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24/07/2007

Pragmáticos muçulmanos triunfam na Turquia

Der Spiegel
Annette Grossbongardt
Em Istambul
A Turquia deu ao seu governo, composto de criticados islamistas, uma grande vitória eleitoral - uma recompensa por ter tirado o país de uma das suas piores crises e patrocinar um impressionante boom econômico desde que chegou ao poder, em 2002.

O resultado acachapante de quase 47% dos votos nas eleições de domingo, o que representa uma aumento de 13 pontos percentuais em relação a 2002, se constitui em um triunfo ímpar para os ex-fundamentalistas que transformaram-se em pragmáticos conservadores. Nenhum partido governista teve o exercício do cargo aprovado de forma tão convincente desde a década de 1950, anunciaram os surpresos comentaristas das redes de televisão turcas.

E, ao contrário do que poder-se-ia supor com base no clichê, não foram apenas mulheres de xales e homens bigodudos que votaram no Partido da Justiça e Desenvolvimento (Adalete va Kalkinma Partisi, ou AKP, na sigla em turco). Os analistas eleitorais dizem que mais da metade do apoio ao partido veio de indivíduos secularistas, que desejam que a Turquia continue promovendo reformas, mantendo uma atitude amigável em relação ao empresariado e dando seguimento ao processo de abertura do país para a Europa - metas que também são defendidas por vários eleitores religiosos. O AKP de Erdogan fez mais neste sentido do que qualquer um dos governos que o precedeu, por mais seculares que estes tivessem sido.

Na noite da eleição Erdogan prometeu continuar reformando a Turquia. O AKP também pareceu se beneficiar dos ganhos obtidos na tradicional região curda no sudeste do país.

A sigla oposicionista secular de esquerda, Partido Republicano Popular (Cumhuriyet Halk Partisi, ou CHP, em turco), que dá a impressão de ser mais nacionalista do que social-democrata, tentou capitalizar os medos de um fundamentalismo islâmico que vai gradualmente ganhando força no país. "Você vê o perigo espreitando debaixo da urna de votação?", dizia uma legenda de primeira página do jornal nacionalista "Cumhuriyet", acompanhando uma ilustração que mostrava um par de olhos sob um véu negro. A propaganda parece não ter conseguido conquistar os eleitores.

O sucesso eleitoral do AKP prova que, a contrário do que as manifestações dos secularistas ferrenhos sugeriam no segundo trimestre, o partido foi capaz de convencer mais pessoas a respeito da transformação promovida na sua estrutura. Ao que parece apenas uma minoria dos turcos teme que o AKP transforme a Turquia em um segundo Irã.

Vitória do AKP demonstra como a sociedade turca mudou
A vitória do AKP revela até que ponto a Turquia mudou. Estudos demonstram que o país tornou-se mais religioso, mas que atualmente menos pessoas apóiam a idéia de um islamismo político. Ao mesmo tempo, as classes religiosas rurais se juntaram a uma elite em um nicho que costumava ser domínio exclusivo da classe alta urbana kemalista. Agora os recém-chegados querem a sua fatia de poder.

Durante a campanha eleitoral o AKP sequer prometeu suspender a proibição rígida do uso dos xales nas escolas, universidades e outros serviços civis. O segredo do sucesso de Erdogan foi a sua estratégia intermediária, segundo a qual ele chegou a escolher liberais e social-democratas como candidatos do seu partido. Ele não enfrentou concorrência na centro-direita, onde os ex-partidos governistas de Süleyman Demirel e Turgut Özal encolheram até tornarem-se insignificantes.

E, no que diz respeito ao Ocidente, a Turquia emergiu desta eleição como um parceiro confiável. Uma mudança de governo geraria temores de instabilidade, especialmente se tivesse havido uma coalizão do CHP e dos nacionalistas radicais do Partido do Movimento Nacional (Milliyetçi Hareket Partisi, ou MHP, em turco), que obteve 14% dos votos. Isso teria gerado sinais de alarme quanto à ascensão de um neo-nacionalismo turco. Tal coalizão teria significado uma "crise de longo prazo", segundo advertiram os verdes no Parlamento Europeu.

Até mesmo os políticos céticos com relação à Turquia que integram o partido da chanceler Angela Merkel, União Cristã Democrática da Alemanha ( Christlich Demokratische Union Deutschlands, ou CDU, em alemão) torceram secretamente por uma vitória do AKP.

