UOL Notícias Internacional
 

26/03/2008

Fúria e tensão tomam conta do país mais novo da Europa

Der Spiegel
Renate Flottau
Influenciado pela recente agitação em Mitrovica, Milan Bigovic prevê o futuro do Kosovo com uma seriedade absoluta. "A situação não pode ser resolvida sem um banho de sangue", afirma ele. "Estamos preparados para tudo, incluindo a guerra".

Bigovic, um sérvio, não é uma pessoa qualquer. Ele não é nenhum demagogo e tampouco um sonhador nacionalista. Bigovic é o promotor público do norte de Mitrovica, a parte sérvia da cidade. O seu prognóstico, feito pouco após a rebelião em Mitrovica, é sinistro e, de uma maneira triste, talvez até profético.

Segundo Bigovic, o norte do Kosovo, que é habitado preponderantemente por sérvios, não será integrado à nova nação da Europa, "nem em uma década, e sequer em séculos". Embora ele utilize deliberadamente uma linguagem provocativa, as suas palavras refletem o clima de irreconciliabilidade que atualmente prevalece no Kosovo. Existe algo quanto ao qual Bigovic está certo: a onda de violência da última segunda-feira, que durou oito horas, não será a última.

Marko Djurica/Reuters - 18.mar.2008 
Mulher passa ao lado de carros queimados em Mitrovica, no norte de Kosovo

Cruzando a "Linha Vermelha"
Naquele dia, às 5h30, integrantes especiais da Missão das Nações Unidas no Kosovo (UNMIK), a força policial da Organização das Nações Unidas (ONU) na região, prendeu 53 ex-funcionários do judiciário. Os funcionários ocuparam por três dias o prédio do tribunal no norte de Mitrovica, alegando que tinham esperança de negociar as condições para voltarem a ser contratados. Um deles era o vice de Bigovic, Slavco Trifunovic, um homem de óculos e de barba negra mesclada de tons grisalhos.

"É claro que parte do objetivo do grupo era se contrapor aos planos da ONU de fazer deste o primeiro prédio oficial de governo de um Kosovo independente em 'território sérvio'", declarou Trifunovic. Mas após ser preso, ele perdeu a sua postura de desafio por algum tempo. "Fiquei com medo de ser jogado em uma cela com albaneses em Pristina, onde eu seria linchado".

Aguardando a transferência para a prisão, Trifunovic, espiando através das grades do camburão, podia ver a fúria explodindo entre os outros sérvios. Indivíduos irados bloquearam o comboio. Um sérvio dono de uma casa de apostas jogou-se em frente a um veículo da ONU, proporcionando à multidão - armada com pedras, coquetéis Molotov e pistolas - tempo para libertar 21 pessoas que haviam sido detidas pelas intimidadas forças internacionais de segurança.

A seguir, soldados da missão de paz liderada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte em Kosovo (KFOR) usaram bombas de gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral para tentar recuperar o controle, mas os seus adversários usaram uma tática inteligente: as ambulâncias que tiveram permissão para passar pelas barricadas - devido à suposição de que elas estavam ali para prestar assistência aos feridos -, foram usadas como armazéns móveis cheios de armas para os combatentes de rua.

Entre os manifestantes estavam dezenas de policiais sérvios à paisana e hooligans que se infiltraram na multidão. Observadores estrangeiros alegaram que Belgrado organizou a violência, que provocou a morte de um policial ucraniano e deixou mais de cem pessoas feridas.

A mensagem política foi a de que a soberania do Kosovo não resolveu os problemas da região. Pelo contrário, ela intensificou o ódio interminável entre os indivíduos de etnia sérvia e os de etnia albanesa. A pacificação do país, que ainda está sob a proteção da ONU, é apenas uma realidade para um futuro distante. Enquanto isso, o Kosovo continua sendo uma experiência durante um período indeterminado e com um resultado incerto.

Um Chipre em formação?
Trifunovic foi libertado da prisão em Pristina no final da tarde, juntamente com todos os outros manifestantes detidos. Ele vê uma solução baseada no modelo cipriota como a única abordagem viável. "Nós não reconhecemos a zona sul albanesa, e os albaneses não reconhecem o norte do Kosovo sérvio. As tropas internacionais estão protegendo as fronteiras entre esses dois grupos", diz ele.

Os sérvios que ainda moram em enclaves no sul do Kosovo foram abandonados como pessoas que vivem em ilhas inacessíveis, e alguns prevêem que demorará anos para que se resolva o destino deles. Os monastérios sérvios ortodoxos perto do local da histórica Batalha de Kosovo, que simboliza a reivindicação de Belgrado da terra que fica agora no território do Kosovo, atendeu à sua função propagandística. Pelo menos por ora a proteção dos monastérios não é mais um problema para os sérvios do Kosovo.

