UOL Notícias Internacional
 

27/09/2007

Violência de Louisiana promove debate sobre o racismo no sul dos EUA

Der Spiegel
Gregor Peter Schmitz
Em Jena, Louisiana
A árvore se foi -por completo. O enorme carvalho antes era imponente no meio do pátio da escola de ensino médio de Jena. Agora, só restaram marcas no gramado. Até o toco foi arrancado do chão em um final de semana em julho, diz Billy Fowler do conselho supervisor da escola -e ele parece muito contente com isso. "Queríamos traçar uma linha clara."

Se fosse tão fácil assim arrancar tudo pela raiz, inclusive as memórias. Por décadas, alunos brancos sentaram-se à sombra dessa árvore, chamada "árvore branca". Os alunos negros sentavam-se nas arquibancadas em volta, debaixo do sol forte de Louisiana.

E então, um aluno negro, Kenneth Purvis, cansou-se.

Matthew Hinton/AFP - 20.set.2007 
Jovem segura boneco como se fosse enforcado durante protesto pelos "Seis de Jena"

Purvis é um homem grande, com um grande peitoral -não é uma pessoa facilmente intimidada. "Pedi ao diretor se poderia também sentar-me sob a árvore", lembra-se. O diretor disse que era livre para fazer o que quisesse. Então Purvis sentou-se sob a árvore com seus amigos, em um dia quente de agosto do ano passado.

A princípio, ninguém disse nada. No dia seguinte, porém, havia laços de forcas pendurados nos galhos -um símbolo da lei aterrorizante de enforcamento sem julgamento que reinou no Sul na era da escravidão.

A partir daí, um redemoinho de frustração e raiva, vingança e retaliação desenvolveu-se -até que um adolescente branco foi deixado inconsciente no chão, e seis adolescentes negros foram presos, acusados de tentativa de assassinato.

A árvore e a pequena cidade de Jena conquistaram fama questionável no mundo todo -no mínimo desde quinta-feira (20/9), quando milhares de pessoas marcharam pelos direitos dos alunos presos.

O caso de Jena, no entanto, representa exatamente o que? O racismo do Sul? O início de um movimento de direitos civis? Ou será somente um cenário para violência adolescente grosseira?

Um bom lugar
Jena localiza-se a uma curta distância da estrada Interestadual 20, que, a cada quilômetro conecta uma pequena cidade à próxima. Cada cidade é organizada de acordo com o mesmo princípio: uma Wal-Mart, um posto de gasolina, lojas de redes de lanchonetes, igrejas, uma escola de ensino médio, um estádio de futebol e casas.

Jena recebe seus visitantes com uma bandeira com um coração e um aviso que diz: "Jena. Um bom lugar para se chamar de lar." Das 2.971 pessoas que fazem isso, muitas trabalham nos campos de petróleo e gás -trabalho duro, que paga mal, cerca de US$ 14.000 (R$ 28.000) por ano, em média. Ainda assim, é o suficiente para dividir a cidade. De um lado da linha divisória, estão as ruas relativamente afluentes com suas casas grandes em torno da Bellevue Drive, por exemplo. A igreja é uma construção de tijolos marcante, com grandes colunas na entrada.

ENTENDA O CASO
Sean Gardner/Reuters
Homem segura pintura de uma forca durante protesto contra racismo
A ÁRVORE DA IRA
Do outro lado da linha divisória, está Ward 10, onde moram quase todos os quase 400 negros de Jena. Esta parte da cidade fica virtualmente escondida nas florestas e consiste de casas simples e cabanas de ferro corrugado, entre as quais uma eventual carcaça de carro pode ser vista. Aqui, a igreja é uma construção de madeira frágil, onde nuvens de mosquito pairam sobre o carpete rasgado dos degraus da entrada.

"Esta cidade está coberta de racismo"
Bellevue Drive fica apenas três minutos de distância de Ward 10, mas é uma longa viagem de um lado ao outro. Não há um único advogado ou médico negro em Jena. O único funcionário negro em qualquer um dos seis bancos trabalha no departamento de contabilidade, bem longe dos clientes.

Eddie Thompson, ministro branco barrigudo, é uma das poucas pessoas que cruzam os dois bairros. "Esta cidade está coberta de racismo", diz ele. "Suas opções em Jena dependem de qual parte você cresce." Em outras palavras: dependem da cor de sua pele.