Mas um dos fatores também envolvidos nesta eleição foi a questão da personalidade. Erdogan, que fez 55 discursos de campanha em 15 dias, confirmou a sua imagem de político convincente, trabalhador e carismático. Os seus apoiadores já o estão comparando ao popular reformador econômico Özal - e a Atatürk. "Você é o maior primeiro-ministro", gritaram eles quando Erdogan apareceu em público na noite da eleição.

Eles também respeitam Erdogan por considerá-lo um homem que chegou ao topo a partir de uma origem humilde. Um homem que visita uma escola islâmica, mas ao mesmo tempo é apaixonado por futebol. Esses fãs costumavam chamá-lo de "Imame Beckenbauer", em uma referência ao jogador que é uma lenda viva do futebol alemão. Mas no momento da vitória ele foi modesto, e enfatizou a necessidade de união nacional: "Uma bandeira, uma república".

Uma mensagem para os generais
Teria sido esta uma mensagem para os generais? Agora o exército desempenhará um papel decisivo para determinar se a Turquia terá ou não sucesso, com este resultado claro, na superação da crise política provocada pela fracassada eleição presidencial. Será que agora os militares aceitarão um candidato do AKP contra quem ameaçaram intervir, segundo um memorando divulgado em abril? O memorando, publicado na Internet, foi tido por diversos setores como uma ameaça de um golpe militar contra Erdogan, caso o seu ministro das Relações Exteriores, Abdullah Gül, se tornasse presidente. A eleição de domingo pode também ser encarada como uma mensagem dos eleitores às forças armadas, afirmando que estas devem parar de se intrometer na política.

O voto parlamentar para presidente será o primeiro grande teste para Erdogan. Será que ele interpretará a vitória do domingo como um plebiscito sobre Gül, e tentará mais uma vez elegê-lo presidente? Na noite de domingo, em Ancara, Erdogan apareceu ostensivamente junto ao ministro das Relações Exteriores, que é um muçulmano devoto. Os dois estavam acompanhados das mulheres, que usavam o xale muçulmano na cabeça. No entanto, apesar do sucesso do partido, os resultados preliminares revelam que ele não conseguiu conquistar uma maioria de dois terços no parlamento. Isso significa que ainda precisará dos votos da oposição no parlamento para eleger um presidente.

Seria prudente evitar irritar ainda mais as forças intransigentemente seculares da Turquia, trazendo à tona, por exemplo, um outro debate sobre o uso do xale. E, de sua parte, o CHP deveria evitar repetir um cenário como o de abril passado, quando o partido boicotou o voto para a escolha do presidente, e a seguir entrou com um processo junto ao supremo tribunal do país para invalidar a eleição, gerando assim a maior crise política da Turquia em uma década. Membros graduados do AKP estão convencidos de que o seu partido obteve a maioria dos votos no domingo porque os eleitores simpatizam com Gül, que, segundo eles, teve a sua eleição para a presidência sabotada pelo CHP.

A maioria parlamentar de dois terços também teria sido necessária para que o AKP cumprisse a sua promessa de modificar a constituição. O partido também anunciou outras reformas importantes que Bruxelas aguarda ansiosamente depois que as ambições européias do AKP diminuíram no decorrer do ano passado.

E há um obstáculo a mais pela frente: em breve Erdogan precisará decidir se, pressionado pelas forças armadas, invade ou não o norte do Iraque. O exército quer combater os militantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (Partiya Karker Kurdistan, ou PKK, na sigla em curdo) que infiltraram-se na região, mas, caso faça isso, Erdogan se arriscará a intensificar o conflito em um Iraque devastado pela guerra. O Ocidente tem acompanhado esses acontecimentos com grande preocupação.

A intensidade com que a Turquia continuará agora a trilhar a sua rota rumo à Europa dependerá também dos europeus. Por quanto tempo a Turquia poderá manter uma atitude cooperativa quando fica cada vez mais claro que a Europa não quer que o país ingresse na União Européia? Afinal, o verdadeiro dilema da Turquia tem mais a ver com o seu percurso rumo à Europa do que com o debate sobre xales e minissaias. O país votou pela estabilidade, pelo crescimento econômico e - caso se acredite nas promessas de campanha feitas pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan - pela implementação de mais reformas democráticas UOL

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