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05/12/2007

A queda livre do dólar - parte 3: o centro da ordem econômica mundial pós-guerra

Der Spiegel
De Dietmar Hawranek, Alexander Jung, Armin Mahler, Christian Reiermann, Wolfgang Reuter e Gabor Stei
A era do dólar começou em uma data específica. Em 22 de julho de 1944, 730 delegados de 44 países reuniram-se em uma conferência em Bretton Woods, um resort no Estado norte-americano de New Hampshire. No Hotel Mount Washington, o grupo decidiu como seria o sistema monetário mundial do pós-guerra. John Maynard Keynes, o grande economista inglês que chefiou a delegação britânica em Bretton Woods, propôs a criação de uma espécie de moeda artificial que seria válida em todo o mundo. Foi uma idéia brilhante —em tese. Mas os norte-americanos, sob a liderança do então presidente Franklin Delano Roosevelt, acabaram vencendo.

Segundo o acordo de Bretton Woods, o dólar, vinculado a uma quantidade fixa de ouro —US$ 35 por onça troy (31,1 gramas)— ficaria no centro de uma ordem econômica global pós-guerra, enquanto o valor das outras moedas dependeria do valor do dólar. Se a moeda de um país individual se tornasse muito forte ou fraca em relação à moeda dos Estados Unidos, o banco central de tal país interviria comprando ou vendendo dólares.

DÓLAR EM QUEDA LIVRE
O mercado não confia mais na vitalidade da economia norte-americana. Políticos observam impotentes. E uma continuidade da crise do dólar resultará em maior inflação, redução dos gastos dos consumidores e menores índices de crescimento nos Estados Unidos e em conseqüências ainda mais sérias para a economia global.

Acompanhe no UOL o especial da Spiegel Online em 7 partes:

PARTE 1: PROBLEMA MUNDIAL
PARTE 2: 'AMO UM EURO FORTE'
PARTE 3: UMA ERA PÓS-DÓLAR
PARTE 4: INDÚSTRIA PERDIDA
PARTE 5: ALIMENTO PARA CRISE
PARTE 6: DESACELERAÇÃO
PARTE 7: FATOR CHINA
Foi dessa forma que o sistema funcionou até 1971, quando o presidente Richard Nixon aboliu a garantia de compensar dólares com ouro. O problema foi que, àquela altura, o dólar havia ficado muito popular, de forma que o volume de moeda norte-americana fora dos Estados Unidos excedia as reservas de ouro do país. Em março de 1973, os bancos centrais do mundo decidiram que não mais interviriam, e o sistema de Bretton Woods chegou ao fim.

À época muitos temeram que os países simplesmente continuariam desvalorizando as suas moedas, melhorando desta maneira as perspectivas de exportações das suas companhias. Isso já havia ocorrido anteriormente, entre as duas guerras mundiais, tendo jogado a economia do mundo em uma crise fatal.

Mas a nova liberdade de câmbio entre moedas foi mais efetiva do que se esperava. A eliminação das regras de controle dos bancos centrais possibilitou que a força de uma economia individual determinasse que a nação geradora dessa economia robusta assumiria a liderança monetária do mundo. E, esse país, graças à sua enorme economia, era nitidamente os Estados Unidos.

Todavia, as moedas continuaram flutuando consideravelmente, enquanto os políticos tentavam reduzir a magnitude dessas oscilações cambiais com palavras. Reunindo-se em Nova York, em 1985, os ministros das Finanças das principais economias minimizaram a importância do dólar no Acordo Plaza.

Somente dois anos mais tarde eles assinaram o Acordo do Louvre a fim de impedir que o dólar entrasse em colapso. Mas, desde então, o dólar americano, apesar dos seus altos e baixos, passou a ser a medida de todas as coisas —e permaneceu nesta situação até hoje.

"A maior boca livre da história"
O domínio do dólar é algo muito atraente para os norte-americanos. Eles podem imprimir continuamente as notas verdes e vendê-las no exterior sem que isso provoque inflação no seu país. Eles podem contrair dívidas para financiar coisas como a guerra do Iraque ou desfrutar dos benefícios das reduções de impostos. Essa atitude provocou uma dívida nacional recorde nos Estados Unidos de US$ 5 trilhões.

