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05/02/2008

Culturas aprendem a conviver no caldeirão árabe de Dubai

Der Spiegel
Bernhard Zand
Em Dubai
Minha amiga Puneh de Teerã adorou, mas Nazir não suportou. Puneh morava em uma casa completa em Dubai, com arbustos de lilás e aspens europeus no quintal da frente, jardineiros que mantinham a grama cortada e vizinhos da Europa, Oriente Médio e EUA, que andavam de Volvo, Porsche e Jeep.

"Tantas pessoas interessantes", disse Puneh, marchand de arte. "Eu me senti livre, como pessoa, mulher e como indivíduo."

"Essa pompa, essa perfeição manufaturada, não há nada real nessa cidade", disse seu amigo Nazir, artista. "Mal podia respirar mais. Eu não conseguia pintar um único quadro lá."

Paulo Daniel Farah/Folha Imagem - 15.abr.2001 
Vista geral da cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos

Nazir durou oito dias em Dubai, precisamente a duração de sua primeira mostra, antes de voar de volta para Teerã. Depois disso, ele passou longas horas falando com Puneh no telefone, implorando para que voltasse para casa. Ela fez isso -e se arrependeu. Deixou uma vida na cidade mais moderna, veloz, vibrante e superficial do Oriente Médio.

Quando fui para o Irã visitar os dois e voltei a Dubai com uma alta febre, fiquei surpreso de ser recebido por enfermeiras filipinas, que imediatamente levaram-me à clínica do aeroporto. Um médico sírio insistiu que eu passasse a noite lá enquanto recebia infusões e ele esperou os resultados de meus exames de sangue. Quando deixei a clínica, a recepcionista indiana não podia compreender por que eu estava pedindo a conta. "A conta? Qual conta? O Emirado de Dubai está pagando por seu tratamento."

Um sistema de segurança impermeável
Como a maior parte das pessoas que moram aqui, eu comprei um "E-card", que me permite fugir ao controle de passaporte no aeroporto, onde eu simplesmente coloco meu indicador em um sensor, uma porta se abre, e eu atravesso. Antes de buscar alguém no aeroporto, entro na Internet, digito o número do vôo e meu telefone celular -e recebo uma mensagem de texto a cada meia hora sobre a situação do vôo.

As contas de água e luz, a hora marcada com o dentista, o pedágio -tudo chega a mim por telefone celular. Quando há um acidente, a polícia escreve os números dos celulares antes de registrar as placas dos veículos. Os telefones celulares servem de carteira de identidade universal em Dubai.

Os inventores desse sistema relativamente impermeável referem-se a ele como "segurança passiva". É discreto, ao menos até levantar suspeitas das autoridades locais. "Apesar de sua mulher ter um passaporte alemão", disse uma autoridade da agência que lida com os estrangeiros, "seu nome não parece ser alemão. Por favor, suba as escadas. O coronel Ahmed o espera".

Antes de ter permissão para pegar seus pertences, uma colega jornalista que costumava trabalhar em Jerusalém foi perguntada sua opinião sobre a guerra do Iraque.

Funcionários treinados em examinar documentos trabalham na área de trânsito do aeroporto, buscando pessoas suspeitas. Há presos em Dubai encontrados com 0,02 gramas de maconha em seus bolsos.

Um estranho equilíbrio
Dubai não é uma cidade onde eu me sinta monitorado ou observado e não tem as rotinas chatas de lugares como Cairo, Beirute ou Amã, com seus detectores de metal nas entradas de prédios púbicos ou patrulhas armadas em shoppings. Por outro lado, qualquer sugestão de nudez no "Spiegel" à venda nas bancas é coberta por tarja preta e quem quiser ler o tablóide alemão "Bild" on-line é recebido com a mensagem: "O conteúdo do site é incompatível com os valores políticos e morais dos Emirados Árabes Unidos." Paradoxalmente, as cópias do "Bild" estão à venda nos supermercados de Dubai pelo equivalente a US$ 4 (cerca de R$ 8).

A cidade é um lugar excitante para um correspondente do Oriente Médio. Em nenhum lugar na região há tantos norte-africanos, sírios, libaneses, iraquianos e sauditas jovens, ambiciosos e bem educados que deram suas costas aos seus países repressivos. Dubai é uma aldeia global; mais ainda, é uma aldeia árabe.

Os jornalistas que trabalham para a mídia internacional não enfrentam restrições, exceto quando querem informar sobre a questão delicada dos trabalhadores convidados negligenciados do país. Dubai é um local prático, comparado ao Cairo e Beirute, postos tradicionais para correspondentes do Oriente Médio que não moram em Israel. A cidade tem vôos diretos para lugares como Casablanca e Cabul e poucas chances de ser afligida por uma guerra civil tão cedo.

Um estranho equilíbrio cultural se desenvolveu nesta cidade de 150 nações.

Durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã, comer, beber e fumar em público são estritamente proibidos, e inocentes transgressores europeus são delicadamente repreendidos. Por outro lado, os supermercados vendem porco, e qualquer um interessado em vinho e uísque pode beber a vontade nos hotéis internacionais.

Educados e superficiais
Na minha rua há uma mesquita administrada por egípcios à direita da minha casa, assim como uma loja de conveniência palestina, um florista indiano e duas mansões de nativos ricos. Do lado esquerdo, há oito casas em torno de um jardim, compartilhadas por inquilinos do Irã, Alemanha, Egito, Líbano, França, Congo, Hungria e África do Sul. Nas sextas-feiras, a rua fica cercada de limusines de árabes ricos e das bicicletas de trabalhadores paquistaneses, homens que trouxeram seus filhos para orar na mesquita A língua franca é o inglês, as pessoas são cívilizadas e até os iemenitas obedecem as regras de trânsito, que são tão estritas quanto na Europa.

"No final, os conflitos culturais são em geral resolvidos com o senso
comum: evitar provocação e enfatizar a igualdade", diz Abd Al-Aziz Al-Ali, diretor de recursos humanos da empresa aérea estatal, Emirates. Ele deveria saber. Sua empresa emprega pessoas de 120 países diferentes. De acordo com Al-Ali, houve apenas 12 casos disciplinares desde que a Emirates foi fundada em 1985.

A saudação padrão nos shoppings e hotéis é "olá, senhor", ou "olá, madame" -evidência da influência da Ásia, onde Dubai, uma cidade orientada para os serviços, recruta seu pessoal. O tom em Dubai é educado e, como a cidade como um todo, relativamente superficial. Mas quem se dá ao trabalho de cavar mais fundo entende que o choque cultural é mais pronunciado aqui do que em quase qualquer lugar do mundo. Toda nacionalidade e grupo étnico representado aqui tem sua fama. Há as piadas sobre as mulheres libanesas e seus cirurgiões plásticos, iranianos arrogantes, britânicos bêbados e indianos difíceis -e os alemães, que supostamente discutem toda tarifa de táxi.

Por mais que Dubai ofereça visões das peculariedades de diferentes culturas, preconceitos banais têm pouca chance de sobreviver aqui, onde o oposto está sempre na próxima esquina. Dubai é uma cidade de superlativos, que alega ter o maior prédio do mundo, o maior aeroporto e o hotel mais caro. Bernhard Zand, do "Spiegel", foi o primeiro correspondente alemão em Dubai. Depois de morar lá um ano, ele concluiu que a cidade de 150 nações também é uma aldeia árabe Deborah Weinberg

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