UOL Notícias Internacional
 

31/07/2008

O Estádio Olímpico de Pequim é um lugar subversivo, diz arquiteto Jacques Herzog

Der Spiegel
Ulrike Knöfel e Susanne Beyer
O famoso arquiteto Jacques Herzog, o homem por trás do novo Estádio Olímpico de Pequim, diz à "Spiegel" que sua arena é um lugar subversivo, onde as pessoas podem se encontrar em locais não são fáceis de monitorar pelas autoridades. Ele também defende sua decisão de construir para um regime criticado por violações de direitos humanos.

AFP 
Para o arquiteto responsável pelo estádio só um idiota teria dito não ao governo chinês

Spiegel: Sr. Herzog, nas próximas semanas bilhões de pessoas que assistirão as Olimpíadas verão sua arquitetura. Você pode alegar ter construído a arena mais famosa do mundo. Onde você estará durante a cerimônia de abertura em Pequim?

Herzog:
Eu não tenho idéia. Até poucas semanas atrás, nós nem sabíamos se seríamos convidados para as festividades.

Spiegel: Você está falando sério? Sua estrutura é um dos projetos favoritos do governo. O estádio já está sendo estampado na moeda.

Herzog:
Apenas é assim na China, você nunca sabe ao certo como qualquer coisa se desenrolará. Ao longo dos anos, nós freqüentemente ficávamos perplexos, porque não conseguíamos avaliar qual era a receptividade ao projeto. O que faltava era uma resposta clara. Mas no final tudo se encaixou muito bem no lugar.

Spiegel: Sua arena esportiva está sendo recebida com grande entusiasmo e com o amplo reconhecimento que seus clientes pretendiam. Mas o que acontecerá se um escândalo político ofuscar os Jogos Olímpicos? Isso não poderia facilmente arruinar sua reputação?

Herzog:
Isso é especulação exagerada. A pergunta que você deveria realmente fazer é porque aceitamos um trabalho em um país, uma ditadura, que não aceita direitos humanos. Nós deveríamos ser autorizados a fazer isso ou não?

Spiegel: E deveriam ser autorizados?

Herzog:
Sim. Nós agora estamos convencidos que construir lá foi a decisão certa. Nós também não podemos aceitar qualquer forma de desrespeito dos direitos humanos. Mas nós acreditamos que algumas coisas abriram neste país. Nós vemos progresso. E devemos continuar a partir daí. Nós não queremos exagerar nosso papel, mas o estádio é talvez um componente deste caminho, ou pelo menos uma pequena pedra.

Spiegel: Mas também é uma peça importante do mosaico de como os chineses retratam a si mesmos.

Herzog:
Quem mais a não ser arquitetos estariam familiarizados com os efeitos dos prédios? Mas também há algo como um efeito direto interno. O estádio é um bom exemplo disso. Na verdade, ele consegue o máximo que a arquitetura pode conseguir.

Spiegel: Por ser muito popular entre as pessoas?

Herzog:
Nós normalmente não pensamos em termos de símbolos, mas o estádio se tornou um. Este prédio é literalmente adorado. Os próprios chineses o descrevem como um de seus monumentos culturais mais importantes, ao lado da Grande Muralha da China. Eles se identificam com ele e o chamam de ninho de pássaro. Basicamente, quem o construiu não é mais relevante.

Spiegel: Bem, isso pode não ser exatamente do seu melhor interesse.

Herzog:
Sim, pode, porque atesta um alto grau de aceitação. Para nós, este estádio é mais do que apenas um prédio. É parte de uma cidade. Visão é sempre uma palavra muito grande, mas nossa visão era criar um espaço público, um espaço para o público, onde a vida social é possível, onde algo pode acontecer, algo que pode, deliberadamente, ser subversivo ou - pelo menos - não fácil de ser controlado ou monitorado.

Spiegel: Sua arquitetura como um ato de resistência? Não está exagerando?

