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30/11/2007

Rômulo e Remo: será verdadeira a espetacular descoberta italiana?

Der Spiegel
Matthias Schulz
Existem inúmeras histórias de golfinhos que salvaram náufragos e cães fortes que levaram assistência a alpinistas em perigo. Entretanto, na foz do rio Tibre, onde o grande poder militar do mundo antigo chegou à glória, o amor animal por almas perdidas foi ainda mais longe.

Dois meninos, Rômulo e Remo, foram abandonados nus. Então, uma loba apareceu e amamentou os gêmeos, salvando-os da fome. Conforme estabelecido por uma espécie de comissão histórica na antiguidade, essa amamentação lupina ocorreu justo antes do ano de 753 a.C. Mais tarde, Rômulo matou seu irmão, fundou Roma e subiu ao trono da Cidade Eterna.

Na Itália moderna, que ama relembrar a glória da Roma antiga, toda criança conhece a lenda. Todas as nações têm seus mitos e símbolos. Enquanto os franceses têm seu galo, os gregos reverenciam o monte Olimpo e os britânicos contam a lenda do Rei Artur, os cidadãos do país mediterrâneo ao sul dos Alpes veneram duas crianças -filhos de Marte, o deus da guerra- que foram abandonas em uma cesta no Tigre.

Reuters/ Ministério da Cultura italiana 
Imagem de parte de caverna onde arqueólogos sugerem que teria vivido Rômulo e Remo

Pesquisadores especialistas em antiguidade sabem há muito que não há uma palavra de verdade na origem lendária de Roma. Provavelmente, o nascimento humilde da nação foi assim: durante a era de ferro, assentamentos consistindo de cabanas de palha foram estabelecidas em quatro das sete colinas de Roma. No final do século 8 a.C., essas aldeias cresceram e se uniram, formando uma comunidade maior. Aparentemente, também houve conflitos entre os vários chefes.

A lenda, contudo, é simplesmente fabulosa demais para morrer. É recontada em livros escolares e apresentada em painéis. Há selos que retratam a loba gentil, e escritórios de turismo que atraem visitantes com a história mítica famosa.

Na semana passada, o país novamente pôde tirar conforto de sua história edificante. Durante escavações arqueológicas na colina Palatina -que tem uma vista magnífica do Circus Maximus- onde ficavam os palácios e mansões de luxo dos césares e cidadãos romanos afluentes, os pesquisadores encontraram uma caverna ricamente decorada.

Diretamente sob o palácio de Augusto -o primeiro imperador de Roma (63 a.C. a 14 d.C.) -fica uma câmara "16 metros abaixo da superfície", diz Andréa Carandini, professor de arqueologia da Universidade La Sapienza de Roma e principal escavador.

Aí Carandini joga a bomba: ele diz que está "razoavelmente certo" de que essa câmara é de fato o santuário referido em textos antigos como Lupercale, da palavra latina para lobo. Em outras palavras, os pesquisadores desencavaram o berçário de Rômulo e Remo, que os cidadãos da antiga Roma usavam para celebrar um ritual anual bizarro.

"Esta é uma das maiores descobertas", disse Carandini. A notícia deu início a uma tempestade na mídia. Um dos principais jornais italianos, "La Repubblica", dedicou duas páginas comemorando a descoberta da caverna, proclamando que o berço dos heróis fora encontrado. O jornal alemão de grande circulação "Bild"
escreveu que "um dos mitos mais famosos da humanidade" havia sido decifrado. Mesmo o "Frankfurter Allgemeine Zeitung" brincou que o "umbigo do mundo" finalmente havia sido descoberto.

"A Itália surpreende o mundo repetidamente com descobertas arqueológicas", anunciou orgulhosamente o ministro da cultura Francesco Rutelli. "É incrível que um mito tenha se tornado um lugar de verdade." Rutelli havia convidado toda uma equipe de especialistas da antiguidade para confirmarem o que a principal autoridade de arqueologia em Roma, Angelo Bottino, alega ser "a descoberta do século".

Alegações impressionantes. Mas serão verdadeiras?

A declaração audaciosa da mídia feita há uma semana, na terça-feira, parecia querer compensar um desapontamento anterior. Até recentemente, os acadêmicos acreditavam que a famosa escultura abrigada no museu Capitoline que retrata Rômulo e Remo mamando em uma loba era uma obra de arte dos tempos da antiguidade. Novas análises metalúrgicas revelaram, entretanto, que a estátua é de fato uma falsificação da Idade Média.

