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30/06/2007

A revolução sexual no gabinete de Sarkozy

Der Spiegel
Stefan Simons
Em Paris
Que espetáculo de energia o presidente francês Nicolas Sarkozy é capaz de protagonizar em uma única semana!

O segundo turno das eleições parlamentares nem bem terminara e o seu partido governista mal tivera uma chance de digerir a sua queda nas pesquisas de opinião quando Sarkozy apresentou o seu gabinete reformulado aos fotógrafos na escadaria do Palácio Elysee na última quarta-feira. Jean-Marie Le Pen, o líder marginalizado da Frente Nacional, de extrema direita, apareceu então para um encontro pessoal, e no dia seguinte a candidata presidencial pelo Partido Socialista, Segolène Royal, fez o mesmo. Parlamentares do seu próprio partido, a União por um Movimento Popular (UMP), também foram convidados para uma visita ao palácio. A seguir, Sarkozy apareceu em frente às câmeras no seu escritório cheio de ostentação.

AFP 

"Eu poderia me acomodar sobre a parte mais confortável da minha anatomia e ficar vendo o trem passar", disse ele, explicando a sua nova filosofia política ao povo. "Mas fui eleito para fazer com que as coisas se movimentassem em todos os setores". O "hiper-presidente" (conforme foi apelidado pelo jornal diário francês "Le Figaro") não estava brincando quando anunciou uma ruptura com as tradições fora de moda da Quinta República.

O que poderia melhor exemplificar isso do que o fato de Sarkozy ter aparecido publicamente ao lado das novas estrelas do novo gabinete francês - Rachida Dati, Rama Yade e Fadela Amara - na semana passada?

Elas são mulheres, representantes de minorias étnicas e feministas. Até recentemente, esses não eram exatamente ases na manga para alguém que tenta construir uma carreira política na França, e muito menos quando procura construir tal carreira no conservador partido UMP.

Mesmo assim, uma mulher da região de Maghreb no Norte da África é atualmente responsável pelo Ministério da Justiça na Place Vendôme, outra nascida no Senegal toma conta das questões relativas aos direitos humanos no Ministério das Relações Exteriores, no Quai d'Orsay, e uma terceira, descendente de argelinos, está encarregada de lidar com o problema dos socialmente desprivilegiados banlieues, os subúrbios nos quais ocorreu a maior parte das convulsões sociais nos últimos anos. Dati, Yade e Amara: esses nomes são as primeiras indicações de que a promessa de uma "revolução Sarkozy" está sendo mantida.

A ironia, é claro, é que durante a campanha presidencial foi Royal, a rival socialista de Sarkozy, que chamou a atenção de todos como a encarnação da mudança dos papéis dos sexos e como a favorita óbvia do eleitorado do sexo feminino. Foi ela que defendeu a igualdade sexual e a integração das minorias étnicas em uma "França diversificada e colorida". O que Royal jamais mencionou foi que durante décadas a esquerda não foi capaz sequer de acabar com a discriminação étnica nas suas próprias fileiras.

Agora, apenas quatro semanas após o novo presidente ter assumido o cargo, os atônitos socialistas vêem como mulheres nas quais ninguém prestava muita atenção estão se transformando em figuras simbólicas no novo gabinete do primeiro-ministro François Fillon. Elas funcionam como marcas registradas da "política de transparência" de Sarkozy, por meio da qual o chefe do Palácio Elysee deseja promover uma renovação ampla e radical na nação.

Um terço do gabinete é composto de mulheres

A fim de atingir esse objetivo, Sarkozy montou um gabinete diversificado, composto de 33 pessoas: quase um quinto dos ministros é oriundo da esquerda, e um terço é composto de mulheres. Sarkozy deu ao proeminente membro do Partido Socialista, Bernard Kouchner, o cargo de ministro das Relações Exteriores, e conseguiu atrair cinco outros políticos de esquerda para o seu gabinete, oferecendo a eles posições de alto nível. Um político de centro foi colocado na chefia do Ministério da Defesa.

