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11/12/2007

Kosovo é encenação de Missão Impossível nos Bálcãs - parte 3

Der Spiegel
Gerhard Spörl
Texto habilmente redigido
Enquanto isso, uma equipe do Ministério das Relações Exteriores em Berlim forneceu a Ischinger um esboço de acordo para Kosovo baseado no Tratado Básico da Alemanha, um documento de quatro páginas contendo 10 artigos. "Nenhuma parte terá direito de agir em prol ou em nome da outra parte em relações exteriores", dizia o Artigo 6. O Artigo 8, igualmente importante, descrevia "assuntos de interesse mútuo", variando de relações comerciais e problemas ambientais à caça a criminosos. Sem definir a independência de Kosovo, o esboço do tratado estipulava que a Sérvia e Kosovo se comportariam como Estados independentes. Era um texto habilmente redigido.

Wisner apresentou o esboço do tratado a Washington, onde foi endossado pelo governo Bush, que o tratou como uma co-produção alemã-americana, não um esforço solo de Berlim. Moscou também exibiu sinais de boa vontade. Apesar do trio não ter ilusões, os três repentinamente estavam satisfeitos consigo mesmos.

Quando Ischinger viajou para Moscou para promover sua proposta, ele esperava que o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, lhe concederia um encontro de cortesia e então entregaria a reunião aos cuidados de seus subalternos. Em vez disso, Lavrov passou uma hora e meia com Ischinger e quis discutir todos os detalhes das negociações. Ischinger apresentou sua idéia de usar o Tratado Básico alemão como modelo. Lavrov não pareceu impressionado, mas acrescentou que ao menos valia a pena tentar.

Dimitar Dilkoff/AFP 
Kosovar albanês é visto através da bandeira da Albânia durante protesto em Pristina, Kosovo

Bozan-Kharchenko, que participou do encontro, disse posteriormente que foi uma discussão fantástica, que nunca tinha recebido instruções tão claras de seu ministro. Ischinger ficou atônito. Aquelas eram instruções, ele pensou? Mas ao menos as coisas estavam progredindo. Talvez lentamente, mas ainda assim progredindo.

Os passos seguintes foram óbvios. O trio apresentou o esboço aos albaneses e sérvios em novembro, lhes dizendo que contava com o selo de aprovação da UE, dos Estados Unidos e da Rússia. Ischinger e Wisner quiseram explicar a filosofia do acordo, que se concentraria em assuntos práticos e deixaria as questões do status no ar. Os diplomatas chamaram isto de "concordar em discordar".

Foi neste ponto que as coisas ficaram interessantes.

A figura chave entre os sérvios era o primeiro-ministro Vojislav Kostunica, um homem esperto e um professor de Direito. Durante a época de Tito, ele foi demitido de seu emprego na universidade devido à sua falta de obediência. Ele escreveu sobre a Constituição americana e antes parecia inspirado pelo conceito dela de liberdade. Mas as intervenções da Otan e o bombardeio a Belgrado transformaram Kostunica de pró-americano em antiamericano. Hoje ele é um nacionalista, mas longe de um instigador de guerra como Slobodan Milosevic, que desencadeou as guerras nos Bálcãs nos anos 90 e morreu em Haia em 2006, onde estava sendo julgado por crimes de guerra.

Kostunica retornava constantemente à sangria da Sérvia, à perda da Eslovênia, Croácia, Montenegro e Bósnia-Herzegóvina. E agora Kosovo, ele perguntou? Os sérvios consideravam a província o berço de sua nação. Em 1389, os sérvios sofreram uma derrota histórica na batalha de Kosovo Polje ("Campo dos Melros"). Muitos de seus locais sagrados e mosteiros sérvios ortodoxos se encontram em Kosovo. Kostunica apresentou uma passagem escrita na Constituição do país definindo Kosovo como parte da Sérvia.
A QUESTÃO DE KOSOVO
Hazir Reka/Reuters
 
PARTE 1
PARTE 2


Os únicos com algum tipo de influência sobre Kostunica são os russos. Mas o ministro Lavrov não parecia contrário à idéia de um tratado que deixaria a questão do status não resolvida -pelo menos ele não contestou o conceito quando lhe foi apresentado. Bozan-Kharchenko interpretou a posição de Lavrov como uma clara indicação do caminho que ele deveria seguir. Mas então o comportamento do emissário russo mudou de forma repentina, aparentemente em resposta a uma nova diretriz de Moscou. O que aconteceu? Lavrov teria mudado de idéia? Teria ocorrido intervenção do Kremlin?

