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18/01/2008

Mulheres ao volante de carros de corrida enfrentam os mulás do Irã

Der Spiegel
Maik Grossekathöfer
Zohreh Vatankhah entra no elevador no quinto andar, desce ao térreo, se vira para a direita e passa por uma porta de aço pesada para chegar onde seu Toyota Corolla 2006 está estacionado. Mas não é um Toyota comum. É um caso amoroso metálico cor-de-rosa, completo com barra estabilizadora e assento anatômico. Ela prende o cinto de segurança, dá a partida e o motor ganha vida, fazendo o capô tremer como a tela de um alto-falante. Não exatamente o tipo de carro que passaria pela inspeção de trânsito nas ruas da maioria dos países ocidentais.

Então ela pisa fundo e seu carro cor-de-rosa sai da garagem com os pneus cantando. O zelador varrendo o pátio olha para ela, com o queixo caído. Vatankhah coloca o mais recente álbum de Christina Aguilera no toca-fitas e batuca o ritmo com os dedos no volante. Ele dirige para o mercado no centro de Teerã, cruza uma ponte e passa por pichações pedindo que "Destruam Israel" e por um cartaz de uma bandeira americana em chamas.

Cinco minutos depois Vatankhah está presa em um congestionamento -uma tortura para uma pessoa que ama tanto dirigir quanto ela. A velocidade é sua profissão. Vatankhah é uma piloto de automobilismo profissional. No Irã, entre todos os lugares -onde a profissão não é apenas dominada pelos homens, mas também praticamente de propriedade exclusiva deles.

Henghameh Fahimi/AFP - 28.jan.2005 
Laleh Seddigh no volante de um carro de corrida na pista de Azadi, em Teerã

Mirdamad Boulevard é normalmente uma rua de três faixas, mas às 14h ela se torna um estacionamento, com seis carros parados lado a lado no congestionamento. Nada se move em Teerã atualmente, incluindo elevados, túneis, ruas do centro e o cinturão rodoviário. É um engarrafamento total e Vatankhah está desesperada para sair da cidade, para que possa treinar nas montanhas. Ela tem 29 anos e usa óculos escuros Gucci e perfume Max Mara. Seu cabelo é castanho com mechas loiras e ela usa um batom ousado. Ela espera nada menos da vida que poder dirigir em velocidade vertiginosa.

Está anoitecendo quando ela passa com seu Toyota por uma poça em uma pista nos Montes Elburz. Hoje, ela está praticando curvas fechadas em alta velocidade. Sua co-piloto está em pé em um morro, com as mãos enfiadas nos bolsos de seu sobretudo vermelho e branco. Ela assiste com atenção, observando as manobras de sua amiga com olhar crítico. O Corolla escapa para a esquerda, Vatankhah puxa seu carro para a direita, lançando cascalho no ar, e então ela pisa nos freios e abaixa o vidro.

"Como fui?"

"A curva ainda está muito aberta."

Ela concorda, olha no espelho retrovisor e retoca o batom.

O Irã é um país no qual as mulheres são consideradas cidadãs de segunda classe desde o estabelecimento da República Islâmica em 1979. Em um tribunal, o depoimento de uma mulher vale apenas metade do depoimento de um homem, e os filhos herdam o dobro que as filhas. As mulheres não são autorizadas a cantar ou dançar em público, ou mesmo andar de bicicleta. Elas não podem viajar sem a permissão de um homem. Um homem pode proibir sua esposa de trabalhar e se pegá-la com outro homem, pode matá-la sem temer punição. Vestir lenço de cabeça é obrigatório, enquanto o chador, o véu de corpo inteiro, é preferido.

Vatankhah é a personificação do pecado para os fundamentalistas religiosos e mulás radicais do Irã, mas para a juventude urbana do país ela é uma visão. Ela reflete o tipo de país no qual os filhos de classe média e alta do Irã desejam viver: moderno e autoconfiante, cosmopolita e abraçando a vida.

