UOL Notícias Internacional
 

25/03/2008

Escravos do ouro de Moçambique

Der Spiegel
Thilo Thielke
Em Manica, Moçambique
A noite traz temperaturas mais frescas, bem-vindas no sopé das montanhas de Chimanimani, no oeste de Moçambique. Entretanto, traz também o mosquito Anopheles, transmissor da malária, dos brejos próximos.

Os mosquitos vêm em nuvens grossas. Os jovens rapazes mineradores usam o fogo em uma tentativa vã de se protegerem contra os insetos mortíferos. Quando sua lenha está úmida demais, eles queimam plástico e logo as fogueiras ardem pelos campos, enchendo-os de fumaça irritante.

As montanhas verdes e suaves que cercam Manica, capital da província, foram transformadas em campos esquálidos. Pequenos assentamentos surgiram ao longo do rio Revue, coleções de barracos feitos de lonas, metal corrugado e bambu. Muitas pessoas, entretanto, simplesmente dormem sobre a terra, enroladas em trapos e cobertas por cobertores furados por traças. Sua dieta consiste de raízes, grama e insetos.

Durante o dia, eles engatinham pela terra argilosa, cavando com as mãos. Alguns têm pás e picaretas. Muitos começam a trabalhar às 4h da manhã. Alguns simplesmente perdem a cabeça aqui, outros perdem suas vidas.

Última esperança
Milhares de pessoas desesperadas vêm à região em busca de fortuna, e seus números incham a cada dia. Elas cruzam as montanhas do vizinho Zimbábue. Elas ouvem dizer que há um tesouro escondido no solo lamacento: ouro. A palavra "Chimanimani" tornou-se sinônimo de última esperança de ficar rico.

Alec Pot limpa o suor de sua testa. Ele está com malária, tem pouco mais do que pele e osso e treme de febre. Ele usou o resto do seu dinheiro para comprar remédios. Agora, ele se encolhe debaixo de uma mangueira, embrulhado em seu cobertor. Pot veio do Zimbábue há um mês com três amigos. Em casa, eles tinham ouvido falar que havia ouro -muito ouro- nas montanhas moçambicanas. Estranhos contaram histórias fantásticas sobre pepitas do tamanho de punhos. Os homens também tinham ouvido falar que os moçambicanos eram hospitaleiros.

Há poucas semanas, Moçambique até suspendeu a exigência de visto para os zimbabuanos. O governo alegou que esta era a forma de o país agradecer ao vizinho Zimbábue, que abrigou os refugiados moçambicanos nos anos 80. A razão mais provável, entretanto, é que Moçambique ainda está se recuperando das conseqüências de uma longa guerra civil que terminou em 1992 e não tinha outra forma de lidar com a entrada de zimbabuanos.

Zimbábue está desmoronando em velocidade recorde. O desemprego está acima de 80%, e a inflação está perto de 70.000%. Mais de 3 milhões de zimbabuanos fugiram do país; 2 milhões foram se refugiar na África do Sul. A maior parte dos fazendeiros brancos foi expulsa de Zimbábue, e suas plantações agora estão apodrecendo nos campos. Muitos estão passando fome. O Estado falido está isolado internacionalmente.

O governante do Zimbábue não parece se importar com esse declínio. O ditador obstinado, Robert Mugabe, recorre à força brutal para se manter no poder e suprimir a oposição. Pius Ncube, ex-arcebispo de Bulawayo e proeminente crítico do regime, recentemente apelou aos britânicos para que interviessem e derrubassem o tirano. Enquanto Mugabe estiver no poder, o êxodo de zimbabuanos continuará.

Alec Pot, 34, é um desses que não via mais futuro em Zimbábue, ex-Rodésia, que foi celeiro do Sul da África. Ele trabalhou durante anos na construção civil em sua cidade natal de Murehwa. Contudo, ninguém mais está construindo em Zimbábue. Pot tem mulher e dois filhos pequenos. Desde que seu pai morreu de Aids, há quatro anos, ele teve que cuidar da mãe e de sete irmãos. Desempregado, tinha que sustentar doze outras pessoas.