Jena High School é um lugar onde brancos e negros são obrigados a ficar juntos. Eles jogam no mesmo time de futebol, principal atração da cidade. "No refeitório, porém, os brancos sentam-se em um canto, e os negros no outro", disse Dustin, que é branco, enquanto visitava sua antiga escola. Dustin formou-se da escola no ano passado. Agora trabalha na Wal-Mart.

Um cartaz com as palavras "Misturem-se" está pendurado na parede do refeitório. No dia 16 de novembro, todo mundo terá que se sentar ao lado de todo mundo por um dia. "Estou curioso para ver o que acontece", disse Dustin laconicamente. E ele tem razão para ficar curioso: foi um ano difícil para esta escola.

Quando as forcas apareceram na árvore, o diretor quis expulsar da escola os três estudantes responsáveis. Mas seus pais protestaram, e os alunos foram apenas suspensos por algumas semanas. As primeiras brigas entre brancos e negros ocorreram. Então, o advogado branco Reed Walters disse aos estudantes negros no auditório da escola que poderia acabar com a vida deles com uma única assinatura, de acordo com algumas testemunhas.

Depois, parte da escola foi incendiada; até hoje não foi reconstruída totalmente. Brancos e negros suspeitaram uns dos outros. Em seguida, um aluno negro foi surrado em uma festa. O atacante branco recebeu apenas uma advertência.

No dia seguinte, houve uma briga no posto de gasolina, durante a qual um estudante branco sacou uma pistola. Os negros ameaçados por ele arrancaram-na de suas mãos. Foram acusados de roubo, enquanto o aluno branco saiu ileso.

Finalmente, em dezembro, houve o ataque no pátio da escola, onde seis estudantes negros teriam atacado um branco, Justin Barker. Barker teve que ser levado ao hospital, mas à noite já pôde ir à festa da escola -diferentemente dos seis atacantes, que foram presos -acusados de tentativa de assassinato.

Padrões duplos
Os réus podem pegar até 22 anos de prisão, apesar das acusações terem sido reduzidas para dano corporal grave. O caso rapidamente recebeu a atenção de organizações negras em torno dos EUA que estão lutando contra o que chamam de "padrões duplos" da justiça. As estatísticas apóiam o argumento: jovens negros são apenas 16% da população dos EUA, mas quase 40% dos presos em sua faixa etária.

Quatro jovens sentadas nos degraus na frente da escola acham que as acusações contra seus colegas são simplesmente absurdas. Seus professores instaram-nas a não falar com os jornalistas, mas queriam falar. "Esse Justin Barker foi a uma festa na mesma noite. Ele está exagerando", disse uma das alunas do primeiro ano do ensino médio. Os estudantes negros simplesmente se cansaram de sempre serem punidos, toda vez que havia confusão, acreditam as jovens. "Foi só uma briga de escola", disseram. Aí está novamente, a revolta com os padrões duplos.

Um dos Seis de Jena, Mychal Bell, já foi até condenado. Um estudante que pendurou as forcas na árvore teve permissão de testemunhar contra Bell no tribunal. A sentença deveria ser executada no dia 20 de setembro. Entretanto, o veredicto foi derrubado porque Bell tinha 16 anos quando o crime foi cometido e portanto deveria ter sido julgado em uma corte juvenil.

Seis contra um
Bell era o astro de futebol da escola. Ele era bom aluno -mas também "uma pessoa que sempre se metia em encrenca", disse Anthony McCoy, ex-aluno negro da escola, que se tornou amigo de Bell durante seus tempos de futebol. Bell já tinha três condenações anteriores em apenas dois anos. Por isso foi o único a não ter sido liberado para acompanhar o julgamento em liberdade.

Houve mais negociações sobre a possível libertação de Bell na sexta-feira última. Centenas de jornalistas e manifestantes reuniram-se na frente da minúscula corte novamente. Quando a audiência terminou, os pais de Bell saíram; lágrimas corriam pelo rosto da mãe. Seu filho não recebera permissão para ir para casa com ela por causa de suas condenações anteriores. Seus defensores cantaram: "Sem justiça, sem paz."

E o que justiça quer dizer neste caso? Apesar de todas as manchetes, continua sendo uma história de réus e vítimas. McCoy viu Justin Barker, o aluno branco, imediatamente após o ataque. "Tinha sangue saindo pelas orelhas", disse McCoy.