No Irã, um país onde homens e mulheres se sentam em áreas separadas em ônibus, trens e metrôs, como uma mulher como Vatankhah conseguiu realizar este feito -competir contra homens em ralis? "Pergunte a Laleh", ela diz.

Marcar uma entrevista com Laleh Seddigh não é um feito fácil. Ela não responde a e-mails, às vezes não atende o telefone por dias e não retorna ligações.

Todavia, ela aparece exatamente às 11h, como combinado, no Hotel Esteklal, que ela sugeriu como local de encontro. Seddigh, 30 anos, é um ícone do feminismo e sem dúvida a atleta mais controversa do país. Quando ela passa pelo lobby, as conversas param por um instante. Ela é surpreendentemente baixinha. Sua pele parece artificialmente esticada, seu nariz quase perfeitamente reto demais e suas maçãs do rosto são incomumente salientes. Fora as mãos, o rosto é a única parte do corpo que as mulheres não são obrigadas a manter coberto, e passar por cirurgia plástica é uma forma de protesto silencioso. Ela usa um lenço de seda com padrão de pele de leopardo jogado livremente sobre a parte de trás de sua cabeça, um blusa de gola alta sob um casaco marrom e relógio Rolex. Ele estende a mão para cumprimentar, um tabu em um país onde as mulheres só são autorizadas a apertar as mãos de homens que são membros de sua família. Mas Seddigh não está interessada em tabus. Ela tem um aperto de mão forte.

Ela é uma pioneira no Irã, a primeira atleta a competir contra um homem nos 25 anos desde que o aiatolá Ruhollah Khomeini estabeleceu a teocracia. Foi em 2004, durante uma prova de longa distância em Teerã. "Eu quebrei um tabu. Tenho orgulho disso. Por que as mulheres iranianas devem ser fracas? Eu não sei", ela diz em inglês fluente. "Nosso Profeta Maomé nunca disse que as mulheres deveriam ser trancadas em casa e condenadas a cuidar das crianças enquanto o homem se diverte lá fora. Pelo contrário: ele queria que os homens encorajassem suas esposas e filhas a desenvolverem plenamente suas personalidades. Para ser um país bem-sucedido, nós precisamos de mulheres fortes."

Uma frase errada pode significar prisão ou chibatadas no Irã, mas Seddigh não teme falar o que pensa. Ela claramente gosta de romper os limites.

Ela é a mais velha de quatro filhos. Sua mãe, que estudou na Suíça, é dona de quatro empresas que produzem fornalhas e peças de motor. Seddigh dirige um Mercedes S 350 preto com bancos de couro e vive no distrito Niawaran de Teerã, onde o ar é melhor e o preço dos imóveis é astronômico.

Ela aprendeu a dirigir aos 13 anos, pegou secretamente o Buick de seu pai para uma volta aos 14 e destruiu seu primeiro carro aos 17, quando bateu em uma árvore e quebrou sua perna esquerda em quatro lugares. Sua pai a chamam de "Laleh Agha" ou "sr. Laleh".

Há quatro anos ela requisitou uma licença de pilotagem na Mafiri, a federação iraniana de automobilismo. Mohammed Khatami, um intelectual moderado, era o presidente do Irã na época. Os cafés de Internet surgiam na cidade, os reformistas no governo toleravam música pop ocidental e as mulheres ainda usavam lenços de cabeça coloridos.

Seddigh diz: "Eu expliquei ao conselho da Mafiri que a separação dos sexos não estava de acordo com as idéias do presidente, e que era hora de uma mudança. Eu lhes disse que entrariam para a história se me permitissem correr com homens. Os dirigentes são pessoas vaidosas".

Três meses depois, Zohreh Vatankhah pediu a licença para disputar ralis.

Seddigh e Vatankhah têm muito em comum. Elas até mesmo parecem irmãs. Ambas são de famílias ricas e realizaram juntas a peregrinação a Meca. Ambas ainda são solteiras em um país onde as garotas podem se casar já aos 13 anos. São mulheres fortes, mas sem serem duronas. Vatankhah estudou engenharia elétrica, enquanto Seddigh tem doutorado em engenharia industrial e leciona na universidade dois dias por semana. Mais de 60% de seus estudantes nas universidades iranianas são mulheres, mas o índice de desemprego entre as mulheres é ainda maior.