Esforços para impedir progresso
Daquele ponto em diante, Bozan-Kharchenko se tornou resistente e se recusou a discutir o tratado ou até mesmo apresentá-lo por escrito.

Sérvios e kosovares albaneses retornaram à mesa de negociação em 5 de novembro. Ischinger e Wisner não apresentaram e nem mencionaram o tratado. Se o tivessem feito, o trio teria se desfeito. Os sérvios e kosovares albaneses apresentaram propostas sobre o futuro status de Kosovo. Eles consideraram um modelo baseado no sistema de Hong Kong, no qual um kosovar albanês ficaria encarregado em Pristina, mas ainda estaria à mercê da Sérvia. Como esperado, os albaneses rejeitaram a idéia. E que tal uma confederação? Era uma alternativa que ia longe demais para os sérvios mas não o suficiente para os kosovares albaneses. Não estamos indo a lugar nenhum, notou Ischinger.

Poucos dias depois, Ischinger se encontrou em particular com Kostunica em Viena. Após o encontro, ele passou a ter certeza de que o primeiro-ministro nacionalista conservador não estava interessado nas reivindicações sentimentais dos locais históricos da Sérvia ou com os sérvios que ainda viviam em Kosovo. O que importava para Kostunica era a geografia -o tamanho de seu país.

Mas quais eram os interesses russos? O que queria o presidente Vladimir Putin? O principal interesse de Putin é ajudar seu país a despontar como uma potência mundial recém-fortalecida, apoiada por vastas reservas de petróleo e gás. Para ele, Kosovo é pouco mais do que uma passarela onde espera exibir aos europeus e, mais importante, ao presidente americano, os limites de seu poder. Em um discurso, o ministro Lavrov mencionou "duas linhas vermelhas" que o Ocidente não deve cruzar: o sistema antimísseis na República Tcheca e a Polônia, e a independência de Kosovo contra a vontade de Sérvia.

O trio se encontrou com as partes envolvidas no conflito novamente em 20 de novembro. Na reunião, Wisner e Ischinger tentaram determinar quão longe poderiam ir e o mediador americano explicou o tratado esboçado. Em segundos, Kostunica declarou arrogantemente que a Sérvia nunca aceitaria tal esforço dissimulado. Ele insistiu que assuntos práticos não poderiam ser tratados até a questão do status ser resolvida. Estava claro que, para Kostunica, o status vem antes da parceria, não o contrário.

Estava acabado.

Estado de alto alerta
Ischinger visitou todos os 27 países membros que representava para assegurar que esforço diplomático foi realizado para se chegar a um acordo entre sérvios e kosovares albaneses. Os americanos pensavam o mesmo, apesar de, como disse Wisner no início, considerarem novas negociações como um desperdício de tempo. A Rússia também cooperou, pelo menos por algum tempo.

O trio se encontrou com sérvios e kosovares albaneses uma última vez em 26 de novembro, no Castelo Weikersdorf, perto de Viena. Apesar do encontro não ter produzido resultados palpáveis, ele ajudou a relaxar as tensões entre os adversários. À noite, as delegações se reuniram para jantar em uma longa mesa no salão dos cavaleiros. O presidente sérvio, Boris Tadic, e o ministro das Relações Exteriores, Vuk Jeremic, se sentaram do outro lado da mesa em relação ao presidente de Kosovo, Sejdiu, e do primeiro-ministro Çeku, seu sucessor, Hashim Thaçi, e do elegante publisher, Surroi. Agora que não mais precisavam discutir uns com os outros, os homens conversaram sobre seus filhos e filhas, e sobre o que fizeram durante a época de Tito. De repente eles eram homens civilizados com preocupações civilizadas.

Apenas um homem estava ausente na mesa no salão dos cavaleiros. O primeiro-ministro Kostunica, que não quis participar de festividades, comeu sozinho em um restaurante, cercado por seus guarda-costas.

O trio já concluiu seu relatório final para o secretário-geral da ONU, que o Conselho de Segurança discutirá em 19 de dezembro. Mas o que acontecerá em Kosovo? Hashim Thaçi, o ex-líder guerrilheiro do UÇK que em breve será o primeiro-ministro, assegurou repetidas vezes ao Ocidente que Kosovo não se precipitará em declarar sua independência. Thaçi e o presidente sérvio, Tadic, supostamente conversam ocasionalmente por telefone. Mas será que algum deles está disposto a incitar turbulência entre seu povo?

A força multinacional em Kosovo está desde então em alto estado de alerta. George El Khouri Andolfato

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