Ao mesmo tempo, os norte-americanos deram-se ao luxo de consumir mais do que ganham. O déficit da balança comercial vem aumentando há anos —tendo passado de cerca de US$ 80 bilhões em 1990 para um nível projetado de mais de US$ 700 bilhões em 2007. Isso representa mais de 5% do PIB do país.

Nos últimos anos os Estados Unidos financiaram o seu recente boom econômico pegando dinheiro emprestado. O seu atual déficit duplo se constitui na evidência monetária de que a maior economia do mundo está vivendo há anos com um padrão que não condiz com as suas receitas.

Essa estrutura inteira só funciona porque foi implementado um sistema especial de fornecimento e retirada, um mecanismo que desafia nitidamente toda teoria econômica. Durante anos, grandes quantidades de capital têm fluído das economias emergentes mais pobres para os Estados Unidos, a nação mais rica da terra. Esse fluxo de capital estrangeiro, a maioria dele proveniente do Extremo Oriente, é de cerca de US$ 2 bilhões por dia.

O banco central em Pequim, por exemplo, acumulou enormes reservas em moeda forte com as exportações do país. A China possui a incrível cifra de mais de US$ 1,4 trilhão em suas reservas. Os chineses investiram a maior parte do seu dinheiro em Letras do Tesouro dos Estados Unidos, um investimento de baixo risco, mas também de lucratividade relativamente baixa. Ao proceder dessa forma, eles mantiveram o dólar elevado e a sua própria moeda em um valor baixo, garantindo que as suas exportações permanecessem competitivas.

Enquanto a Ásia financia o gasto excessivo dos consumidores norte-americanos, estes compram camisetas, carros e televisores de tela plana da Ásia a baixos preços.

"Endividar-se tanto assim e, ao mesmo tempo, usufruir das rendas de títulos governamentais de longo prazo de menos de 5% —eu chamaria isso de a maior boca-livre da história econômica moderna", afirma o historiador da Universidade Harvard, Niall Ferguson, referindo-se à audácia com que os norte-americanos tiram vantagem do privilégio de serem os detentores da reserva monetária mundial.

Raras vezes a economia mundial esteve de tão mal humor ou os desequilíbrios globais foram tão grandes. Os norte-americanos foram os financiadores do mundo durante anos. Atualmente eles são os que mais tomam emprestado, enquanto os asiáticos funcionam como o banco dos Estados Unidos.

É óbvio que isso não indica boas perspectivas no longo prazo. Durante anos, economistas e políticos têm advertido a respeito de um colapso iminente.

Algo tem de mudar
Agora, parece que o momento é propício para que isso ocorra. A queda acentuada do dólar nas últimas dez semanas é um sinal de que o pacto dos Estados Unidos com o Extremo Oriente tornou-se frágil. Os asiáticos passaram a mostrar bem menos disposição para comprar dólares e Letras do Tesouro dos Estados Unidos. E, à medida que os países do Extremo Oriente foram ficando cada vez mais impacientes com os Estados Unidos, eles começaram a modificar as suas reservas para euros.

Os credores não estão dispostos a simplesmente observar passivamente enquanto o valor das suas Letras do Tesouro dos Estados Unidos despenca; eles já perderam bilhões e bilhões nas últimas semanas. A parcela em dólares das reservas monetárias mundiais encolheram de 80% na década de 1970 para o número atual estimado em 65%. A China, a Rússia e a Malásia já desvincularam parcialmente as suas moedas do dólar, e o Kuait pretende fazer o mesmo em maio de 2008. Muitos produtores de petróleo também estão se distanciando da moeda norte-americana, tanto por razões econômicas quanto por ideológicas.

O banco de investimento Morgan Stanley considera improvável que a Arábia Saudita abandone a sua paridade com o dólar. Mas, de acordo com um estudo recente, os países menores do Golfo Pérsico poderão seguir o exemplo do
Kuait: "Isso poderá significar mais um impacto psicológico para o dólar" —e para os Estados Unidos, a outrora orgulhosa potência econômica.

A nação está profundamente intranqüila, à medida que tem início a tentativa coletiva de entender as causas das crise. Muitos norte-americanos sentem agora —e justificadamente— que o seu futuro pode ser bem mais sombrio do que o presente. UOL

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