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03/02/2008

O mito do Führer: como Hitler conquistou o povo alemão - parte 3

Der Spiegel
Ian Kershaw
Aumento do apoio
Em vez de condenação por sua autorização de um assassinato em massa, ele colheu enorme aprovação ao parecer ter agido impiedosamente para erradicar os males e delitos que colocavam a nação em risco. "Por meio de suas ações enérgicas, o führer conquistou as massas, particularmente aqueles que ainda hesitavam diante do movimento; ele não é apenas admirado, ele é idolatrado", foi o veredicto de um relatório confidencial de dentro dos escalões inferiores da burocracia do regime. Muitos outros relatórios repetiam os mesmos sentimentos. Relatórios descartados pelos círculos da oposição social-democrata -cujo principal propósito era, naturalmente, criticar o regime- reconheciam o aumento do apoio a Hitler.

Segundo um relatório da Baviera: "Em geral, infelizmente, ficou claro que as pessoas não pensam politicamente. Elas pensam: 'Agora que Hitler impôs ordem, agora as coisas avançarão- os sabotadores que buscavam atrapalhar seu trabalho foram destruídos'". Um relatório de Berlim acrescentou: "A autoridade de Hitler está fortalecida em círculos mais amplos. Cada vez mais se ouve as pessoas dizendo: 'Hitler está atuando de forma rígida'".

A visão de que Hitler trouxe ordem para a Alemanha é uma que persistiu até muito depois da guerra. Que, apesar dos "erros" (supostamente aqueles que arruinaram seu país com a guerra, assim como morte e destruição para milhões), ele "limpou" a Alemanha, colocando fim à desordem, extirpando a criminalidade, tornando as ruas seguras para novamente se caminhar à noite e melhorando os valores morais, que juntamente com o crédito pela erradicação do desemprego em massa e construção das auto-estradas, foram elementos duradouros do Mito do Führer.

Reuters 
Líder nazista Adolf Hitler (centro) ao lado de Heinrich Himmler, chefe da Gestapo

Ao lado da recuperação econômica, a reconstrução do poderio militar e a restauração da "ordem", Hitler conquistou apoio ao personificar os valores "positivos" investidos na unidade nacional e na "Volksgemeinschaft", ou comunidade nacional. A propaganda o retratava incessantemente como um paterfamilias rígido mas compreensivo, preparado para sacrificar satisfações humanas normais e trabalhar dia e noite visando o bem de seu povo. Independente das críticas freqüentes aos seus subalternos e a imagem negativa dos "pequenos Hitlers" -os funcionários do partido que as pessoas encontravam diariamente e freqüentemente deixavam a desejar- o próprio Hitler era amplamente visto como distante de interesses menores e preocupações materiais, com sua abnegação contrastando da ganância e corrupção dos altos funcionários do partido.

O encantamento ritual publicado anualmente por Goebbels ao "nosso Hitler", em seu aniversário, e os populares livros de fotos publicados em massa por Heinrich Hoffmann (cada um vendendo quantidades imensas), que aparentemente revelavam o Hitler "privado" -"O Hitler que Ninguém Conhece" (1932), "Jovens em Volta de Hitler" (1934), "Hitler em suas Montanhas" (1935) e "Hitler em Descanso" (1937)- tudo visava acentuar o lado "humano" do führer e mostrar que suas qualidade "heróicas" derivavam do fato de ser um "homem do povo".

Quantos engoliram plenamente o culto nauseante da personalidade nunca poderá ser estabelecido, é claro. Obviamente não foram poucos. Cartas fervorosas, poemas sem rima e outros elogios, fotos e presentes -incluindo em uma ocasião a oferta de um saco de batatas que aparentemente o führer gostou- chegavam em grande quantidade e eram selecionadas pelos assistentes de Hitler. Nos primeiros anos do Terceiro Reich houve um aumento do número de pais batizando seus filhos recém-nascidos de Adolf, apesar de um decreto de 1933 ter instruído os cartórios locais a desencorajaram a prática e protegerem o nome do führer. Tais efusões de culto ao führer estavam sem dúvida confinadas principalmente à minoria fanática, nazificada. Mas mesmo aqueles capazes de manter os excessos do culto à personalidade à distância, ainda assim aceitavam pelo menos algumas partes da imagem positiva de Hitler.

