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07/08/2008

Físicos acalmam temores de fim do mundo com o funcionamento do novo acelerador de partículas

Der Spiegel
Charles Hawley
O vídeo parece um pouco com uma cena de um filme de horror e ficção científica de baixo orçamento. Um minúsculo buraco lentamente começa a sugar pedaços da Terra na Suíça, com montanhas, lagos e cidades rapidamente caindo na brecha crescente. E ele continua crescendo e crescendo. Ao final do filme de 38 segundos, todo o planeta foi engolido e tudo o que resta é um anel cintilante na escuridão do espaço exterior.

Absurdo, talvez. Mas uma breve espiada em blogs na Internet, e especialmente no YouTube, deixa claro que existe muita gente que acredita que esta é uma possibilidade muito real. O gigantesco acelerador de partículas que agora está sendo concluído nos arredores de Genebra, pela Organização Européia de Pesquisa Nuclear, conhecida como Cern, será ativado em breve. E alguns temem que, assim que a instalação de pesquisa começar a colidir partículas subatômicas a 99,999991% da velocidade da luz, buracos negros perigosos poderiam ser criados e sair de controle.

O temor se disseminou de forma rápida pelo ciberespaço. Além disso, um cientista da Universidade de Tübingen, o dr. Otto E. Rössler, deu um certo peso acadêmico ao ceticismo. Tanto que um grupo de físicos alemães agora publicou uma carta aberta assegurando que o acelerador de partículas, conhecido como Grande Colisor de Hádrons (LHC), é de fato seguro.

"De forma alguma o LHC produzirá buracos negros capazes de engolir a Terra", diz a carta do Comitê para a Física de Partículas Elementares (KET), um grupo de importantes físicos quânticos da Alemanha. "Esta afirmação é baseada em teorias extremamente bem testadas da física e nas observações do cosmo."

O chefe do KET, o dr. Peter Mättig, um físico de partículas da Universidade de Wuppertal, reconhece que as teorias de desastre não fizeram muito avanço entre o público em geral. "Eu não acho que há muitos que acreditam nelas", ele disse à "Spiegel Online". "Mas é notável com que freqüência nós é perguntado sobre o problema. E queremos especialmente refutar aqueles, como o dr. Rössler, que tentam usar a ciência para apoiar suas alegações."

Prova física da teoria
O KET argumenta que aqueles preocupados com a possibilidade de minúsculos buracos negros crescerem, até se tornarem um grande buraco negro, interpretam fundamentalmente mal as regras bem estabelecidas da física quântica. Por um lado, os miniburacos negros, assegura o site do KET aos seus leitores, teria apenas um bilionésimo de um bilionésimo de uma grama de peso e seria extremamente instável. De fato, segundo uma teoria desenvolvida pelo famoso físico Stephen Hawking, eles desapareceriam quase instantaneamente - um fenômeno conhecido como radiação Hawking. Qualquer um que diga o contrário, diz o KET, não entende a Teoria Geral da Relatividade de Albert Einstein.

Ainda assim, ninguém está negando que alguns físicos esperam que o Grande Colisor de Hádrons lhes permitirá observar, mesmo que brevemente, a criação destes - até o momento apenas teóricos - minúsculos buracos negros. Uma das metas do projeto de 4,8 bilhões de euros é criar condições muito parecidas com aquelas dos primeiros milissegundos da existência do universo - bem no início do Big Bang.

Ao fazê-lo, aqueles que apóiam a teoria das cordas - um conceito matemático visto por muitos como um possível meio para unir a mecânica quântica com a relatividade geral (a chamada "teoria de tudo") - esperam encontrar prova física de uma idéia que até agora é pouco mais que um exercício de física teórica. A teoria das cordas prevê a existência de várias dimensões além das quatro das quais estamos cientes, assim como várias partículas ultraminúsculas e antipartículas que ainda não foram observadas.

Como o Grande Colisor de Hádrons, com 27 quilômetros de circunferência e altamente poderoso, é muito maior do que qualquer acelerador de partículas já construído, alguns o consideram a melhor chance até o momento de encontrar estas partículas ou dimensões.

Crescendo e crescendo
Mas a teoria das cordas não é a única teoria da física não comprovada existente. A radiação Hawking provou ser igualmente uma noz dura de quebrar. Apesar da fórmula complexa usada para apoiar a teoria apontar para um fenômeno de buracos negros emitindo radiação invisível - uma necessidade para que quaisquer miniburacos negros criados pela Cern se dissipem - esta radiação nunca foi observada. Se ela não existir, dizem aqueles preocupados com um desastre do Grande Colisor de Hádrons, há poucas coisas capazes de impedir que os miniburacos negros cresçam. E cresçam. E cresçam.

Até mesmo uma ação foi impetrada em um tribunal distrital no Havaí, em março, em um esforço para adiar a abertura do Grande Colisor de Hádrons. Segundo o "New York Times", Walter L. Wagner e Luis Sancho argumentam que a Cern não fez o suficiente para examinar os riscos potenciais. O processo menciona buracos negros assim como "strangelets", um subproduto potencial previsto por algumas teorias da física que, eles dizem, poderiam transformar a Terra em uma massa de "matéria estranha" inabitável.

Alguns cientistas também se perguntam em voz alta quanto risco devemos estar dispostos a aceitar quando se trata de experiências científicas como as que estão sendo conduzidas pela Cern. Se, por um lado, a chance das coisas saírem errado for infinitamente pequena, eles dizem, por outro o desastre potencial é inimaginavelmente grande. A pergunta sobre "'quão improvável uma catástrofe precisa ser para justificar o prosseguimento de uma experiência?' parece nunca ter sido seriamente examinada", escreveu o físico Adrian Kent, da Universidade de Cambridge, em um trabalho de 2003.

A Cern, por sua vez, publicou recentemente um novo relatório do Grupo de Avaliação de Segurança do LHC, no qual diz que "é impossível que buracos negros microscópicos sejam produzidos no LHC". O estudo também disse que, caso fossem criados, eles desapareceriam imediatamente. Strangelets também foram descontados, com o estudo dizendo que "segundo a maioria dos trabalhos teóricos, strangelets mudariam para matéria comum em um milésimo de milionésimo de segundo".

Além disso, disse Mättig, mesmo se minúsculos buracos negros forem criados e a radiação Hawking não existir, não haveria problema. "Na Cern, os prótons serão transformados em prótons", ele disse. "Isto é algo que acontece bilhões de vezes por segundo na natureza. Nós não precisamos de teorias, nós podemos vê-lo - a existência de nosso universo é prova suficiente de que não há perigo."

Atualmente, o LHC está em processo de resfriamento a uma temperatura de 271ºC negativos, um passo necessário para melhorar enormemente a eficiência da instalação. Ele deverá ser ativado pela primeira vez nos próximos dois meses. Os primeiros relatórios de seus resultados provavelmente surgirão no início do próximo ano. Se tudo correr como planejado.

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