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03/07/2008

África abre as portas para o "estilo zimbabuano"

Der Spiegel
Da redação do Der Spiegel
O Ocidente vinha esperando que a reunião de cúpula da União Africana, no Egito, resultasse em uma condenação clara da farsa eleitoral protagonizada no Zimbábue. Em vez disso, o documento final da reunião continha apenas uma fraca solicitação a Robert Mugabe para que este trabalhasse em conjunto com a oposição. Isto, porém, é algo que dificilmente ocorrerá.

No final da tarde da última terça-feira, o déspota de Harare já ouvira o suficiente. Na noite anterior, repórteres britânicos bombardearam o presidente zimbabuano Robert Mugabe com questões desconfortáveis a respeito da farsa eleitoral ocorrida na última sexta-feira. Os jornalistas desejavam saber como ele poderia reocupar a presidência após ter forçado de forma violenta o seu adversário, Morgan Tsvangirai, a abandonar a disputa.

Mas quem falou em nome de Mugabe foi o seu porta-voz, George Charamba.
Ele enfrentou a imprensa que estava reunida em Sharm El-Sheik para participar da reunião de cúpula da União Africana. O porta-voz repeliu furiosamente todas as preocupações e apelos do Ocidente. "Os governos estrangeiros podem insistir mil vezes", vociferou Charamba. "Mas eles não contam com nenhuma base e não nenhum direito de se intrometer na política zimbabuana".

No momento em que Charamba falava, Tsvangirai deixava a Embaixada da Holanda em Harare, onde abrigou-se na semana passada, depois que cabos eleitorais violentos de Mugabe começaram a fechar o cerco sobre ele.

Tsvangirai pediu mais uma vez aos líderes africanos que estes não reconheçam os resultados da eleição de sexta-feira, na qual Mugabe teve 85% dos votos.

Ninguém deu ouvido ao apelo. E mais uma vez o fato demonstrou as divisões profundas que estão presentes entre a elite política da África.

Os 53 líderes africanos reunidos em um resort no Egito não chegaram nem perto de encontrar um consenso a respeito de como lidar com os déspotas do continente. Mugabe foi nitidamente o foco da reunião de dois dias.

Alguns exigiam que o Zimbábue fosse claramente censurado e que fossem aplicadas sanções contra o país, uma posição adotada pelo Ocidente. Mas outros elogiaram a solidariedade africana demonstrada com o reconhecimento do papel desempenhado por Mugabe para livrar o Zimbábue do colonialismo ocidental.


"Não somos obrigados a obedecer ordens do exterior"
O presidente de Serra Leoa, Ernest Bai Koroma, foi um dos que exigiram que o Zimbábue fosse isolado. "Foram negados ao povo do Zimbábue os seus direitos democráticos", criticou Koroma. "Devemos condenar enfaticamente o que aconteceu". O primeiro-ministro queniano Raila Odinga, falando de Nairóbi, afirmou que Mugabe deveria ser deposto e que tropas de paz deveriam ser enviadas ao Zimbábue para garantir a realização de eleições livres e justas. "A União Africana não deve aceitar Mugabe e nem recebê-lo bem", declarou ele aos repórteres.

Mas há muitos que discordam. O presidente do Gabão, Omar Bongo, o chefe de Estado africano que está há mais tempo no poder, afirmou: "Ele foi eleito, tomou posse, e está aqui conosco. Portanto, ele é presidente. Digo com certeza que nós não somos obrigados a obedecer ordens do exterior".

Para muitos, porém, o silêncio foi a resposta preferida para a crise. O anfitrião egípcio Hosni Mubarak, por exemplo, mencionou uma longa lista de crises enfrentadas pelo continente durante o seu discurso de boas-vindas. Ele falou do Chade, do Sudão e da fronteira entre Djibuti e Eritréia, sem entretanto mencionar nem uma vez o Zimbábue.

A omissão de Mubarak é em parte a expressão de uma filosofia de liderança que une vários líderes africanos que estão há muito tempo no poder, incluindo o chefe de Estado da Líbia, Moammar Gadahfi e o presidente de Uganda, Yoweri Museveni. Essa filosofia rejeita toda influência externa no que se refere à maneira como eles lideram os seus países. Gadhafi deixou bem claro como vê essa questão durante uma visita que fez à Uganda na primavera: "O partido de Museveni precisa garantir que líderes tão bons como os irmãos Museveni não sejam depostos apenas por causa de algo como um voto".


O estilo zimbabuano
Mensagens similares foram ouvidas repetidamente nesta semana, e o porta-voz Charamba foi apenas o que exprimiu o que pensa de forma mais estridente. Na quarta-feira (2) o presidente sul-africano Thabo Mbeki rejeitou a pressão da União Européia e afirmou que a única solução precisa vir da África e tem que ser aceitável para o Zimbábue.

Entretanto, a União Européia está cogitando aumentar a pressão sobre Harare. O ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, repetiu na última terça-feira que a União Européia está pensando em impor sanções adicionais contra o Zimbábue. Companhias estrangeiras que têm negócios no país já começaram a ser pressionadas para se retirarem.

Na tarde de terça-feira, a companhia alemã Giesecke & Devrient, com sede em Munique, que fornece papel especial ao banco central do Zimbábue para a impressão de dinheiro, deixou de fazer entregas para o país.

Na terça-feira, Kouchner disse ainda que qualquer futuro governo do Zimbábue terá que ser liderado por Tsvangirai.

Kouchner referia-se à fórmula débil para o problema do Zimbábue, quanto à qual a União Africana conseguiu concordar. No documento divulgado no final da reunião, há um apelo a Mugabe para que ele procure dialogar com a oposição e trabalhar rumo a um governo de unidade nacional. Essa é uma proposta que o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, defende há muito tempo, e na quarta-feira os Estados Unidos expressaram o seu apoio à esta solução. Até mesmo Mugabe afirmou na quarta-feira que está pronto para conversar com Tsvangirai, apesar de ter rejeitado esta idéia anteriormente.

Mesmo assim, essa proposta provavelmente não levará a lugar algum. Ainda que o Quênia tenha conseguido resolver a sua crise recente com uma coalizão entre o presidente Mwai Kibaki e o líder oposicionista Raila Odinga, uma aliança similar no Zimbábue parece ser extremamente improvável. Na terça-feira, em Sharm El-Sheik, Charamba, o porta-voz de Mugabe, expôs diretamente a sua posição. Segundo ele, o Quênia não se constitui em um precedente para o Zimbábue. "A solução precisa ser definida pelo povo zimbabuano", insistiu Charamba. "O Quênia é o Quênia.
O Zimbábue é o Zimbábue. Temos a nossa história no que diz respeito a dialogar e resolver impasses políticos no estilo zimbabuano".

Depois do que se viu nas últimas semanas, ficou bem claro para todos como é esse estilo zimbabuano. UOL

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