Herzog:
Não. Nós vemos o estádio como um tipo de cavalo de Tróia. Nós atendemos o programa espacial que recebemos, mas o interpretamos de tal forma que pode ser usado de formas diferentes ao longo de seus perímetros. Como resultado, nós possibilitamos lugares de encontro cotidianos em locais que não são facilmente monitorados, lugares com todo tipo de nichos e segmentos menores. Em outras palavras, não são espaços para desfile público.

Spiegel: Eles existem diante da arena.

Herzog:
Mas o estádio em si é mais como uma montanha, com todo tipo diferente de rotas e caminhos onde as pessoas podem se encontrar de formas inesperadas. Apesar de termos feito coisas semelhantes com museus em Londres e Barcelona, em um país como a China estes tipos de espaços urbanos adquirem um significado diferente, quase político. Nós achamos que muitas pessoas em Pequim entenderão desta forma e o usarão para seu prazer, porque os chineses em geral valorizam o espaço público -mais, de qualquer forma, do que observamos em outros lugares.

Spiegel: Você envolveu o artista chinês Ai Weiwei, conhecido na Alemanha desde o último festival de arte Documenta, como consultor cultural. Mas ele não planeja ir à cerimônia de abertura porque, como ele diz, não pode tolerar autoparabenização nacional.

Herzog:
Igualmente ele também se recusou a visitar o canteiro de obras, apesar de que mal podia conter sua curiosidade. Ai Weiwei está profundamente entusiasmado com o projeto. Mas eu entendo quando ele, como um artista crítico do regime, se mantém distante de qualquer coisa que possa ser visto como um endosso às políticas do regime.

Spiegel: Estes jogos são singulares, precisamente porque estão ocorrendo em um país com um regime controverso como o da China. É óbvio que o arquiteto que cria a estrutura para este evento estará sob o holofote global. Isto torna o trabalho tão tentador a ponto de superar as reservas morais?

Herzog:
Apenas um idiota teria dito não - não uma pessoa que pensa em termos morais. Eu sei que há arquitetos que agora alegam que nunca teriam considerado construir na China. Essa é uma posição tanto ingênua quanto arrogante, uma que reflete uma falta de conhecimento e respeito pelas realizações culturais incríveis que este país tem feito nos últimos 5 mil anos e ainda faz hoje.

Spiegel: Este não é um ponto de vista excessivamente positivo, dada a recente turbulência política? Alguns de seus colegas não são tão caridosos.

Herzog:
Nos últimos anos, em particular, nós experimentamos o surgimento de uma nova geração de artistas, arquitetos e intelectuais, e eles têm a capacidade de mudar a sociedade de uma forma duradoura. Ter um papel na modelagem desta nova era é muito mais interessante e provavelmente muito mais moral do que participar de um boicote sentado em sua mesa. Nós não estamos apenas nos referindo a arquitetos, mas também a outras figuras criativas. Steven Spielberg concordou no início em ser um consultor artístico da cerimônia de abertura, e então se retirou, basicamente no último minuto, porque o regime não era mais do seu agrado...

Spiegel: ...em fevereiro de 2008.

Herzog:
Apenas cheira a propaganda barata, primeiro concordar em participar deste tipo de evento e então cancelar por um motivo político atual que era previsível. A China não se tornou menos democrática e não respeita menos os direitos humanos do que antes. A China ainda está longe do que nós no Ocidente esperamos, mas o estabelecimento de uma nova e ampla classe intelectual é um sinal esperançoso de mudança.

Spiegel: Sério? O conflito tibetano de lado, os críticos ainda são molestados tanto quanto no passado, sob o disfarce de uma suposta liberalização.

Herzog:
Do nosso ponto de vista, a sociedade de fato se tornou mais livre e mais diversa. Mas muitos se recusam a ver isso, porque medem tudo em comparação às nossas condições democráticas, que são únicas, raras e, especialmente na Europa central, nem mesmo velhas. A coisa interessante a respeito da arquitetura é que ela existe, de uma forma bastante física e concreta, e se torna parte da história de uma sociedade e pode ajudar a moldar esta sociedade. Visto sob esta luz, retiradas e boicotes são contribuições menos críveis.