"Trabalho escravo"
Em algum ponto, quando ele entendeu que não havia outra forma de sair de sua situação, lembrou-se das histórias que tinha ouvido, de um eldorado do outro lado da fronteira, em Moçambique. Ele empacotou alguns pertences -uma pá enferrujada, um cobertor velho e um balde- e partiu para as montanhas.

Encontrar os campos de ouro foi fácil. Mais de 20.000 caçadores de fortunas já estão escavando a terra vermelha de Moçambique. Três quartos deles vêm do outro lado da fronteira.

Entretanto, em vez das riquezas esperadas, Pot encontrou uma situação que ele mesmo descreve como "trabalho escravo". Com seus três amigos, trabalha sem parar quase 24 horas por dia, cavando com as mãos nuas, pás enferrujadas e picaretas primitivas.

Haviam dito que o ouro estava a oito metros de profundidade, mas até agora isso não produziu nem pó de ouro.

Precisamos cavar mais fundo, os homens dizem a si mesmos, enquanto continuam se enfiando na terra. Voltar para casa seria o mesmo que capitular. Além disso, dizem eles, tudo o que precisam é de um pouco de sorte e estarão com a vida resolvida! Eles planejam voltar para casa para suas famílias no minuto em que fizerem sua primeira descoberta, ou assim dizem.

Há uma longa tradição de mineração em Moçambique. A indústria da mineração de ouro vem desde os dias que os colonizadores portugueses chegaram. A vizinha África do Sul ficou rica com o metal precioso. Grandes empresas internacionais de mineração exploraram os depósitos de ouro de Moçambique pelo tempo que os portugueses tiveram no poder. No entanto, quando saíram do país em 1975, deixaram um caos.

Inicialmente, Moçambique tornou-se socialista e depois caiu em uma guerra civil que se arrastou por 16 anos -com um estímulo da África do Sul do tempo do apartheid. A produção de ouro praticamente parou durante esse período. Quando a paz retornou ao país, também voltaram os caçadores de fortunas. Agora que o preço do ouro está nas alturas, um frenesi ocupou a região em torno do Rio Revue.

Apesar deste caos aparente, há um controle cuidadoso nas montanhas. A terra pertence aos moçambicanos que, até recentemente, plantavam bananas, milho e manga e que assinaram contratos de aluguel de longo prazo com o governo. Desde que a corrida pelo ouro começou, os proprietários da terra vêm subdividindo suas terras em lotes. Quem aluga o lote pode cavar o quanto quiser, mas tem que entregar uma parte do ouro encontrado para os proprietários da terra.

Lei da selva
A desordem e a violência prevalecem ao longo do rio Revue. Quem cria confusão é expulso. Algumas vezes policiais ou soldados revistam os campos, batem nos habitantes e exigem sua parte.

O parceiro de Alec Pot Wisdon Muchehuwa está dobrado de dor. Recentemente foi apanhado durante uma dessas batidas. Seus agressores gritaram que ele trouxe má sorte e que tinha que voltar para o Zimbábue, senão iam matá-lo.

A caça ao ouro é, evidentemente, ilegal. Em teoria, o metal precioso pertence ao governo moçambicano. Aparentemente, a polícia e os militares são incapazes de controlar a corrida pelo ouro. "Não podemos parar a mineração à força", diz resignadamente o governador da província de Manica, Raimundo Diomba. "Afinal, essas pessoas não têm outra fonte de renda e têm que alimentar suas famílias."

Para complicar as coisas, os membros da tribo Shona vivem dos dois lados da fronteira. Eles falam a mesma língua e compartilham os mesmos laços familiares. Só o que os separa é uma fronteira riscada arbitrariamente por poderes coloniais.

