UOL Notícias Internacional
 

21/07/2007

Uma nova eleição com antigos problemas

Der Spiegel
Annette Grossbongardt
Em Istambul
Os comentaristas turcos não conseguem decidir como explicar a atual eleição. Ela não tem as acusações e os debates apaixonados que geralmente se encontram em cada esquina em épocas de eleições.

Será o calor pegajoso do verão, que muitas vezes deixa os candidatos em campanha com as camisas ensopadas? O ministro das Relações Exteriores, Abdullah Gül, o candidato presidencial fracassado do partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), no governo, sente-se especialmente desconfortável: nas entrevistas, ele se queixa de seus pés inchados e doloridos. Durante semanas tem viajado pelo país (que é cerca de duas vezes maior que a Alemanha) ao lado do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan na tentativa de salvar a maioria parlamentar de seu partido.

Bulent Kilic/AFP - 20.jul.2007 
Homem visto sob bandeiras do AKP, partido considerado favorito nas eleições de domingo

Ou talvez o desinteresse seja causado pelo fato de que o resultado da eleição é mais ou menos previsível. A maioria das pesquisas dá a vitória ao AKP - com claras vantagens em relação à última eleição, em 2002, quando o partido islâmico moderado chegou ao poder com 34,4% dos votos. Um editorialista do jornal "Zaman" a comparou a uma Copa do Mundo de futebol em que o campeão é um favorito unânime - fica meio sem graça.

Mas o resultado é realmente tão claro assim? A verdade é que o AKP poderá obter uma porcentagem maior de votos no domingo do que na última eleição, mas poderá acabar com menos assentos no Parlamento. Em 2002, somente dois partidos conseguiram os 10% necessários para ter assentos no Parlamento, o que garantiu uma maioria de quase dois terços para o AKP. Mas as firmas de pesquisas dizem que o Partido do Movimento Nacionalista (MHP) também poderá superar essa barreira no domingo, tirando assentos importantes do AKP. Em um gesto dramático, Erdogan ameaçou abandonar a política se o AKP não conseguir a maioria absoluta.

Altas apostas
Erdogan não é o único político que tem muito a perder. A eleição também mostrará se a Turquia é capaz de resolver a crise política provocada pela eleição presidencial fracassada de maio.

Depois de quase cinco anos de governo do AKP, agora os turcos vão votar se o partido de ex-islâmicos que prescreveram políticas conservadoras e capitalistas para o país é capaz de se estabelecer como força dominante na política turca. Também representaria o reconhecimento político de uma rápida transformação social que viu as classes religiosas tradicionais da Anatólia formarem uma nova elite política, capaz de competir em influência com o antigo establishment dirigente secular.

Durante a campanha, o partido de oposição social-democrata secular Partido Republicano do Povo (CHP) tentou atiçar os temores do que chama de agenda islâmica do AKP. O desempenho do CHP no domingo mostrará quão profunda realmente é a preocupação nos círculos seculares turcos, e também se os eleitores confiam neles para manter o atual crescimento econômico do país.

Dois anos depois do início das negociações, um dos principais temas para os eleitores é o futuro caminho do país para entrar na União Européia. A relação entre a Turquia e a UE derrapou para uma crise em parte por falta de vontade do lado europeu, mas também por causa de um menor desejo de realizar reformas na Turquia ultimamente.

Bruxelas espera um novo momento político para o governo depois das eleições. Com essa finalidade, políticos europeus forjaram laços estreitos com o AKP, que, apesar de suas raízes no movimento islâmico, fez mais para aproximar a Turquia da Europa do que qualquer dos governos ultra-seculares que o antecederam.

A eleição de domingo servirá para definir os rumos do país. "Esta eleição determinará se a Turquia quer continuar em seu caminho liberal -abrindo-se ainda mais e intensificando suas relações com a Europa e o Ocidente - ou se tornará mais nacionalista e introvertida", diz Sinan Ülgen, um ex-diplomata que hoje é consultor político e econômico.

A última opção poderá acontecer se o CHP conseguir votos suficientes para formar um governo de coalizão. Os populistas de direita do MHP não disfarçam seu zelo nacionalista e vêem a Europa ceticamente ou mesmo como um inimigo. Os líderes do MHP disseram que no caso de uma vitória eleitoral seu primeiro passo seria reintroduzir a pena de morte e invadir o norte do Iraque para combater o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Mas fortes liberais seculares como Ülgen enfrentam um dilema. Eles valorizam as políticas do AKP sobre reformas e democratização e estão impressionados com a estabilidade e o crescimento econômico que o partido de Erdogan trouxe à Turquia. Mas não conseguem votar no partido que tem raízes religiosas.