'Não está dentro de nosso poder mudar as condições dos trabalhadores migrantes'
Spiegel: Uma contribuição política sólida não poderia consistir de aceitar o projeto e dizer: ok, nós construiremos a estrutura contemporânea mais importante do país, mas em troca exigiremos que os trabalhadores migrantes recebam quatro vezes mais do que o que recebem atualmente?

Herzog:
Este projeto foi uma luta imensa, com muitos elementos imponderáveis. O que chamamos de diálogo não é comum lá. Nós estávamos principalmente interessados em questões de lei de direitos autorais, nas questões mais elementares de respeito mútuo e, é claro, assegurar que tudo fosse construído como projetamos.

Spiegel: Uma cobertura plena foi descartada por motivos de custo.

Herzog:
Há sempre mudanças durante um processo de planejamento. A questão da cobertura foi muito conveniente para nós. E o fato do restante do conceito original ter sido executado parece quase como um milagre para nós.

Spiegel: E quanto aos trabalhadores migrantes?

Herzog:
Ninguém pode aprovar as condições miseráveis sob as quais as pessoas trabalham lá. Não são apenas os trabalhadores migrantes, mas todo o sistema fabril na China, que produz jeans, camisas e brinquedos para o mundo, funciona nessas condições. Não está dentro de nosso poder mudar as condições dos trabalhadores migrantes, nem é nossa responsabilidade. Nós não temos nada a ver com a organização do canteiro de obras, nem na China e nem em qualquer outro lugar no mundo. O arquiteto é cada vez menos bem-vindo no canteiro de obras, porque ele simplesmente fica no caminho ali e tenta interferir e mudar as coisas.

Spiegel: Me perdoe, mas seu escritório é o mais procurado no mundo. Achamos difícil de acreditar que você seja incapaz de exercer qualquer influência.

Herzog:
Nós sempre podemos trocar algumas poucas palavras amistosas com o prefeito, mas as realidades mudaram na gestão da construção. Nós estamos lidando com um mundo que, paradoxalmente, está freqüentemente em choque com a arquitetura. Por um lado, o arquiteto é altamente respeitado, e a arquitetura também tem a capacidade de promover mudança social radical. Por outro lado, a influência do arquiteto no andamento da construção está diminuindo rapidamente.

Spiegel: Mas você não teria protestado caso seu projeto fosse mexido ou prejudicado esteticamente?

Herzog:
Bem, esta é a área onde as pessoas ainda dão ouvidos a nós, quando dão ouvidos a nós. Os arquitetos, especialmente os poucos que criam projetos de estatura global como um estádio, são muito proeminentes. Mas eles estão perdendo influência nas operações de construção do dia a dia. Raramente alguém tem sucesso em compensar as perdas em outras áreas, exceto talvez quando se trata de desenvolvimento urbano, onde ainda temos maior liberdade.

Spiegel: Existem regimes para os quais você não construiria sob quaisquer circunstâncias?

Herzog:
Seria fácil demais dizer: bem, é claro que nunca construiríamos na Coréia do Norte. Antes de aceitarmos um projeto, nós nos perguntamos se podemos conseguir algo que vai além do comercial. Nossa força é desenvolver prédios que permitem contradições. Nós nos recusamos a participar de projetos que permitem apenas um único uso, uma forma de interpretação, talvez até mesmo uma interpretação ideológica. Ninguém em Pequim nos pediu para entregar um prédio ideológico.

Spiegel: Você adquiriu um status especial há muito tempo, e pode fazer coisas que outros nunca seriam autorizados a fazer. Você está planejando uma pirâmide gigante para Paris, o maior arranha-céu da Suíça para a pequena cidade tranqüila da Basiléia. Você provocou sentimentos eufóricos entre os moradores de Hamburgo com a proposta da sala de concerto Elbphilharmonie em forma de ondas e nuvens, apesar do projeto ser tão fantástico quanto absurdo.