Um comércio ativo desenvolveu-se em torno dos campos de mineração. Os mineradores vendem tudo o que encontram para intermediários moçambicanos por US$ 20 (em torno de R$ 40) por grama. Os intermediários, por sua vez, conseguem US$ 27 (cerca de R$ 54) em Manica, a apenas 15 quilômetros de distância. Os compradores em Manica são libaneses, israelenses e europeus -indivíduos taciturnos que vagueiam pelos bares de hotéis mal iluminados, onde fazem seus negócios.

Eles exportam o ouro ainda sujo para outros países, uma prática que também é ilegal. Eventualmente, o metal acaba nos maiores mercados em Londres, Nova York e Zurique: brilhoso, refinado e caro.

"Os negócios estão indo muito bem porque o preço do ouro está tão alto", diz Armando Mouzinho, intermediário. Mouzinho tem maços de notas presos à cintura.

Quando os preços do ouro sobem em Londres, os negócios prosperam no sopé das montanhas de Chimanimani.

Prostitutas e gim
Sylvia Madzikanda, comerciante que veio de Zimbábue há três semanas, também se beneficia do alto preço do ouro. Ela faz o vai e vem entre Manica e os campos de mineração vendendo pão e milho. Ela também tem um comércio ativo de um destilado vagabundo chamado "Buffalo Dry Gin" e de cerveja moçambicana.

Prostitutas são trazidas de Zimbábue em caminhões às quintas-feiras, porque é proibido escavar na sexta-feira. Sylvia Madzikanda também ganha bem nesses dias.

É um mundo fechado em si, com suas próprias leis, ignorado ao máximo pelo Estado. As autoridades moçambicanas, entretanto, têm cada vez mais reservas em relação à mineração ilegal. A terra escavada assoreia os rios, e a água potável já está se tornando escassa na região.

O cenário nu e esburacado que se desenvolveu nas montanhas de Chimanimani também causa problemas. Os mineradores algumas vezes cavam buracos de 10 a 20 m de profundidade, conectados por um elaborado sistema de túneis. Quando uma mina já foi explorada, é simplesmente abandonada. Isso leva a deslizamentos recorrentes durante a temporada de chuvas, algumas vezes enterrando os mineradores. Outros congelam até a morte nas montanhas, onde as temperaturas podem cair até abaixo de zero durante a noite.

Além dessas dificuldades, a violência ataca quase toda noite nos campos dos desesperados. Um campo ficou tão conhecido pela regularidade de suas brigas sangrentas que adquiriu o apelido sinistro de "Burundi". Ninguém sabe quantas vidas essa loucura já tomou, mas o total atinge as dezenas.

Algumas migalhas de pó de ouro
Foi mais um dia de azar para Alec Pot e seus três amigos. Eles olham com inveja para a escavação vizinha, onde alguns homens cobertos de lama regozijam-se com um punhado de pó de ouro. Provavelmente chega a 1 g, que eles podem trocar por dinheiro quando o intermediário parecer no dia seguinte.

Eles terão que dividir seus US$ 20 em cinco partes: cada um dos quatro mineradores ganha uma parte e o proprietário moçambicano, que ocasionalmente passa para se assegurar que ninguém vá embora sem pagar sua parte primeiro.

No final os homens terão ganhado US$ 4 cada -um bom dia para os mineradores, que agora poderão comprar algumas garrafas de gim e uma prostituta no final de semana.

Enquanto isso, Alec Pot continua passando fome. Ele não come carne há meses. Seu corpo emaciado é suscetível a doenças. Há um rumor de surto de cólera alguns quilômetros a jusante. Pot não sabe o que acontecerá com ele.

Por enquanto, Pot não tem dinheiro nem voltar para a capital de Zimbábue, Harare. Além disso, como poderia explicar seu fracasso a sua família? "Eles esperam que eu volte com alguma coisa", diz Pot, olhando por cima das montanhas que formam a fronteira com Zimbábue. "Eles estão com fome."

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