubinger tornou-se símbolo da guerra mais bem sucedida na história do Estado judeu. No espaço de apenas seis dias, o exército israelense, liderado pelo ministro da defesa Moshe Dayan, foi vitorioso em três frentes: expulsou as forças egípcias da Faixa de Gaza e da Península do Sinai, tirou os jordanianos da Cisjordânia e capturou as Colinas de Golan estrategicamente importantes dos sírios. Quando o curto conflito terminou, Israel controlava mais do que três vezes seu território original.

Após o ressurgimento do antigo temor do Holocausto entre muitos judeus e preocupações que seu novo Estado não duraria muito, os israelenses celebraram a vitória como uma dádiva de Deus. Ainda assim, "nem o pânico que prevaleceu antes da guerra nem a euforia que a seguiu foram justificados", escreve o historiador israelense Tom Segeve, em seu novo livro sobre a guerra de 1967.

Não havia dúvidas que o presidente egípcio, Gamal Abd Al Nasser, tinha ameaçado Israel abertamente. Ele forçou a Organização das Nações Unidas a se retirar do Sinai e bloqueou o Estreito de Tiran, o acesso de Israel ao Mar Vermelho. Mas erros internos críticos também ajudaram a inquietar o povo israelense. Ao convocar milhares de reservistas cedo demais, o país essencialmente forçou-se a agir.

Seis dias, anos de repercussão

O suspiro de alívio foi mais audível quando a coisa toda terminou em apenas seis dias. A maior parte dos israelenses, entretanto, não entendeu as sérias conseqüências da guerra. Profundamente humilhados, o Egito e a Síria tentaram extrair sua vingança seis anos depois, na forma da Guerra do Yom Kuppur. Subseqüentemente, o Egito e a Jordânia conseguiram assinar um tratado de paz, mas a Síria continuou um vizinho imprevisível até hoje, e vem travando batalhas indiretas contra Israel por meio da Hezbollah e do Hamas.

Israel, entretanto, ainda paga o mais alto preço nos territórios palestinos. O Estado que tinha suas raízes nas amargas experiências de 2.000 anos de perseguição de fato subjugou outro povo. Um exército que tinha sido estabelecido para a defesa subitamente viu-se no papel de ocupador.

Em junho de 1967, 1 milhão de árabes estavam sob controle israelense; cerca de 300.000 decidiram abandonar suas terras. Para muitos palestinos, já era o segundo êxodo. Na primeira guerra árabe-israelense, em 1948, ao menos 700.000 palestinos foram roubados de sua terra natal. A maior parte fugiu para a Cisjordânia ou a Faixa de Gaza. Em 1967, a tragédia repetiu-se para muitos palestinos, que terminaram no Líbano, Síria e Jordânia.

Refugiados privados de suas terras

O campo de refugiados Japal Al Hussein fica em um vale poeirento no subúrbio de Amã, Jordânia. Ali vivem 30.000 pessoas em casas de concreto cinza, pressionadas contra as encostas. As ruas estreitas são cheias de odores de gordura rançosa, fezes de gato e urina humana. Ghazi Al Zein, 64, saúda os visitantes em uma sala que serve de quarto de dormir e sala de jantar. Dois estrados de arame com colchões manchados estão contra as paredes. Um prato de ovos cozidos está no chão, e um fogareiro, em um canto.

Zein, palestino nascido em 1942, seis anos antes da fundação do Estado de Israel, nasceu em uma casa em Jaffo, que agora faz parte de Tel Aviv. Quando rompeu a guerra em 1948, seu pai colocou a família em um táxi e levou-os para a segurança nas montanhas perto de Nablus, na Cisjordânia. "Voltaremos para casa em uma semana", prometeu. A semana virou anos, e os anos, décadas. A família morou em uma tenda por mais de 10 anos e só conseguiu construir uma casa modesta no início dos anos 60. A Guerra de Seis Dias começou pouco depois. Os israelenses ocuparam Nablus, e em poucas semanas colocaram Zein e centenas de outros jovens em caminhões e deportaram-nos para a Jordânia.

Ghazi Al Zein vive como refugiado há 59 anos. Sua família mal tem para comer, e a maior parte das refeições consiste de falafel ou arroz. "Nunca faremos as pazes com os israelenses", diz ele.

A situação dos refugiados palestinos é considerada um dos principais obstáculos à paz no Oriente Médio. Políticos palestinos de todas as cores exigem o direito de retorno para seus refugiados. Mas a maior parte deles não quer mais viver em Israel, inclusive Zein. Ele quer voltar a Nablus.

Uma enorme tomada de terra

Os assentamentos israelenses são outro impedimento para a resolução do conflito. Em 1967, não havia planos de ocupar a Cisjordânia. Pelo contrário, os israelenses estavam tentando dissuadir o rei Hussein da Jordânia de formar uma aliança militar como Egito.

Hoje, 40 anos depois, 270.000 israelenses moram em 122 assentamentos na Cisjordânia. Outros 190.000 estabeleceram-se na região em torno de Jerusalém e na seção oriental árabe da cidade. O governo israelense investiu US$ 14 bilhões (em torno de R$ 28 bilhões) na construção de assentamentos - uma enorme tomada de terras, que não era a intenção original de Israel.