Mas como é que questões tão contenciosas serão abordadas, se a rebelião no início do fim de semana expôs também uma faceta nada favorável das forças de paz, que estão lá com o objetivo de serem uma força estabilizadora para o país? Após a embaraçosa libertação dos prisioneiros por umas poucas dezenas de manifestantes, a UNMIK e a polícia do Kosovo tiveram até que transferir o controle do norte de Mitrovica para a KFOR.

Esta organização reiterou a sua disposição de responder duramente a qualquer futura onda de violência. "Os sérvios cruzaram uma linha vermelha quando dispararam contra os nossos soldados", afirmou, furioso, o comandante francês da KFOR, Xavier Bout de Marnhac. Mas quase não há sinais de suas patrulhas nas ruas do norte de Mitrovica. Lá, a autoridade tem uma face diferente.

Começando a reivindicar o território
Uma ponte divide o setor sul albanês da zona norte sérvia da cidade. À noite, um único soldado monta guarda na ponte, que parece sinistramente deserta ao luar. Qualquer um que passe pelos rolos de arame farpado que marcam o início do lado sérvio é saudado por uma faixa esticada de um lado ao outro da estrada, com os dizeres, "Kosovo é Sérvia", e por um oceano de bandeiras sérvias vermelhas, azuis e brancas. Retratos de Tomislav Nikolic, o vice-presidente do ultranacionalista Partido Radical, estão colados nas paredes dos prédios. Os sérvios do Kosovo esperam que Nikolic - apesar da sua hesitação contínua - envie apoio militar caso o seu partido obtenha uma vitória nas eleições parlamentares sérvias de maio.

O "Escritório do Governo Sérvio" fica às margens do Rio Ibar. Para reivindicar o seu direito de administrar o Kosovo, Belgrado enviou um governador para a sua ex-província do sul muito antes de esta declarar independência.

O nome do governador é Momir Kasalovic. Ele é amigo do primeiro-ministro sérvio Vojislav Kostunica, e acusa o Ocidente de ter cometido um erro de cálculo fatal. Segundo Kasalovic, o Ocidente temia que os kosovares de etnia albanesa se revoltassem, de forma que deu a eles um Estado próprio de bandeja. Porém, um norte do Kosovo sérvio, não muito diferente da República Srpska, na Bósnia, seria aceitável para Kasalovic, embora ele prefira não especular sobre a possibilidade de Belgrado aceitar tal solução.

Desestabilizando a "irmandade"
Indivíduos de etnia sérvia escorraçaram agentes alfandegários de etnia albanesa há algumas semanas nas travessias da fronteira norte do Kosovo. Desde então, vários estradas e caminhos daqui não são mais guardados, possibilitando que armas de uma guarnição militar sérvia vizinha sejam trazidas sem impedimentos para os "irmãos ameaçados" - em uma atitude que agrava ainda mais o conflito.

A estabilização dos Bálcãs que os políticos ocidentais esperavam como conseqüência da independência do Kosovo não se materializou. Mas isto era de se prever, e não há dúvida de que a Europa e os Estados Unidos aceitaram conscientemente os problemas.

As demandas persistentes dos kosovares albaneses pela sua própria nação tornaram-se um pesadelo. Os proponentes da independência esperavam que a Sérvia a princípio iria se mostrar indignada, mas acabaria cedendo em troca de um ingresso rápido na União Européia. Esta esperança revelou-se ingênua, assim como a idéia de que outras minorias não citariam o Kosovo como um precedente.

A crise dos Kosovo também sobrecarregou os políticos da Sérvia. Devido à falta de uma abordagem viável, o destino dos seus colegas sérvios no sul será usado inicialmente como material de discursos para a conquista de votos, pelo menos até as eleições sérvias. O primeiro-ministro Kostunica deseja ver o país cerrar fileiras com Moscou. O presidente Boris Tadic, juntamente com o seu Partido Democrata, é acusado de ser um traidor devido à sua postura pró-européia. A força mais poderosa, o Partido Radical e o seu candidato, Nikolic - cujo chefe, Vojislav Seselj, está atualmente sendo julgado no Tribunal de Haia por crimes de guerra - deverá fazer o novo primeiro-ministro.

Nada disso mudará muita coisa. O Kosovo continua sendo um foco de problemas. Kosovo pode ser agora um Estado independente, mas o país mais novo da Europa continua sendo um foco de problemas. A minoria sérvia está armando-se, a violência irrompeu e as forças de paz tentam controlar a situação. Esta intranqüilidade durará meses ou décadas? UOL

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