Esse desdobramento deixou muitos italianos desapontados. As coisas em geral não vão muito bem na Itália. A máfia se recusa a dar trégua. Depois que a polícia atirou em um fã em meados de novembro, a inquietação não deu trégua nos estádios de futebol. E mais: quando um romeno matou a mulher de um oficial da marinha, uma onda de racismo cruzou o país. O governo -dividido em vários partidos miniatura -está muito mais paralisado do que de costume. E o tumulto
continua: em uma medida surpreendente, o líder da oposição Silvio Berlusconi dissolveu o Forza Itália. Ele quer estabelecer um novo partido.

Então as manchetes da famosa caverna lupina emergem como um brilho de esperança -ao menos no horizonte de um passado dourado. Esta sensação arqueológica, entretanto, pode levar a outro desapontamento. A maior parte dos especialistas em história antiga romana tem sérias dúvidas sobre as declarações precipitadas.

"Uma caverna sagrada não é assim", protestou o diretor do Instituto Arqueológico Alemão em Roma, Henner von Hesberg, que também trabalha no Palatine. Ele acha que a caverna de quase sete metros de diâmetro era provavelmente "uma sala de jantar privada" ligada aos pisos superiores do palácio do imperador Augusto por uma escada.

Adriano La Regina, superintendente romano de arqueologia de 1976 a 2004, também rejeita a teoria. Ele acredita que o ponto simbólico deve ser localizado mais a oeste.

Ninguém entrou na caverna pintada porque a estrutura não é segura. Mesmo quando uma perfuradora especial foi usada para abrir o teto da câmara, grandes pedaços de decoração caíram. Conseqüentemente, os pesquisadores estão progredindo com muita cautela, usando câmeras de controle remoto e lasers.

E o debate continua. Os críticos dizem que a natureza íntima das decorações lança dúvidas sobre as alegações.

O teto da câmara é incrustado de conchas marinhas, mármore e pedra pome, com mosaicos visíveis em alguns lugares. Há painéis retangulares cheios de formatos de diamantes e flores. Tais decorações ornadas são típicas das câmaras privadas de nobres no final da república romana, em torno de 50 a.C.

Por contraste, a Lupercale sagrada parecia um templo de pedra escuro e triste. Havia velas no interior e padres guardando a entrada. Documentos antigos relatam que uma grande loba de bronze com dentes de fora ficava no interior.

A cada ano, no dia 15 de fevereiro, uma cerimônia selvagem era feita na caverna para cultuar o fauno, uma deidade romana. No alto da orgia, os guardiões do templo matavam um bode, tiravam sua pele e batiam nas mulheres com os pedaços de pele sangrentos. Acreditava-se que isso as tornaria mais puras e férteis.

Essa cerimônia brutal não se encaixa bem com as decorações refinadas da caverna. "Você esperaria um tipo significativamente diferente de decoração em um espaço religioso público", diz Hesberg, arqueólogo alemão. E não há indicação de objetos sagrados. As sondas não encontraram vasos rituais ou um altar.

O diretor do projeto, Carandini, nega essas preocupações. Ele está usando o pleno peso de sua fama para calar qualquer questionamento -presumivelmente também porque ele conseguiu atrair considerável patrocínio. O Estado aprovou uma nova escavação em grande escala da colina Palatine.

Entretanto, ainda há dúvidas. A caverna lupina parece mais uma lanchonete da classe alta na antiguidade. Sabe-se que muitos césares romanos, incluindo Nero e Calígula, tinham pequenas salas de jantar construídas nos vãos naturais na rocha sob seus palácios de vários andares na Palatine. Durante o verão, a camarilha oficial reclinava nessas cavernas frescas e comia produtos refinados como rato de campo engordado e peixe sobre purê de tâmaras.

Até o grande imperador Augusto, cujo imenso palácio ficava acima do local, quase certamente tinha tal boudoir epicureu. Hesberg explica que "o espaço é suficiente para um triclinium", palavra latina para uma sala com três divãs nos quais as pessoas comiam semi-reclinadas.

Seria possível que a suposta caverna dos fundadores de Roma na realidade é onde o grande imperador comia, com um pequeno círculo de amigos, língua de pavão na brasa temperada com molho de peixe fermentado?

Essa suspeita poderá ser confirmada em breve. A parede da caverna é gravada com uma águia branca: símbolo do Império Romano durante o reino de Augusto. A Itália foi abalada pela violência no futebol, o governo está dividido, e a economia está lenta. Agora, os arqueólogos entraram em cena para salvar o orgulho nacional. Em uma colina no centro da capital do país, eles acreditam terem encontrado a caverna sagrada dos fundadores de Roma Deborah Weinberg

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