UOL Notícias Internacional
 

07/03/2008

Cooperação pode estender a Europa até o mar Cáspio

Der Spiegel
Hans-Jürgen Schlamp
O homem alto de cabelos negros faz careta para a mulher loura sentada à sua frente na grande mesa de conferências. Ela o estava acusando de não respeitar os direitos humanos, dizendo que as próximas eleições devem ser mais justas do que as últimas e advertindo que a liberdade de imprensa deve finalmente ser ampla. No final de seu monólogo, foi um pouco mais conciliadora e admitiu que o país fez algum progresso -"mas as coisas poderiam ir mais rápido".

Elmar Mammadyarov lutou para controlar sua raiva crescente. Ele é ministro de relações exteriores da ex-república soviética do Azerbaijão, uma terra rica em petróleo e gás, ao longo do mar Cáspio, ao norte do Irã. Normalmente, ninguém tem permissão para falar com ele desta forma, exceto talvez seu patrão, o presidente. Entretanto, Mammadyarov fez um esforço, porque a mulher sentada a sua frente é incrivelmente importante para o Azerbaijão.

A convidada é Benita Ferrero-Waldner, da Áustria. Ela é a comissária européia de relações exteriores, tem 59 anos, e é responsável pela política de vizinhança européia. Ela visita com regularidade países que fazem fronteira com a UE, desde o Marrocos e Egito até a Jordânia e Israel ou a Ucrânia, para Armênia, Geórgia e Azerbaijão. Freqüentemente, ele pede maior democracia e promete, em troca, "estabilidade, segurança e prosperidade".

A UE já doou mais de 8 bilhões de euros (cerca de R$ 24 bilhões) para 12 países em suas fronteiras e planeja doar outros 12 bilhões de euros (aproximadamente R$ 36 bilhões) nos próximos seis anos. O resultado desse investimento, espera Ferrero-Waldner, será uma região relativamente próspera e politicamente estável. A esperança é que este "círculo de amigos", como ela chama o plano, mantenha os terroristas e imigrantes não desejados à distância.

O plano cor-de-rosa, contudo, tem um porém: a maior parte desses vizinhos não está apenas interessada em estabilidade prosperidade, mas também nutrem o desejo de eventualmente se tornarem membros da UE. Os países no limite Leste do continente europeu foram os que mais criaram esperanças - e não sem justificativas. A Polônia, o Reino Unido e os Estados bálticos gostariam de estender as fronteiras da UE até o mar Cáspio. A região está esperando na linha de expansão da UE, logo atrás dos Bálcãs - mas ninguém deve falar sobre isso ainda. "Não, não", nega a comissária austríaca, "as perspectivas de associação" não fazem parte de seu plano. A amizade com os vizinhos pode se estender ao apoio substancial, mas não além disso. "É uma linha fina e difícil de trilhar", disse ela.

Talvez isso seja verdade. Mas quanto maior se torna a cooperação da União Européia com seus vizinhos, mais pertinente torna-se a antiga questão que aflige o grupo de 27 membros desde sua criação: onde de fato termina a Europa? E a Geórgia faz parte da Europa? E o Marrocos? Israel? E depois, é claro, a Ucrânia?

Ferrero-Waldner e sua equipe desenvolveram um "plano de ação" distinto para cada um dos doze participantes da política para a vizinhança européia. A Europa ajuda oferecendo conhecimento e patrocínio em áreas como transporte, treinamento profissional, fornecimento de energia, treinamento de agentes alfandegários, policiais ou juízes, e dá aos pobres alimentos e roupas - e os próprios países podem escolher qual deve ser o foco da assistência. Além disso, há também certas aulas de democracia e do Estado constitucional - como, por exemplo, com Elmar Mammadyarov em Baku, capital do Azerbaijão.

Ferrero-Waldner continua a lição obrigatória durante o jantar: quando serão soltos os três jornalistas que foram presos sem razão? Por que o governo está fazendo tão pouco para melhorar seu relacionamento com Moscou? Bem, responde o nervoso Mammadyarov, os jornalistas primeiro precisam entrar com uma petição para sua liberação, que então será analisada por um juiz. E ele gostaria de desenvolver relações melhores com a Rússia, mas o Azerbaijão não vai abaixar a cabeça. Seu país, afinal, tornou-se "uma força de tamanho médio de bom desempenho na região".

As mudanças dos últimos anos são evidentes durante a hora do rush em Baku. Os engarrafamentos vão até aonde a vista pode alcançar, com caminhões velhos enferrujados da era soviética colados em veículos esportivos brilhando. Em 2007, o crescimento econômico foi em torno de 25%, graças ao petróleo e gás que jorram da terra. A diferença entre ricos e pobres aumentou consideravelmente, e os mendigos pedem esmolas na frente de lojas de Armani e Escada.

Um documento interno da UE sobre o Azerbaijão observa esse progresso econômico. Mesmo assim, no que diz respeito à democracia, liberdade de imprensa ou direitos humanos, a mensagem oficial é de "persistentes dificuldades". Isso também é verdade para os vizinhos do Azerbaijão, Geórgia e Armênia -e Ferrero-Waldner não hesita em expressar suas preocupações nesses lugares tampouco.

Além disso, os nervos fortes que freqüentemente a ridicularizam em casa lhe servem bem. No Cáucaso, ela freqüentemente enfrenta nacionalistas radicais. O que a porta-voz de uma organização de direitos humanos - financiada pela UE- diz da Armênia, aplica-se à Geórgia também: "Há uma liderança política extremamente corrupta, nenhum sistema judicial livre, não há imprensa livre, e as eleições não são mais livres do que eram na União Soviética."

Mas essas são apenas as "histórias de horror", diz o primeiro-ministro da Geórgia, Vladimir Gurgenidze. Ele fala inglês com sotaque americano e recebe as pessoas com "Olá para todos!" É claro que há melhorias a serem feitas, diz ele - e é por isso que seu país precisa da ajuda de Bruxelas. "A Europa está em nossos corações e em nossas mentes", diz Gurgenidze. "Queremos comércio livre, facilitação de vistos e ingresso na UE."

A Geórgia entrará para a Otan em breve, diz Gurgenidze, no mais tardar quando houver um democrata na Casa Branca. E já há soldados da Geórgia no Iraque e no Afeganistão. "Os americanos reconhecem isso", acrescenta Gurgenidze orgulhosamente, olhando para Ferrero-Waldner, sua convidada européia: "É bom ter amigos". Onde termina a Europa? A política de boa vizinhança da UE busca assegurar prosperidade e estabilidade nos países que fazem fronteira com o clube de 27 membros. O problema é que os vizinhos também gostariam de entrar Deborah Weinberg

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