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05/12/2007

Quando os subúrbios de Paris queimam: entrevista com o sociólogo Laurent Mucchielli

Der Spiegel
Entrevista concedida a Stefan Simons
Em uma entrevista ao "Spiegel Online", o sociólogo francês Laurent Mucchielli fala sobre as rebeliões nos subúrbios de Paris e o fracasso das políticas nacionais para integrar os imigrantes e seus filhos. Ele acusa o presidente francês, Nicolas Sarkozy, de usar a linguagem da guerra para caracterizar os recentes tumultos, de um modo que poderia provocar ainda mais violência.

Mucchielli, 39, do Centro de Pesquisas Sociológicas de Paris, foi recentemente co-autor de um estudo sobre as tensões dos imigrantes na França, chamado "Quando os Subúrbios Queimam". "Spiegel" falou com Mucchielli depois dos tumultos da última semana na França.

Der Spiegel - O presidente Nicolas Sarkozy caracterizou a violência recente no subúrbio de Villiers-le-Bel de Paris como "o predomínio dos baderneiros" e se recusa a atribuir a culpa a uma crise social. Ele está certo?
Laurent Mucchielli -
Não, esse é um grande erro. Além disso, é politicamente irresponsável tratar os conflitos constantemente como uma luta de poder. Esta é a linguagem da guerra. Mesmo durante as rebeliões de 2005, Sarkozy, na época ministro do Interior, se referiu aos tumultos como ataques criminosos e aos participantes como criminosos e escória, e rejeitou a idéia de que poderia haver motivos sociais.

DS - Mas nem toda escaramuça de rua com a polícia é automaticamente conseqüência de conflito social.
Mucchielli -
Correto, só quando ela se transforma em tumulto, como na semana passada. Desde que começou a inquietação urbana, os confrontos sempre assumiram mesmo padrão: os jovens dos subúrbios contra a polícia.

DS - Quais são as causas desses constantes problemas?
Mucchielli -
A violência que irrompe nos arredores das cidades francesas deriva do processo de desintegração e gradual "guetização". Moradores de outros bairros também experimentam injustiça e humilhação.

Eles sofrem provações diárias em quatro áreas: relacionamento com a polícia, o fato de que seus filhos vão mal na escola, o desemprego e sua posição social como imigrantes. "Somos tratados como cachorros", dizem os moradores dos subúrbios.

DS - Mas isso não é justificativa para o uso de coquetéis Molotov.
Mucchielli -
Muito poucos adultos aprovam o vandalismo quando, como aconteceu agora em Villiers-le-Bel, as escolas e bibliotecas de seus filhos são incendiadas, ou os carros de seus vizinhos. Eles consideram isso idiota.

Mas eles entendem que um incidente dramático pode ser o gatilho para liberar a raiva acumulada.

DS - O governo gastou 42 bilhões de euros nos últimos quatro anos em programas sociais de renovação urbana dos subúrbios, e também apoiou investimentos em áreas econômicas especiais.
Mucchielli -
Esses programas podem ser úteis em casos individuais, mas não impedem a maior guetização dos subúrbios.

DS - Por que não?
Mucchielli -
Veja a educação, por exemplo. Segundo nosso mito republicano, se tratarmos todas as crianças igualmente na escola elementar elas terão oportunidades iguais. Mas o problema é que os filhos dos imigrantes começam em um nível diferente, porque vêm de famílias em que o francês em muitos casos raramente é falado. Em conseqüência, ao tratar tipos de pessoas diferentes como iguais, estamos meramente reproduzindo suas desvantagens.

DS - É por isso que existem organizações financiadas pelo governo para ajudar as crianças, tutorando-as.
Mucchielli -
Mas uma política de desenvolvimento urbano de longo prazo deve eliminar as raízes do problema.

DS - O presidente Sarkozy não acaba de instituir um plano para revitalizar fundamentalmente os subúrbios?
Mucchielli -
Jogar dinheiro no problema não basta. A questão é para onde vai o dinheiro? Trinta planos de renovação urbana foram apresentados desde 1977. A renovação ou demolição das enormes caixas de concreto onde muitas pessoas vivem pode ser útil. Mas parques e ruas atraentes não podem eliminar o desemprego, as más oportunidades educacionais e o status de segunda classe dos filhos de imigrantes.

DS - Fadela Amara, secretária de Estado de Sarkozy para Política Urbana, que é de origem argelina, pretende apresentar seu plano em janeiro. Chama-se "Respeito e oportunidades iguais".
Mucchielli -
Isso não passa de demagogia, como as visitas encenadas de políticos aos subúrbios, onde eles discutem os problemas dos residentes tomando café com bolo. Os diagnósticos estão sobre a mesa há 20 anos. Em outubro de 2004 tivemos até uma "Autoridade Supervisora Nacional para as Zonas Urbanas Instáveis", que se mantém ocupada apresentando grossos relatórios. O que precisamos é um plano de ação abrangente, baseado nessas análises dos problemas envolvidos.

DS - A polícia foi acusada de fazer parte do problema nos subúrbios. O senhor aceita essa crítica?
Mucchielli -
As pessoas não estão incomodadas com a polícia por intervir, o que é legítimo, mas com seus métodos. No entanto, o governo se opõe, por motivos ideológicos, à introdução da "polícia de bairro" criada pelos socialistas. Não estou falando de policiais que jogam futebol com as crianças, mas de forças de segurança locais, cujo trabalho não se limita à pura repressão. Essa seria uma reforma há muito esperada.

DS - Como o senhor explica a nova escalada de violência? As armas de fogo estão começando a substituir as pedras como armas preferidas.
Mucchielli -
A polícia acredita que apenas uma ou duas armas foram usadas em Villiers-le-Bel. Mas é verdade que a violência da semana passada começou com grande brutalidade. Essa violência deriva da crença de que nada mudou desde 2005 e que para essas pessoas não há como escapar do beco sem saída de suas vidas.

DS - Sarkozy continua enfatizando uma abordagem dura. Essa não é uma receita para os próximos tumultos?
Mucchielli -
Certamente é, e eles poderão ser ainda mais violentos. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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