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12/08/2008

Responsável pela bomba atômica paquistanesa é um patriota ou o 'pai da proliferação'?

Der Spiegel
Erich Follath e Susanne Koelbl
A vila, construída sobre uma colina coberta com rica vegetação e bem afastada da vida agitada na capital, poderia ser um lugar idílico. Macacos brincam no jardim e as salas com ar condicionado estão cheias de móveis de junco confortáveis. Mas as pessoas que vivem ali a vêem como uma prisão. As autoridades instalaram câmeras em cada um dos quartos e na entrada. Homens armados vigiam ininterruptamente os moradores. Homens de motocicleta patrulham a propriedade e 50 policiais e agentes de inteligência são designados para a vila.

Ela é chamada de "proteção preventiva". Se o dono da casa e sua família estão sendo protegidos do público ou o público está sendo protegido deles não se sabe. Eles estão sob prisão domiciliar de fato há quatro anos e meio. Mas agora algo sensacional aconteceu.

A vila é lar de Abdul Qadir Khan, 72 anos, que vive ali com sua esposa e uma neta. Khan é o homem que o ex-diretor da CIA, George Tenet, já chamou de "no mínimo tão perigoso quanto Osama Bin Laden". Ele é o homem que seus inimigos chamam de "Dr. Fantástico", uma alusão ao filme "Dr. Fantástico" de Stanley Kubrick, no qual autoridades americanas insanas detonam uma guerra nuclear. Ele também é o homem considerado o pai do programa de armas nucleares paquistanês -um homem que teria cometido o crime de ter negociado esquemas e componentes nucleares no mercado negro internacional, com países de caráter duvidoso como a Coréia do Norte, Irã e Líbia.

Mian Khursheed/Reuters - 28.mai.2000 
Abdul Qadir Khan, considerado o pai da bomba atômica paquistanesa, concede entrevista

Khan também tinha contatos na Arábia Saudita. Na verdade, o ministro da Defesa daquele país até mesmo visitou certa vez seu laboratório de pesquisa em Kahuta. E, segundo agências de inteligência ocidentais, a organização terrorista Al Qaeda supostamente teria contatado Khan por meio de um intermediário. Em um discurso televisionado em fevereiro de 2004, o cientista, antes condecorado com as maiores honras de seu país, fez uma chorosa confissão pública de ter feito algo errado. Em um relatório detalhado, a agência de inteligência americana, a CIA, concluiu que havia evidência irrefutável de que Khan intermediou a entrega de ultracentrífugas de gás para enriquecimento de urânio, e até mesmo instruções detalhadas para um "kit nuclear inicial", para a Líbia. Parte da mercadoria, transportada a bordo do navio de carga alemão "BBC China", ainda estava embalada em sacos plásticos rotulados "Good Looks Tailor, Islamabad" (marinheiro de boa aparência, Islamabad). Washington emitiu um ultimato ao presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, que depende de bilhões em ajuda militar americana, que por sua vez atendeu ao forçar Khan a fazer sua confissão pública.

O contrito Dr. Fantástico disse que agiu por conta própria e visando lucro. Musharraf aceitou o pedido de desculpas pessoalmente, em televisão ao vivo, balançando a cabeça como se para realçar sua desaprovação. Logo ficou claro que provavelmente um acordo foi acertado: uma sentença branda em troca de Khan não falar com a imprensa ou com os especialistas nucleares da ONU.

Khan manteve sua parte da barganha por quatro anos, para desgosto dos detetives nucleares da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em Viena, que não receberam nada mais do que respostas ocasionais por escrito, e aparentemente censuradas, para suas perguntas detalhadas. Até mesmo os americanos foram incapazes de ter acesso a este mercador da morte no mercado negro global. Mas há pouca semanas, Khan, enfraquecido por uma cirurgia de câncer e aparentemente pronto para limpar o ar, começou a dar entrevistas por telefone para a imprensa doméstica e internacional. A "Spiegel" também falou com Khan em julho. Em algumas destas entrevistas, o pai da proliferação disse inequivocamente que foi pressionado a fazer sua confissão em 2004, e ao fazê-lo protegeu outros envolvidos.

Àquela altura, Musharraf aparentemente percebeu que a situação estava prestes a sair de controle. Não se sabe se ele teve sorte ou, apesar do novo governo democrático que tenta derrubá-lo, ainda detém poder suficiente. De qualquer forma, ele encontrou um juiz na Suprema Corte de Islamabad que emitiu uma decisão a seu favor em 21 de julho. O advogado de Khan pediu que a prisão domiciliar de seu cliente fosse suspensa, mas agora o pêndulo parece estar balançando de volta na outra direção. O juiz Sardar Aslam reforçou as restrições e destacou que Khan está proibido de "dizer qualquer coisa sobre a questão nuclear com qualquer jornalista", ou mesmo discutir o assunto com seus amigos.

