UOL Notícias Internacional
 

03/07/2007

Opinião: Muito barulho sobre Tom Cruise

Der Spiegel
Malte Herwig e Lars-Olav Beier
Tom Cruise é um ator integrante da seita Cientologia. Na qualidade de ator, ele já pediu permissão para filmar em Berlim várias vezes. E foi repetidamente recusado. Tudo isso já se tornou rotina e quase uma farsa.

Três anos atrás, Wolfgang Thierse, então presidente do Parlamento alemão, o Bundestag, negou a Cruise permissão para filmar a cúpula do histórico prédio do Reichstag, onde o astro queria rodar uma cena de seu filme "Missão Impossível 3". Afinal, Cruise e sua equipe deixaram Berlim em direção a Praga.

Agora ele quer realizar outro filme na capital alemã: "Valquírias", no qual interpretaria o homem que quis matar Hitler. Parte do filme, cujo título é o codinome que Stauffenberg e seus conspiradores deram ao complô de 1944 para assassinar Hitler, deverá ser rodada em locações históricas como o Bendlerblock, lugar onde o plano foi arquitetado e onde Stauffenberg e outros foram executados depois de seu fracasso. O prédio abriga hoje alguns departamentos do governo, assim como o Centro Memorial da Resistência Alemã.

Mas mais uma vez a resposta para o pedido de Cruise foi um grande não. E o principal motivo é que quando os tomadores de decisões em Berlim olharam para Cruise só viram um membro da Cientologia.

O "não" tornou-se especialmente veemente depois que o filho de Stauffenberg, Berthold, de 72 anos, achou o ator indigno de retratar seu heróico pai. "Não gosto da idéia de um cientologista confesso fazer o papel do meu pai", ele disse.

A política do Partido Democrata Cristão (CDU) e membro do Parlamento Antje Blumenthal era a mais agitada entre os irritados profissionais do mundo político. O ministro da Defesa da Alemanha não daria permissão de filmagem para o Bendlerblock, ela anunciou. Blumenthal é a especialista de seu partido em seitas religiosas e aparentemente se considera qualificada para tomar decisões sobre a reputação do movimento da resistência alemã e sobre uma grande produção de Hollywood.

Blumenthal não havia lido o roteiro de Christopher McQuarrie, vencedor do Oscar (também autor do roteiro de "Os Suspeitos"). O fato de Cruise, um membro da Cientologia, ter sido escolhido para interpretar Stauffenberg, era tudo o que ela precisava saber.

Certamente é legítimo perguntar se um astro como Cruise é maluco, já que acredita na bizarra igreja de ficção-científica. E é claro que há evidências de que a organização pressiona seus desertores e adquire imóveis por meios dúbios.

Mas protestos contra filmes - como aqueles contra "Fenômeno", no qual trabalhou o membro da Cientologia John Travolta, 11 anos atrás - e a recusa de licenças de filmagem são as mais desastrosas e mais tipicamente alemãs de todas as respostas possíveis.

"Que melhor maneira de lembrar a era nazista?"

O diretor judeu Bryan Singer, que quer filmar "Valquírias" no Bendlerblock, tem dificuldade para entender as preocupações alemãs. E os espertos porta-vozes da Cientologia conseguiram usar sua surpresa pública para retratar-se como um grupo perseguido.

Mas a imprensa internacional também foi dura com a histeria alemã. "Que melhor maneira de lembrar a era nazista do que negar trabalho a um homem devido a suas crenças?", comentou o jornal americano "Philadelphia Daily News". E o diário suíço "Züricher Neue Zeitung" escreveu: "Como autoridade de inspeção de filmes, o Ministério da Defesa definitivamente não é o mais apropriado".

Enquanto isso, houve grande confusão em órgãos do governo sobre quem é de fato responsável por emitir licenças de filmagem. Certamente não é o ministro da Defesa, Franz Josef Jung, como seu porta-voz garantiu ao público. Jung pode deter o direito de ocupar o Bendlerblock, mas o pátio histórico onde Stauffenberg foi executado está sob os cuidados do Departamento Federal de Administração Patrimonial, que pertence ao Ministério das Finanças alemão.

E o pessoal do departamento deu pouca atenção ao caso. Torsten Albig, um porta-voz do Ministério das Finanças, disse: "O Bendlerblock, como local de memória histórica e luto, não é apropriado para se transformar em cenário cinematográfico tão simplesmente". Foi um pronunciamento muito sopesado e inteligente - mas também incoerente.

Quatro anos atrás, um filme foi rodado no mesmo lugar onde os funcionários do Ministério da Defesa hoje lidam com as tarefas cotidianas de uma burocracia gigantesca. "Stauffenberg" foi dirigido por Jo Baier, com o ator alemão Sebastian Koch.

Evidentemente foi uma experiência traumática para Albig. "Foi uma experiência dolorosa para os funcionários quando equipes de catering e de câmera apareceram de repente no memorial." Isso sim é que é usar choque e decepção estrategicamente.

O roteirista McQuarrie está atônito com a disputa absurda sobre o Bendlerblock. "Foi lá que tudo começou para mim", lembra. "Quando vi a placa comemorativa dos heróis do complô de 20 de julho, tive a idéia de fazer um filme sobre eles."

Ele diz que "Valquírias" vai retratar um homem que conseguiu se libertar de estruturas sinistras e que morreu para libertar seu país de um regime de terror. "Tenho certeza de que contaremos uma história que é muito alemã e ao mesmo tempo muito universal." Mas a farsa que cerca a filmagem parece quintessencialmente alemã. O ator foi escolhido para fazer o papel de Claus von Stauffenberg, um homem que quis assassinar Hitler. Mas os políticos de Berlim estão fazendo o possível para evitar que um integrante da Cientologia filme no local da execução de Stauffenberg Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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