O fato de ter concedido a mulheres poderosas posições prestigiadas tais como a de ministra do Interior, ministra da Economia e ministra da Educação confere a Sarkozy a aura de pioneiro da defesa da igualdade de oportunidades. Ao mesmo tempo, ele agradou o campo cristão ultraconservador ao incluir no seu gabinete uma mulher conhecida pelas suas posições antiaborto. Pensando nos entusiastas dos esportes do país, o presidente chegou até a pedir ao treinador de rugby, Bernard Laporte, que integrasse a sua equipe como ministro de Esportes Juvenis - embora essa celebridade só vá assumir o cargo após o campeonato mundial, no próximo outono.

Uma "política de transparência"? Aquilo que o jornal diário suíço "Neue Zürcher Zeitung" caracterizou como "uma personalização bastante arriscada do seu estilo de governo" é uma estratégia calculada utilizada por Sarkozy para garantir poder para si. A distribuição não partidária de cargos para filiados de um Partido Socialista destituído de poder significante no parlamento confere ao chefe de Estado uma autoridade quase ilimitada. Ele se autodescreve ostensivamente como "um presidente que deseja governar".
A sua iniciativa mais feliz na montagem do gabinete foi provavelmente a escolha do trio agradável de mulheres. Dati como ministra da Justiça foi uma escolha ideal. Essa mulher de 41 anos de idade, filha de imigrantes do Marrocos e da Argélia, erigiu uma carreira como juíza antes de alcançar o sucesso como porta-voz de Sarkozy. O presidente a nomeou "para que nenhuma criança nos nossos subúrbios duvide que existe apenas uma justiça na França; a mesma justiça para todos".

O presidente conta com outra valiosa colega na figura de Amara. A bem articulada política de esquerda atua ativamente na luta contra o racismo e a discriminação: ela é conhecida em todo o país como a fundadora da organização "Nem Prostitutas Nem Subordinadas" ("Ni Putes Ni Soumises"), que auxilia garotas muçulmanas. Amara, ela própria muçulmana, ficará responsável pelas decadentes periferias suburbanas das grandes cidades francesas.

"Bonita, negra, jovem" - foi desta forma que o diário francês "Le Parisien" descreveu os atributos de Yade, que - com apenas 30 anos de idade - foi nomeada Secretária de Estado de Direitos Humanos por Sarkozy. Ela nasceu em Dakar, e é filha de um assessor diplomático do presidente senegalês Léopold Senghor e de uma professora de história, tendo sido criada na periferia de Paris. Desapontada com o Partido Socialista, essa cientista política ofereceu os seus serviços ao conservador partido UMP. Nele ela fez carreira da noite para o dia após ter proferido um discurso fantástico perante 80 mil partidários do UMP no início da campanha eleitoral de Sarkozy. A seguir ela se familiarizou com a elegância e a eloqüência em fóruns de discussão e em programas de entrevistas na televisão. Apesar disso, a sua designação para o cargo no Ministério das Relações Exteriores na semana passada ainda era vista como um fato meio extraordinário.

Não há dúvida de que a ascensão dessas mulheres foi vantajosa também para o presidente. Ainda famoso pela sua linguagem provocadora, e denunciado como demagogo e criticado pelos seus comentários a respeito de estrangeiros e imigrantes, esse "Sarkozy Nouveau" aparece subitamente como o pai da nação, e até mesmo como o defensor da egalité republicana. "Ele procura fazer com que o governo e os governados se aproximem", afirmou o jornal de esquerda "Libération", que o elogia pelo fato de "a liderança da França refletir cada vez mais a diversidade racial do povo".

Segundo amigos próximos de Sarkozy, ele vê a sua equipe de ministras como uma manobra particularmente bem-sucedida, e está acima de tudo orgulhoso dos primeiros passos destas suas colegas que representam minorias raciais. "Quando vi Rachida Dati no Conselho Superior do Judiciário na sua cadeira vermelha, uma mulher em meio a todos aqueles homens, fiquei comovido", disse o presidente.

Ele cumprimentou Yade por ser como um "cavalo selvagem", e a seguir fez a ela uma deferência ainda maior. "Só existem duas mulheres negras no cenário internacional", disse Sarkozy. "A secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice e Rama Yade". O novo presidente francês prometeu renovar a França enquanto estiver no cargo. Começou pelo seu gabinete, que inclui 11 mulheres - três delas representantes de minorias étnicas UOL

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