O autódromo em Teerã fica no Parque Asadi, vizinho ao campo de futebol. Os tubos de aço da arquibancada estão enferrujados, os bancos de madeira são sujos e a cobertura apresenta goteiras. Oito corridas de longa distância são realizadas aqui por ano, com nove categorias por corrida, sempre às sextas. Prêmio em dinheiro é dado às três primeiras categorias, com o vencedor levando para casa até 2.700 euros (US$ 3.900). Entre 15 e 22 pilotos competem em cada corrida, que consiste de 10 voltas na pista.

Dois carros pequenos estão percorrendo a pista em uma corrida informal. O cheiro de borracha queimada está no ar. Dois homens barbados vestindo blusa de moletom ficam de lado, fumando. Um deles, que é piloto mas prefere permanecer anônimo, diz: "Se Laleh e Zohreh querem tão desesperadamente operar uma máquina, eles devem se ater às máquinas de lavar". Então cospe no asfalto.

Durante um rali pelo deserto de Lut, no leste do Irã, Vatankhah estava liderando a primeira etapa quando alguém quebrou o pára-brisa de seu Toyota à noite. Na manhã seguinte, um bastão de madeira estava no assento do motorista como uma ameaça.

Seddigh ficou em terceiro lugar em sua primeira corrida. Sem causar surpresa, nenhum de seus concorrentes a parabenizou. Quando acenou para suas torcedoras, que subiram nas cercas, gritando, os dirigentes ordenaram que ela se comportasse apropriadamente. Ela teve que vestir um casaco preto sobre seu macacão durante a cerimônia de premiação.

Um ano depois, quando ela venceu o campeonato em sua categoria de motor (menos que 1.600 cc), não houve menção de sua vitória na mídia. Até hoje, as emissoras de televisão suspendem a cobertura ao vivo sempre que ela recebe um troféu. Os jornais publicam seu nome no dia seguinte, mas sem fotos.

Durante a penúltima corrida da temporada 2006, o locutor do estádio chamou Seddigh, ordenando que aparecesse no grid de largada, mas os guardas não deixaram que ela cruzasse o portão, citando ordens de cima. Ela foi posteriormente informada que o chefe da federação tinha decidido que ela nunca mais correria de novo.

Ele estava com medo do novo presidente, Mahmoud Ahmadinejad, um conservador extremista. "Eles queriam me impedir de conquistar o título de novo", diz Seddigh.

Ela se senta em uma poltrona amarela no lobby do hotel, rindo entre as sentenças, piscando seus cílios pintados. Seu café expresso está frio há algum tempo.

Então ela conta a história de como ela e seu pai foram ver um aiatolá em Teerã. Eles lhe pediram uma fatwa, e o clérigo atendeu e emitiu uma decisão religiosa declarando que não havia motivos religiosos para impedir as mulheres de competir em corridas contra os homens. A única condição era a de que o código de vestuário islâmico fosse cumprido.

Os pilotos vestem macacão à prova de fogo, luvas, capuz e capacete. Quando a corrida começa, nem mesmo seus olhos são visíveis atrás de suas viseiras. É impossível estarem mais cobertos. Isto explica por que as mulheres são autorizadas a correr.

Todavia, os fanáticos religiosos rotineiramente as retiram de circulação. Às vezes, elas se sentem como personagens em um teatro de marionetes, controladas por fios invisíveis.

Seddigh está no momento impedida de correr por supostamente ter quebrado as regras em sua última corrida. "Mas eu não fiz nada errado", ela insiste.

O escritório da federação nacional de automobilismo fica escondido no segundo andar de um prédio baixo de escritórios, com corredores escuros. O vice-presidente, um homem um tanto atarracado com muito gel no cabelo, se inclina sobre sua mesa. Hossein Shahriahi alega que Seddigh estava pilotando um carro não registrado.