A comunidade nacional obteve sua própria definição por aqueles que foram excluídas dela. A discriminação racial era, portanto, inevitavelmente uma parte inerente da interpretação nazista do conceito. Como as medidas visando a criação da "pureza racial", como a perseguição a homossexuais, ciganos e "anti-sociais", exploravam o preconceito existente e visavam fortalecer uma nação etnicamente homogênea, elas reforçaram a imagem de Hitler de personificação da comunidade nacional. A denúncia impiedosa dos supostos inimigos poderosos da nação -o bolchevismo, a "plutocracia" ocidental e mais proeminentemente os judeus (associados pela propaganda a ambos)- reforçaram ainda mais o apelo de Hitler como defensor da nação e amurada contra as ameaças à sua sobrevivência, sejam externas ou internas.

Apesar da paranóia anti-semita de Hitler não ser compartilhada pela maioria da população, ela claramente não pesava muito na balança de aspectos negativos para compensar os atributos positivos que a maioria via nele. A altamente predominante antipatia latente aos judeus, mesmo antes da propaganda nazista reforçar as mensagens de ódio, não oferecia barreira ao ódio "dinâmico" presente em uma minoria considerável -apesar de após 1933 ser uma minoria detendo o poder. Muita pesquisa ilustrou a diversidade das posturas em relação à perseguição aos judeus (mas visíveis nas várias reações à promulgação das Leis de Nuremberg em setembro de 1935 e à "Kristallnacht" em novembro de 1938). Todavia, os nazistas parecem ter sido bem-sucedidos em estabelecer, diante dos olhos da maioria, a existência de uma "Questão Judia" e ao aprofundar o sentimento anti-semita na época em que crescia a ameaça externa de uma guerra iminente.

Uma consideração irrelevante
Quando a violência aberta da Kristallnacht provou ser impopular, mesmo dentro dos círculos nazistas, Hitler buscou se distanciar publicamente da perseguição que ele próprio autorizou. Mas apesar da grande desaprovação aos métodos, havia naquele momento uma sensação geral de que não havia mais lugar para os judeus na Alemanha, e a associação por Hitler dos judeus ao crescente risco internacional (que ele fomentou mais do que qualquer outro) fortaleceu -ou no mínimo não enfraqueceu- sua imagem como defensor fanático dos interesses de seu país.

Materialmente, muitos se beneficiaram com a exclusão dos judeus da sociedade alemã, da expropriação econômica, da expulsão deles. O "movimento de boicote" que teve início assim que Hitler se tornou chanceler do Reich e, em ondas, removeu os judeus da vida comercial, levando no final ao programa de "arianização" de 1938, que roubou dos judeus as suas posses, contribuiu para o lucro de um grande número de alemães. Aqui, também, muitos sentiam motivos para serem gratos a Hitler. O custo humano, pago por uma minoria impopular, era para eles uma consideração irrelevante.

A série aparentemente sem fim de sucessos que Hitler podia reivindicar durante os anos de "paz" do Terceiro Reich tinha um subproduto que os reforçava ainda mais. Após 1933, as afiliações ao Partido Nazista espalharam seus tentáculos para quase todos os setores da sociedade. Milhões de alemães foram "organizados" pelo movimento nazista de um modo ou outro, e a cada afiliação se tornava mais difícil escapar do abraço apertado do culto ao führer. Exércitos de burocratas insignificantes e carreiristas deviam sua posição e promoção ao "sistema" liderado por Hitler. A ênfase em "liderança" e "realização" estimulava uma concorrência impiedosa, que explorava a ambição cotidiana e abria uma série de possibilidades, canalizando uma vasta energia ao amplo empreendimento de promover a visão de renovação nacional personificada pelo próprio Hitler. Literal e metaforicamente, muitos indivíduos em todas as esferas do regime operavam segundo as diretrizes estabelecidas por Werner Willikens, o secretário de Estado no Ministério da Agricultura prussiano, em fevereiro de 1934, quando declarou:

"Todos aqueles que têm oportunidade para observar sabem que o führer dificilmente pode ditar do alto tudo o que pretende realizar. Pelo contrário, até agora todos com um posto na nova Alemanha trabalharam melhor quando puderam, por assim dizer, cooperar com o führer".

Willikens acrescentou que era "dever de todos tentar cooperar com o führer" -uma chave sobre como funcionava o Terceiro Reich, e um elo importante entre o "führer" e a sociedade. George El Khouri Andolfato

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