UOL Notícias Internacional
 

20/09/2007

Será que a Bélgica se dirige para o divórcio?

Der Spiegel
Hans-Jürgen Schlamp
Em Bruxelas
Desde os dias do império romano, Julio César descreve o prazer dos belgas de discutir. Geralmente, o pequeno povo gaulês é cheio de amor à vida -consome enormes quantidades de ostras e champanhe, sem mostrar um gosto especial pelas batatas fritas e confeitos. Sua política, por outro lado, é difícil de digerir- como ficou evidente um dia após as eleições parlamentares de 10 de junho.

Em Flandres -parte Norte do país, onde se fala holandês- a vitória foi do partido conservador cristão democrata de Yves Leterme. O líder flamengo prometeu entregar importantes poderes do governo central em Bruxelas para as regiões do país, nas áreas de taxação, saúde e políticas sociais. A medida, essencialmente, transformaria a Bélgica federalista em um tipo e confederação de Estados. Entretanto, a constituição belga requer que Leterme encontre parceiros entre os valões para implementar seu projeto.

Shamil Zhumatov/Reuters - 12.set.2007 
A seleção de futebol é, para historiador, um dos elementos que mascaram fratura da Bélgica

Os valões moram no Sul, falam francês e não dão a mínima para os planos de Leterme. Eles já foram a mais alta classe do país -primeiro, na corte real e, depois, nas indústrias prósperas de carvão e aço. Mas essas indústrias se foram há muito, e a Valônia, desde então, tornou-se a casa pobre da Bélgica, dependente de transferências do Norte rico. Em junho, os valões votaram no Partido Liberal. Este quer deixar o país como está, o que quer dizer que se opõe a tudo que Leterme quer fazer.

Os vencedores eleitorais do Norte e do Sul do país vêm se reunindo regularmente desde as eleições -ainda assim continuam sem ter a menor idéia de como prosseguir. Se cederem ao outro lado em Bruxelas, estarão destinados a voltar para casa; se permanecerem rígidos, não haverá novo governo. Enquanto isso, o país está patinando: a saída do primeiro-ministro, Guy Verhofstadt, foi decidida em votos, mas seu governo ainda está provisoriamente se responsabilizando pelas funções oficiais. Todos os projetos importantes, no entanto, foram deixados em banho-maria.

O país há muito é dividido por um muro invisível: em uma metade, as pessoas assistem televisão francesa, lêem jornais franceses e aprendem francês na escola; na outra, as pessoas falam e lêem holandês. Quando alguém pede informação em francês nas ruas em Flandres, raramente recebe uma resposta. Apesar de muitos flamengos terem aprendido a língua do sul, recusam-se a falá-la.

A maior parte dos valões nem entende holandês, que eles freqüentemente chamam, com menosprezo, de "língua de camponeses". O Conselho do Ministro, gabinete do primeiro-ministro belga, até emprega tradutores para garantir que os ministros valões e flamengos sejam capazes de se comunicar.

UM PAÍS DIVIDIDO
 Guilherme Werneck/Folha Imagem - 25.jun.2001
Arquitetura dos prédios da Grand'Place, em Bruxelas, Bélgica
ORIGEM DOS ATRITOS
As tribos lingüísticas belgas gostam de implicar toda vez que aparece uma oportunidade. Agentes fiscais em subúrbios flamengos de Bruxelas só aceitam cartas e formulários escritos em flamengo, apesar da maioria dos contribuintes ser de valões que falam francês. Departamentos públicos rejeitam serventes porque não falam flamengo perfeito. E a controvérsia sobre a justa distribuição de barulho de aviões entre subúrbios flamengos, valões e "bilíngües" em torno do aeroporto Zaventem de Bruxelas, que se arrasta há anos, força os pilotos que chegam e partem a fazerem curvas complicadas.

"Divórcio ou quartos separados"
O romancista belga René Swennen acredita que a cisão belga é iminente, e que a divisão do país em duas metades é "inevitável". Nada menos que 43% dos flamengos são a favor de Flandres independente. Até mesmo o principal jornal valão, Le Soir, só vê duas opções: "Divórcio ou quartos separados".

O "cimento" que mantém o país unido atualmente consiste apenas de "o rei, a seleção e a cerveja", argumenta o historiador Vincent Dujardin. Mas as rachaduras estão aparentes.

O rei Albert II não é muito popular, especialmente no norte flamengo. Ele fala holandês mal, dizem os críticos. E faz tempo desde que os jogadores de futebol belgas fizeram uma boa partida. Após um empate desanimador no Cazaquistão, na quarta-feira passada, o Red Devils não conseguiu se classificar para o Campeonato Europeu de Futebol Uefa, na Suíça e Áustria, no próximo verão.

Nem mesmo a cerveja belga -que tem nada menos que 400 marcas- é suficiente para fornecer uma identidade nacional atualmente. Cada vez mais está se tornando um assunto regional: políticos flamengos bebem a boa cerveja pesada de sua região e evitam as marcas do Sul. Enquanto isso, seu desdém por Bruxelas -que foi uma metrópole flamenga, mas hoje é principalmente ocupada por belgas francófonos- equipara-se ao de muitos críticos das instituições da União Européia que têm sua sede ali.

A ignorância que os políticos belgas demonstram em relação ao seu próprio país algumas vezes leva a situações grotescas -a mais recente, no dia 21 de julho, feriado nacional belga. Um repórter de televisão pediu ao flamengo Yves Leterme para cantar o hino nacional. Ele entoou a canção errada: em vez da "Brabanconne" belga, o homem que talvez se torne o novo líder do governo cantou a "Marseillaise" francesa.

Não foi sua única gafe naquele dia. Um outro jornalista perguntou-lhe sobre a ocasião histórica das festividades, que incluem uma parada militar e uma missa. "A proclamação da constituição", respondeu Leterme. Errado de novo.

Seus defensores riram: e daí? Como 98% dos cidadãos belgas, o adversário valão de Leterme e o primeiro-ministro de saída também não teriam sido capazes de dar a resposta certa. (O feriado comemora o juramento oficial do primeiro rei belga em 1831).

E quem liga para o hino, a bandeira e o feriado nacional de qualquer forma? Há flamengos que falam holandês, valões que falam francês e uma minoria que fala alemão em torno da cidade de Eupen, um enclave lingüístico localizado perto da fronteira com a Alemanha.

Talvez as palavras de Jules Destée sejam as mais verdadeiras. Quando o rei da Bélgica na época tentou gerar sentimentos de união nacional no país em 1912, o socialista valão respondeu: "Não existem belgas". Os flamengos e os valões compartilham o país, mas são divididos em quase todo o resto. O antigo conflito agora começou a ameaçar a unidade belga, com o norte flamengo pedindo maior independência de Bruxelas Deborah Weinberg

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