"Como você soube?", pergunta o jornalista.

"Todos têm seus pequenos espiões."

Ele apresenta uma história improvável sobre um lacre violado no motor, números de série que foram mudados, mecânicos que repintaram o carro e uma câmera escondida que gravou a coisa toda.

O jornalista pergunta se ele pode mostrar as imagens.

"Não."

Por que não?

"Por que deve haver uma razão para tudo?"

O caso foi discutido com Laleh Seddigh?

"Não."

Por que não?

"Eu não gosto de suas perguntas."

Ele diz que a entrevista está encerrada e que seu tempo é, infelizmente, precioso. No dia seguinte o Basij, o grupo paramilitar que esteve nas linhas de frente da revolução, comemora seu aniversário. Milhares de homens e mulheres jovens marcham pelas ruas, olhando rigidamente à frente, carregando rifles de assalto e vestindo uniformes de camuflagem ou o chador.

Vatankhah comprou gasolina no mercado negro naquela manhã. Os iranianos só são autorizados a comprar legalmente três litros por dia -insuficientes para seu Corolla. Então ela levou o carro até uma oficina para troca de óleo.

Ela já competiu em 37 ralis e já subiu ao pódio 27 vezes. Ela é corredora profissional há 15 meses. Ela conta com um patrocinador corporativo que lhe paga 5 mil euros por ano. Ele pagou pelo Toyota e paga o custo de peças, reparos e viagem para as corridas. Quando precisa de mais dinheiro ela pede ao seu pai, que é dono de um negócio de mármore e granito. "Ele me ajuda, de forma que posso viver da forma como acho que devo viver. Ele não quer que eu tenha que me esconder."

Ela sonha em correr em outros países como Seddigh, que correu na Fórmula 3 na Itália, no Autódromo de Monza, e fez testes na Califórnia. Para correr no exterior, Vatankhah precisa passar por um exame especial em Dubai, ao custo de US$ 1 mil. Mas a federação iraniana rejeitou seu pedido -e enviou 11 homens ao Golfo Pérsico em seu lugar.

Agora ela está tentando organizar sua ida por conta própria para Dubai. Ela obteve o visto e perguntou ao comitê examinador em Dubai se seria autorizada a cursar a escola de pilotagem sem o apoio da federação de automobilismo. Ela aguarda por uma resposta.

Ela vai a uma festa naquela noite, vestindo uma calça marrom justa, botas de couro pretas e um top preto. Dentre os cerca de 40 convidados, mais da metade são mulheres. Nenhuma delas está usando lenço de cabeça.

Há dança e carícias. Uma mensagem de texto circula: "Por que Ahmadinejad reparte seu cabelo ao meio? Para que possa separar os piolhos machos dos piolhos fêmeas".

Vatankhah fuma Winstons sem parar e come salada de batata com pinhão. Ela bebe doses de vodca de garrafas contrabandeadas para o país. Há cinco garrafas de Smirnoff -a US$ 30 a garrafa no mercado negro. Ela não teme a polícia?

"Isso não é um problema. Se ela aparecer nós compraremos seu silêncio. Cada um de nós paga US$ 80 para que o problema desapareça."

Ela pega um táxi para casa às 2 horas da manhã. Ela está bêbada. Na manhã seguinte, ela planeja ir à academia depois do café da manhã, para entrar em forma para seu próximo rali, uma corrida de 350 quilômetros de Teerã até Sari. Mas primeiro ela checa seu e-mail.

Ela recebeu uma resposta de Dubai. Os dirigentes dizem que ela é bem-vinda e que nada a impede de prestar o exame. Eles acrescentam que aguardam ansiosamente para conhecê-la.

É apenas uma vitória parcial -mas importante. As mulheres são cidadãs de segunda classe no Irã, proibidas de cantar ou dançar em público, impedidas de viajar sem permissão. Automobilismo é outra coisa proibida para as mulheres iranianas, mas isso não impediu duas mulheres de encontrarem emancipação ao volante George El Khouri Andolfato

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