Muitos intelectuais e liberais - incluindo membros decepcionados do supostamente social-democrata CHP - estão oferecendo seu apoio nesta eleição a diversos candidatos independentes. Entre os mais destacados está o professor de ciência política Baskin Oran, que foi julgado pelo notório Parágrafo 301 da lei turca - que torna crime "falar mal do Estado turco" - por causa de uma reportagem crítica que escreveu sobre a situação das minorias turcas.

Gestos exagerados
Para uma eleição tão importante quanto esta - que poderá determinar nada menos que o futuro do país - a campanha foi notavelmente banal. Temas cruciais como o conflito entre os seculares e aqueles que querem um maior papel da religião, o debate sobre o lenço de cabeça, a política de bloqueio da oposição, a pobreza e a acentuada divisão socioeconômica e as dificuldades dos agricultores foram pouco abordadas na campanha.

Mas são os gestos exagerados que estão ganhando as manchetes. Por exemplo, o líder de oposição Deniz Baykal (CHP) não achou nada melhor do que criticar Erdogan por seu relógio caro, que supostamente custou US$ 60 mil. O político nacionalista de extrema-direita Devlet Bahceli atira uma corda sobre a multidão nos comícios enquanto pede que Erdogan enforque o líder preso do grupo curdo Abdullah Öcalan.

Eleição pode não resolver disputa
Enquanto isso, o chefe do Partido Jovem, populista e de direita, Cem Uzan, procura o apoio de eleitores prometendo a completa utopia de que cortará o preço do diesel para 1 lira por litro (cerca de R$ 1,41) se for eleito. O ex-empresário e magnata da mídia, cuja família está sendo investigada por fraude e negócios duvidosos, rotula os países ocidentais de "potências estrangeiras". Ele também quer romper relações com o Fundo Monetário Internacional, que ajudou a Turquia com bilhões em empréstimos desde 2001.

Especialistas em relações públicas na Turquia chamam Uzan de "o homem com a retórica mais simples, mas mais notável", e seu partido conseguiu cerca de 7,2% dos votos na última eleição. Os institutos de pesquisas acreditam que desta vez ele poderá obter o suficiente para ganhar assentos no Parlamento.

O maior paradoxo desta campanha é que, apesar de a eleição apressada ter sido causada pelo empate na eleição presidencial, poderá não solucionar a disputa. Se o AKP não conseguir uma maioria de dois terços como se espera, o partido mais uma vez não poderá colocar seu candidato no cargo.

Gül continua sendo o candidato oficial, mas "não vamos insistir nele se tivermos opção", diz um importante membro do AKP. Mesmo Erdogan disse que está "disposto a um compromisso" e supostamente já prepara uma lista de candidatos alternativos.

Mas a oposição está constantemente aumentando os pedidos por seu apoio no Parlamento - eles já rejeitaram qualquer candidato do AKP, mesmo um menos religioso como Gül, cuja mulher usa lenço na cabeça. E isso deve deixar muito claro para a liderança do AKP o quanto eles perderam ao escolher como candidato Gül - cuja nomeação foi considerada uma provocação pelas forças seculares da Turquia, principalmente por causa do lenço de sua mulher. O partido perdeu a oportunidade de colocar o primeiro presidente religioso do país no palácio de Ataturk, o fundador secular da república.

Erdogan aposta em carisma
Agora Erdogan deve usar seu carisma para convencer os eleitores a apoiar seu partido. "Não há outro político com sua capacidade de liderança nesse momento", diz o respeitado colunista Cengiz Candar, que assessora o ex-presidente Turgut Özal.

Os seguidores do AKP carregam cartazes nos comícios que comparam Erdogan a vários reformadores econômicos respeitados - incluindo Ataturk. Erdogan aposta tudo em um rumo moderado que enfatiza a estabilidade e o crescimento, enquanto oferece perspectivas de reformas do sistema judiciário e mais democracia. O AKP colocou liberais e até candidatos de esquerda destacados na lista do partido. Ele abandonou sua promessa aos eleitores do núcleo religioso de finalmente acabar com a proibição do lenço de cabeça nas instituições do Estado - uma questão que agora foi assumida pelo conservador Partido Democrático (DP). O DP espera atrair muitos dos seguidores tradicionais do AKP. Mas a fusão fracassada do partido de Süleyman Demirel e Tansu Çiller com a ANAP de Özal arruinou suas chances eleitorais e eles poderão não conseguir qualquer assento no Parlamento.

Os caminhões de campanha com alto-falantes continuarão berrando suas mensagens pelo país e os barcos no Bósforo carregarão enormes cartazes de Erdogan e seu adversário Baykal até as 18 horas de sábado. O líder de 69 anos do CHP fez uma promessa estranha no calor da campanha: se perder, disse que vai nadar até a ilha grega de Rodes - que mesmo do porto meridional de Marmaris fica a 50 km da Turquia. As eleições de domingo na Turquia envolvem altas apostas para o país. O AKP de Erdogan lidera as pesquisas, mas se o partido conseguirá votos suficientes para indicar o presidente continua em aberto Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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