Geula Cohen pode explicar por que isso aconteceu. Com 82 anos, ela mora em uma das seções judias de Jerusalém Oriental, estabelecidas após 1967. As paredes de sua sala de estar são decoradas com fotografias em preto e branco que ilustram alguns dos pontos altos de sua vida: como membro do parlamento israelense, o Knesset, e na cerimônia de inauguração de um novo assentamento. A maior fotografia mostra uma jovem com cabelos negros longos na frente de um microfone.

Cohen operou a rádio proibida Zionist Stern Gang, nos anos 40. O objetivo da milícia era tirar os britânicos da área conhecida como Mandato Palestino, cometendo atos de sabotagem e ataques. As raízes ideológicas do grupo datavam de 1923.

Na época, os britânicos e franceses entregaram o território a leste do Rio Jordão à dinastia hashemita. Um grupo chamado de revisionista foi contra a decisão e opôs-se veementemente a David Ben-Gurion, fundador de Israel, quando ele aceitou a partição do país em um Estado judeu e árabe em 1947. Para os revisionistas, o Estado judeu que estava sendo estabelecido deveria começar na Península do Sinai, incluir grandes partes do Líbano moderno e terminar no Leste do Jordão.

Cohen entrevistou Ben-Gurion três semanas antes do início da Guerra dos Seis Dias. "O que o senhor diria ao seu neto se perguntasse onde ficam as fronteiras de nosso país?" ela perguntou ao ex-primeiro-ministro. "São as atuais fronteiras de Israel", respondeu. "O senhor estimularia uma criança israelense a escrever uma canção desejosa da união de Israel?" perguntou. "Se quiser escrever, deve escrever", respondeu Ben-Gurion secamente. "Eu não escreveria."

Cohen ri quando pensa na entrevista. "Os fundadores do nosso Estado estavam à vontade com a partição", disse ela. "Nós, por outro lado, acreditávamos na liberação dos territórios."

Cohen estava presente quando nasceu o primeiro assentamento. Durante o festival de Páscoa em 1968, um grupo de estrangeiros alugou alguns quartos no Park Hotel, em Hebron. Pouco depois de entrar nos quartos, identificaram-se como israelenses e anunciaram que Hebron agora estava sob sua jurisdição. Após semanas de negociações, os extremistas mudaram-se para uma base militar próxima. Dois anos depois, o governo aprovou o primeiro assentamento, em uma colina próxima a Hebron.

Com base em métodos similares, meia dúzia de novos assentamentos surgiu a cada ano. E quanto o bloco do Likud de direita entrou no poder, em 1977, a construção de assentamentos tornou-se a política oficial. "Somente fizemos um erro em 1967", diz Cohen. "Devíamos ter deportado todos os palestinos para a Jordânia."

Cerca de segurança

Shaul Arieli sabe por experiência como é difícil suprimir um povo pelo poder militar. Ele estava no comando da brigada israelense estacionada na Faixa de Gaza no início dos anos 90.

Arieli, hoje com 48, ainda parece um soldado: cabeça raspada, pescoço e braços fortes. Entretanto, ele mudou de lado e entrou para o campo da paz. Seus argumentos são os fatos. Em 1967, diz ele, cerca de 2,4 milhões de judeus e 1,2 milhões de árabes viviam na região entre o Mediterrâneo e a Jordânia, que os colonos chamam de Erez Israel.

Como resultado de seu índice de natalidade mais alto, os palestinos quase acabaram com essa diferença hoje. Enquanto o número de judeus em Israel mais do que dobrou, quatro vezes mais palestinos vivem ali hoje do que há 40 anos. Hoje, há 5 milhões de árabes e 5,3 milhões de judeus morando em território israelense.

"Os árabes serão a maioria em poucos anos", disse Arieli. No centro de Israel, há cinco judeus para cada árabe. Se essa razão fosse expandida aos territórios capturados em 1967, diz ele, 16 milhões de judeus teriam que emigrar para Israel. "Não há tantos judeus em todo o mundo", diz Arieli.

Um mapa coberto de linhas verdes e vermelhas aparece em seu computador.
Verde representa as linhas do cessar-fogo de 1949. Vermelho representa o muro de separação, ou a cerca de segurança, que o governo israelense está construindo na Cisjordânia. As linhas vermelha e verde divergem em uma série de pontos. É aí que o muro corta profundamente a região palestina.

Arieli, coronel da reserva, tornou-se especialista no muro. Junto com moradores das aldeias palestinas que subitamente viram-se no lado israelense do muro, ele moveu diversas ações na Suprema Corte israelense - e teve sucesso. O curso do muro planejado originalmente incluía 20% da Cisjordânia, mas, graças à determinação da Suprema Corte, esse número caiu para 8%.

Arieli prevê que a porcentagem final será reduzida. Então, os palestinos finalmente serão capazes de estabelecer seu próprio Estado. "Somente quando isso acontecer", diz Shaul Arieli, "teremos verdadeiramente vencido a guerra de 1967". Quarenta anos após a Guerra dos Seis Dias, Israel continua a enfrentar problemas em suas fronteiras, desde tiroteios em Gaza até combates no Líbano. De fato, o triunfo israelense de 1967 provou-se uma falsa vitória Deborah Weinberg

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