Khan não desafiará o veredicto. Se o fizesse, correria o risco de ir para a prisão e provavelmente perderia contato, de uma vez por todas, com os poucos amigos que ainda são autorizados a vê-lo, apesar de apenas com agendamento e sob supervisão.

Mas se o presidente Musharraf, 65 anos, acreditava que agora poderia fechar este capítulo embaraçoso, ele estava enganado. O "pai da bomba nuclear" do Paquistão encontrou uma nova forma de informar o mundo sobre seus negócios extremamente desconcertantes. Ele permitiu que sua esposa, que aparentemente estava familiarizada com os detalhes de seus segredos nucleares, publicasse a versão dele da história por meio da "Spiegel", na forma de um dossiê que ela entregou para a revista.

Hendrina Khan, conhecida como Henny, 66 anos, nasceu na África do Sul, foi criada por pais holandeses na Rodésia e se casou com o cientista paquistanês em Haia, em 1964. Ela se deslocou com ele pela Europa, de Berlim Ocidental, onde ele freqüentou a Universidade Técnica da cidade com uma bolsa para estudantes altamente dotados, até a cidade holandesa de Delft e depois para a Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, onde ele obteve seu Ph.D. em engenharia metalúrgica em 1972.

Logo que ficou claro que os interesses do jovem paquistanês eram focados em tecnologia nuclear, ele foi trabalhar na cidade holandesa de Almelo, onde a empresa Urenco estava construindo uma instalação avançada de enriquecimento de urânio. Ele conseguiu entrar no refúgio sagrado da energia nuclear literalmente da noite para o dia, ganhando acesso à fonte de engenharia nuclear com a qual todo construtor de bombas aspirante sonha. As restrições de segurança eram extremamente relaxadas e Khan passou muitas noites fazendo inúmeras fotocópias -até, certo dia, ter sentido que tinha sido descoberto. Segundo o depoimento de uma testemunha, após partir às pressas para o Paquistão no final de 1975, Khan fez sua esposa Henny, que já tinha àquela altura dado à luz duas filhas, reunir os esquemas que ele fez secretamente da nova tecnologia holandesa para centrífuga. Em 1983, um tribunal holandês o condenou à revelia a quatro anos de prisão por espionagem industrial.

Khan, que aparentemente já tinha ingressado na agência de inteligência paquistanesa na Europa e já tinha chamado a atenção da CIA, se beneficiou enormemente com o know-how copiado. Ele estava convencido de que o Paquistão precisava de um contrapeso para sua arquiinimiga, a Índia. Khan, que dizia ser um "muçulmano profundamente devoto e paquistanês patriota", via a si mesmo como uma espécie de Robin Hood atômico. Ele queria fornecer ao seu país atrasado armas nucleares e, posteriormente, transferir a tecnologia para outros países desprivilegiados, especialmente no mundo muçulmano.

O então presidente Zulfikar Ali Bhutto se mostrou um entusiasta da idéia. O povo paquistanês "comeria grama se necessário" para obter a bomba, disse Bhutto, que montou um laboratório de pesquisa para o cientista dotado em Kahuta, a 40 quilômetros ao sul da capital. Em maio de 1998, apenas poucas semanas após os testes nucleares bem-sucedidos da Índia, o Paquistão detonou com sucesso sua própria bomba, um triunfo que rendeu ao "Dr. Fantástico" as mais altas condecorações do país e o tornaram um herói nacional.

Em seu dossiê, Hendrina Khan nega que seu marido ganhou milhões com negócios no mercado negro e tenha usado o dinheiro para comprar imóveis caros em Islamabad, Dubai, Londres e Timbuktu, como alegou o governo paquistanês. Ela também nega a existência de uma conexão iraniana, que especialistas ocidentais acreditam ser certa, e reconhece apenas duas viagens para a Coréia do Norte, enquanto pessoas do meio contaram não menos que 12. Por mais clara e compreensivelmente partidária que ela seja na condição de esposa do cientista, e por mais cor-de-rosa que ela pinte o quadro a respeito dele e suas atividades, isto não diminui a credibilidade da acusação central dela de que seu marido apenas "executou as instruções que recebeu" do governo.

"A maior ameaça à humanidade"
O presidente Musharraf, que controlava tudo e todos (após chegar ao poder em um golpe militar em outubro de 1999, ele se tornou presidente e continua no cargo até hoje, apenas renunciando ao seu posto de chefe das forças armadas em novembro de 2007), provavelmente sancionou, talvez até mesmo tenha ordenado, os acordos com a Coréia do Norte e Irã. Ele aparentemente enganou seus aliados ocidentais. Apesar do Paquistão não ter assinado o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, Musharraf já disse que o Paquistão precisava "provar ao mundo que somos uma nação responsável e que não permitiremos a disseminação de armas nucleares", Mohamed ElBaradei, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, e o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, concordam que a proliferação è a "maior ameaça à humanidade".