Herzog:
Por que diz isso?

Spiegel: Muitos especialistas duvidam que esta sala de concerto atrairá um público grande o bastante, porque não há interesse suficiente em música clássica em Hamburgo. Como você atrairia as pessoas?

Herzog:
A verdade é que o projeto é único na Europa, porque seu desenvolvimento foi semelhante a um ato de pirataria. Primeiro houve uma iniciativa privada, seguida pelo entusiasmo dos moradores de Hamburgo e depois vieram os políticos. Isto é surpreendente em um ambiente comercial fortemente influenciado pelo protestantismo. Isto deixa especialmente claro que nossa arquitetura só pode seduzir as pessoas com beleza se também houver argumentos racionais.

Spiegel: E quais são?

Herzog:
O Elbphilharmonie é importante para o novo distrito de HafenCity, porque será um dos poucos lugares que não são puramente comerciais. Nós acreditamos que o conceito de utilização será bem-sucedido. Sem uma âncora cultural como esta e a arquitetura apropriada, esta nova cidade dentro da cidade seria vista como algo menos valioso, algo inferior à área central tradicional ao longo do Lago Alster.

Spiegel: Mas o senso agradável de expectativa em Hamburgo está gradualmente cedendo, à medida que cresce o custo do projeto. O custo estimado já ultrapassa 241 milhões de euros e continua subindo. Na verdade, ele faz o Estádio Olímpico de Pequim, a um custo estimado de 316 milhões de euros, parecer relativamente barato em comparação.

Herzog:
Isto é puramente o resultado das vastas diferenças salariais entre a Alemanha e a China. Há pouco estávamos falando a respeito dos trabalhadores migrantes mal remunerados. Além disso, um estádio é relativamente primitivo em termos de interior, enquanto uma sala de concerto é um projeto altamente exigente, especialmente devido às exigências acústicas.

Spiegel: Você trabalha ao redor do mundo e já pôde criar estruturas espetaculares. Você já realizou tudo?

Herzog:
Não, mas nos últimos dois anos, Pierre de Meuron e eu estamos dedicando mais e mais atenção a uma pergunta: como trabalhamos hoje e o que vamos querer e poder fazer em 10 ou 20 anos? Como transferir a responsabilidade para os arquitetos mais jovens? E como vamos ajustar nossa estrutura organizacional para atender as mudanças?

Spiegel: Você está sugerindo uma aposentadoria? Isso seria um choque para o mundo da arquitetura.

Herzog:
Acima de tudo, nós queremos chocar a nós mesmos e nosso pessoal com estes cenários e questões.

Spiegel: Aha! Como a Herzog & De Meuron se parecerá em 2030?

Herzog:
Pierre e eu queremos continuar envolvidos mesmo quando estivermos velhos. Mas isso só poderá acontecer se o escritório for capaz de funcionar bem sem nós. Isto significa que jovens de todo mundo trabalhem para nós ao redor do mundo. Esta cooperação entre gerações diferentes também poderia ser um modelo para a sociedade.

Spiegel: O senhor está pensando em termos históricos. É muita autoconfiança.

Herzog:
Não quando se trata do nosso trabalho. Nós não pensamos em termos históricos, mas em termos contemporâneos. Como a arquitetura, a cidade e a paisagem estão mudando hoje? Isto afeta nossas vidas diretamente e as das pessoas que usam nossos prédios. Todo mundo sabe quão raramente a arquitetura contemporânea funciona e é aceita. Isto também é uma fonte constante de incerteza para nós, o que torna o sucesso de um prédio como o Ninho de Pássaro, em Pequim, ainda mais incrível. As pessoas o aceitaram com uma alegria inacreditável. Ninguém pode forçá-las a isso. Está simplesmente lá. Mesmo em uma ditadura como a China.

Spiegel: Sr. Herzog, obrigado pela entrevista.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,39
    5,761
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h55

    2,49
    96.294,89
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host