Algumas testemunhas disseram que os atacantes continuaram a chutar Barker quando já estava deitado inconsciente no chão. "Seis contra um: poderiam ter matado ele", diz McCoy.

Fazendo de Jena um símbolo
Agora, o ambiente em Jena é tal que os que pedem atenção para a vítima são rapidamente chamados de racistas -parcialmente porque a feiúra antiga está voltando. Um neonazista americano divulgou os endereços e números de telefone dos Seis de Jena em seu site da Web -e está abertamente chamando uma multidão para linchá-los. Os réus agora estão sob proteção policial, e o FBI está investigando o caso, assim como o dos proprietários de dois carros que penduraram forcas vermelhas em suas caminhonetes durante a manifestação na quinta-feira. Depois de sua prisão, proclamaram orgulhosamente ser membros da Ku Klux Klan.

Era exatamente isso que Jéssica -que não quer que seu sobrenome seja revelado- temia. Ela estacionou sua caminhonete Ford no meio da rua principal de Jena, com seu marido Rick; queriam comprar galinha frita para o jogo de futebol que assistirão.

"Tenho medo que isso cresça", diz Jéssica. "E que todos nós sejamos rotulados de racistas malucos. Quando vimos a CNN ontem, minha filha me perguntou: 'Mãe, nós agora odiamos os negros?'"

Jéssica conhecia dois dos estudantes brancos que penduraram as forcas na árvore -e ela acha que suas sentenças foram leves demais, assim como acha duras demais as sentenças que os Seis de Jena podem receber. "Mas saiu de controle", diz Rick. "Não somos todos racistas."

Ativistas de direitos civis negros, como Jesse Jackson e Al Sharpton, estão firmemente decididos a transformar Jena em um símbolo -de um novo movimento de diretos civis americano, 50 anos depois do original. Neste momento, muitas das conquistas daquela era parecem estar em risco, devido a novas decisões de uma Suprema Corte mais conservadora e ao desencanto de muitos cidadãos americanos brancos com noções de integração racial.

Sharpton e Jackson esperam levantar o entusiasmo de uma nova geração que só sabe das marchas dos anos 60 a partir dos livros de história. Parece estar funcionando: dos milhares de manifestantes em Jena, a maior parte era jovens afro-americanos. Sharpton fez um discurso apaixonado, pedindo a Washington que agisse contra decisões arbitrárias da justiça no sul. Queria fazer soar como um discurso que poderia ter sido feito há 50 anos -mas ainda assim ficou estranho.

Até os democratas estão discretos
Na época, as questões ainda eram sobre nove estudantes negros em Little Rock que queriam estudar com os brancos. Ou sobre Rosa Parks, que se recusava a dar seu assento no ônibus para um homem branco. Agora, um novo movimento de direitos civis deve ser iniciado por jovens acusados de quase matar uma pessoa inconsciente com chutes.

Até a reação dos candidatos presidenciais do Partido Democrata foi restrita. Barack Obama teve que se defender dos ataques de Jesse Jackson, que o acusou de não ser "negro" o suficiente.

A acusação é absurda, até porque ignora que Obama é um novo tipo de político negro. Ele não evita criticar o que vê como falhas na comunidade negra, como a hostilidade contra a educação, a irresponsabilidade de jovens pais negros e a cultura machista de hip hop, com sua glorificação de materialismo e violência.

Tudo isso está operando neste caso: uma fotografia circulou no site MySpace que mostrava um dos Seis de Jena colocando notas de US$ 100 na boca, com uma legenda que dizia que não tinha de US$ 50. Artistas de hip hop como 50 Cent falam da mesma forma -e são justamente essas pessoas que alguém como Obama não quer parecer representar, como as pessoas que lutam seis contra um.

Certo, tudo começou com uma briga sobre a "árvore branca". Anthony McCoy lembra-se de se sentar debaixo dela, em seus tempos. Todd Lewan também colecionou declarações para Associate Press nas quais professores e alunos dizem que a árvore não era reservada para brancos, mas servia de ponto de encontro para pessoas das duas cores.

No entanto, isso provavelmente não importa mais. Os recentes protestos diante das acusações contra seis adolescentes negros em Louisiana, os "Seis de Jena", ressaltaram como a questão de raça ainda é explosiva no sul dos EUA. É improvável, entretanto, que o caso complexo inspire um novo movimento de direitos civis Deborah Weinberg

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