As notícias dificilmente poderiam chegar em uma pior hora para o Paquistão ("A Terra dos Puros"), um país de 152 milhões de habitantes. A República Islâmica, flanqueada pelo Afeganistão em crise e sua eterna rival Índia, enfrenta críticas internacionais como berço de violência de radicais islâmicos. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, acusou recentemente o Paquistão de freqüentemente ser "o ponto de partida para o terrorismo no Afeganistão". O candidato presidencial americano, Barack Obama, disse que lançaria ataques militares sem consultar o regime em Islamabad, caso tivesse informação precisa sobre o paradeiro do líder terrorista Osama Bin Laden em solo paquistanês.

Até mesmo o governo Bush, há muito brando com Musharraf, agora está adotando uma postura mais dura. No início de julho, ele enviou Stephen Kappes, o vice-diretor da CIA, para Islamabad, onde apresentou ao governo paquistanês evidências de cooperação entre o serviço de inteligência paquistanês, o ISI, e radicais islâmicos no Afeganistão. Tanto especialistas americanos quanto seus pares indianos estão convencidos de que agentes do ISI estiveram envolvidos no ataque contra a embaixada indiana em Cabul, em 7 de julho, que matou 54 pessoas. Conversas gravadas até supostamente provam que eles agiram com aprovação de seus superiores. "A liderança do Exército paquistanês e o establishment paquistanês" organizaram a insurreição, disse o chefe de inteligência de Cabul, Amrullah Saleh, para a "Spiegel" na semana passada.

O Paquistão está à beira de um abismo, como as reportagens dos últimos 30 dias indicam. Em Swat, o ex-paraíso dos turistas a apenas 200 quilômetros da capital, fanáticos incendiaram 21 escolas para meninas e o único resort de esqui do país. No Waziristão, a área tribal onde o governo central quase não tem mais poder, o líder terrorista Baitullah Mehsud matou 22 emissários do governo, quando estes foram para a região negociar um cessar-fogo em nome do governo. Dezenas de novos campos de treinamento da Al Qaeda na região de fronteira representam "uma ameaça séria e direta ao Afeganistão, assim como para todo o Ocidente", disse o diretor da CIA, Michael Hayden.

A economia paquistanesa também está em desarranjo. Em Multan, como em outras grandes cidades, tem ocorrido tumultos espontâneos e sangrentos em resposta aos cortes de luz que duram horas em meio a temperaturas que passam de 40ºC, assim como a um aumento de aproximadamente 20% no preço da gasolina e de alimentos básicos em apenas um mês. Os investidores estrangeiros estão deixando o país e o mercado de ações está despencando.

As esperanças depositadas no novo governo civil do Paquistão, que chegou ao poder há menos de meio ano em eleições relativamente livres e justas, praticamente desapareceram. A coalizão entre o Partido do Povo Paquistanês e a Liga Muçulmana, por anos adversários amargos, parece paralisada. A agência de inteligência permanece um Estado dentro do Estado, enquanto no final é o Exército que está no controle. Quando o primeiro-ministro Yousuf Raza Gilani proclamou orgulhosamente, no final de julho, que tinha colocado o ISI sob supervisão do Ministério do Interior, os líderes militares negaram sua declaração em questão de horas. Ashfaq Kayani, 56 anos, o novo chefe do Exército que é muito prezado por Washington, é visto como o novo homem forte do Paquistão.

Os partidos da coalizão concordam em uma coisa: sua aversão ao presidente. Musharraf pode esperar enfrentar em breve um processo de impeachment por abuso de poder, após os partidos do governo terem concordado na última quinta-feira em instaurá-lo. Musharraf até mesmo teve que cancelar sua viagem a Pequim para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Os 60 juízes insubordinados que o presidente demitiu durante o estado de emergência nacional que ele impôs em novembro passado serão reempossados em breve -um desdobramento que será aprovado por uma grande maioria dos paquistaneses. Mas se os partidos conseguirão reunir a maioria de dois terços em ambas as casas do Parlamento, necessária para um impeachment, permanece questionável.

Todo o país está tomado por rumores. Musharraf contra-atacará? Ele dissolverá o Parlamento? Ou tentará outro golpe, apesar de que segundo recentes pesquisas de opinião, 83% dos paquistaneses querem vê-lo se aposentar? O próprio Musharraf disse em uma entrevista para a "Spiegel", em meados de janeiro, que renunciaria "no dia em que estiver convencido de que a maioria das pessoas não mais me quer". Ou irá para o exílio na Turquia?

Não pode ser descartado que um dossiê de Islamabad poderá ser o prego político em seu caixão, um documento escrito por uma mulher que teme pela vida de seu marido, um dos pais da bomba paquistanesa. Musharraf o colocou sob prisão domiciliar por seus negócios envolvendo armas nucleares. O ex-chefe da CIA o descreveu como sendo "tão perigoso quanto Bin Laden". O cientista nuclear paquistanês, Abdul Qadir Khan, está impedido de falar, mas a esposa dele acusa o governo de ter dado as ordens George El Khouri Andolfato

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