UOL Notícias Internacional
 

01/12/2007

Salvando cidades fantasmas japonesas

Der Spiegel
Wieland Wagner
Quando o prefeito de Yubari olha por sua janela, ele vê uma cidade fantasma. A maioria das lojas fechou suas portas e muitas das casas de madeira empenada estão apodrecendo. É difícil imaginar que décadas atrás esta cidade de mineração de carvão tinha 120 mil habitantes. Hoje apenas um décimo permanece, predominantemente aqueles velhos ou pobres demais para se mudarem.

Uma liquidação teve início nesta cidade na ilha japonesa de Hokkaido, no norte: o carro oficial do prefeito, um Toyota Crown, acabou de ser leiloado on-line por seus funcionários. Eles conseguiram cerca de 5 mil euros (cerca de R$ 13 mil) por ele e uma grande pedra preciosa rendeu 2.500 euros. A seguir, eles querem vender 130 bonsais.

O prefeito Hajime Fujikura recebe o visitante com um cumprimento. Mesmo enquanto sua cidade declina, ele mantém sua educação japonesa. Seu gabinete está ficando cada vez mais solitário. Desde que Fujikura foi eleito em abril, 129 dos 269 funcionários -que não aceitaram a redução de 40% em seus salários- deixaram a prefeitura.

Yubari está falida, mas não é culpa de Fujikura. Os cidadãos da cidade o elegeram para salvá-los do estado de emergência. Em 18 anos eles precisarão quitar uma montanha de dívidas -35 bilhões de ienes, ou cerca de R$ 580 milhões. Dificilmente será possível, disse Fujikura. Mas ele acabou de chegar à prefeitura e ainda precisa determinar quanta dor os cidadãos de Yubari podem suportar.

Exatamente onde fica tal limiar é a pergunta que faz todo o país. Yubari é o laboratório onde um desastre muito maior pode ser estudado em pequena escala. Os dois maiores jornais do Japão enviaram dois importantes correspondentes para esta cidade atrasada e os instalou na prefeitura, ao lado do gabinete de Fujikura. A tarefa deles é documentar a crise em detalhes meticulosos.

Ajuda dos lutadores de sumô
O que está acontecendo em Yubari também está acontecendo em muitas outras comunidades. Com a dívida bruta ultrapassando o produto interno bruto em 160%, o governo do Japão tem o maior nível de dívida pública dentre os países industrializados. Dificilmente alguém no Japão pode sentir indiferença a respeito do destino de Yubari.

Seus cidadãos economizam e economizam. Os banhos e toaletes da cidade foram fechados. O hospital foi rebaixado a clínica privada. Sete escolas primárias se transformarão em uma. E Fujikura não está autorizado a ordenar que as ruas desta cidade nevosa sejam desobstruídas até que as pilhas de neve atinjam mais de 15 centímetros de altura.

Atualmente Yubari mal consegue se esquivar das manifestações de solidariedade do restante do país. Até mesmo lutadores de sumô estiveram na cidade para animar seus moradores com exibições gratuitas de sua arte marcial. Tal onda de compaixão é incomum -quase um ato silencioso de rebelião- para o Japão, onde a maioria dos moradores evita conflito e valoriza a harmonia acima de tudo. É um protesto contra Tóquio e o Partido Democrático Liberal (PDL), que governa o país há mais de 50 anos. Suas reformas econômicas ampliaram a desigualdade entre as grandes cidades e o interior.

O japoneses dificilmente tolerarão esta situação. Eles anseiam pelos dias de cooperação estreita entre o governo e a indústria, quando o Japão tinha uma mistura peculiar de socialismo e capitalismo que colocava quase todos na classe média. Este anseio explica por que os eleitores puniram o PDL em julho na eleição para a câmara alta, o que forçou o então primeiro-ministro Shinzo Abe a renunciar.

Seu sucessor, Yasuo Fukuda, visa restaurar a confiança. O filho do ex-primeiro-ministro Takeo Fukuda fala de forma suave e precisa, no estilo correto de um administrador. Seu estilo é o que o partido precisa -os eleitores japoneses querem segurança em vez de slogans. E Fukuda prometeu ajudar as comunidades abandonadas.

Tóquio apenas agora -de forma atrasada- descobriu a magnitude da crise estrutural nas províncias. O rígido sistema de governo central do Japão, que confere pouca responsabilidade às comunidades individuais, é o culpado. Por anos, os políticos do PDL apenas despejavam dinheiro em seus distritos eleitorais para aliviar os efeitos da recessão econômica dos anos 90 -ou para compensar a desativação da mineração de carvão.

Aqueles que lucraram com estas remessas de dinheiro foram principalmente os magnatas da construção e vários políticos locais duvidosos. O ex-prefeito de Yubari construiu um bloco de concreto atrás do outro com os recursos de Tóquio, em um esforço para transformar a área de mineração de carvão em um paraíso turístico. Dois hotéis, rampas de esqui e um parque temático adornam o campo desolado. Só faltam os turistas.

No passado, o PDL salvaria a cidade falida destinando mais bilhões de ienes. Mas agora Tóquio precisa aprovar qualquer gasto proposto pelo prefeito Fujikura. Ele só tem liberdade para economizar dinheiro. Só que quanto mais diligentemente ele economiza, mais contribuintes se mudam da cidade.

Fujikura não quer permitir que sua cidade falida mergulhe na pobreza. Ele está desesperado por receita e agora encontrou uma fonte. Como mais e mais cidades e comunidades estão enviando delegações para Yubari para aprender com o desastre da dívida, Fujikura agora coleta uma espécie de taxa de entrada -90 euros (US$134) para casa grupo de cinco. Se Yubari fracassar, pelo menos não fracassará de graça. No rastro da crise da dívida do Japão, dificuldades reinam em partes do interior, onde muitas cidades pequenas devem somas punitivas de dinheiro George El Khouri Andolfato

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