UOL Notícias Internacional
 

22/08/2008

O vacilo dos espiões ocidentais durante a Primavera de Praga

Der Spiegel
Klaus Wiegrefe
Quando já tinha acontecido, as autoridades ocidentais, sem jeito, pareciam surpresas. Contra sua vontade tiveram que admitir que a camuflagem escondendo a marcha das tropas do Pacto de Varsóvia para Praga tinha sido "boa", e a velocidade de suas divisões "impressionante". A forma como o Kremlin levou unidades para fora da parte Ocidental da União Soviética de forma "despercebida" também foi digna de nota. O inimigo, em resumo, tinha marcado "uma vitória tática".

Esse foi o veredicto no dia 27 de agosto de 1968 na sede da Otan em Bruxelas sobre a "Operação Danúbio" -a supressão da lendária Primavera de Praga. Uma semana antes, 27 divisões de soviéticos russos, poloneses, húngaros e búlgaros -cerca de 300.000 homens, armados com 2.000 canhões pesados- marcharam para a pequena Tchecoslováquia para pôr fim a um experimento de "socialismo com face humana". Foi a maior operação militar desde a Segunda Guerra Mundial e o Ocidente foi pego de surpresa.

Durante meses, os olhos do mundo voltados para Praga, onde um grupo em torno do presidente do partido comunista Alexander Dubcek tinha desafiado os soviéticos com direitos civis, nova liberdade de imprensa e planos de privatização para a Tchecoslováquia. Leonid Brejnev, secretário-geral do partido comunista da União Soviética, ordenou que fosse feita uma série de manobras militares ameaçadoras dentro e em torno da Tchecoslováquia a partir de maio.

AFP 
Jovem sobe me tanque soviético em Praga durante confronto jornada de agosto de 1968

Quando as manobras se tornaram sérias, contudo, os governos americano, britânico e alemão pareciam estar olhando para o outro lado, a julgar pelos documentos dos arquivos da Otan em Bruxelas e por arquivos de inteligência avaliados pelo Spiegel. "Nem uma única avaliação" conseguiu prever a invasão soviética de Praga, de acordo com o comitê militar da Otan, a mais alta autoridade militar da aliança.

Cerca de 7.500 tanques avançaram para Praga, mais de 1.000 aviões, inclusive inúmeros vôos de transporte que levavam tropas para Brno e outras cidades da Tchecoslováquia. Milhares de oficiais do bloco oriental receberam ordens de marchar -e ninguém pareceu notar, pelo menos nenhum ocidental. A invasão soviética foi um dos maiores fracassos da inteligência ocidental.

"Relatórios precisos e pontuais"
A CIA americana capitulou mesmo antes da invasão. Não havia possibilidade de "prever as circunstâncias exatas que dariam à liderança soviética causa para intervir de forma violenta", de acordo com um relatório de meados de julho. O serviço de inteligência da Alemanha Ocidental, o Bundesnachrichtendienst (BND), não fez melhor; seus oficiais observaram que o início da invasão de Praga não foi "detectado pelo BND nem por nenhuma outra agência de inteligência ocidental".

Apesar dessas observações de seus espiões, o fundador do BND, Reinhard Gehlen, vangloriou-se abertamente que seus subordinados na época tinham feito previsões exatas -os relatórios foram "precisos e, acima de tudo, pontuais", disse ele- e é por causa disso que a invasão de Praga foi falsamente lembrada como ponto alto da história do BND.

Especialmente embaraçoso foi o fato de, após a invasão, membros da inteligência alemã alegarem ter "um retrato exato do emprego de forças envolvido nas operações". O BND acreditava em 1968 que o Exército Nacional do Povo da Alemanha Oriental (NVA) estava envolvido na ocupação brutal. De fato, Brejnev cancelou o envolvimento do NVA apesar dos protestos do líder da Alemanha Oriental, Walter Ulbricht. A 11ª Divisão Motorizada de Rifles, que o BND alegou ter visto perto da cidade tcheca de Budweis, de fato passou todo o período da invasão esperando pacificamente dentro da Alemanha Oriental.

Olhando para trás não surpreende que a Otan tenha descoberto sobre a invasão pela mídia. A primeira reportagem da Associated Press saiu no dia 21 de agosto às 2h09, 4h depois do início do assalto, e demorou ainda outra hora antes dos alarmes soarem em Bruxelas, porque a máquina de teletipos na sede da Otan tinha quebrado. Ninguém tinha percebido o problema porque o agente responsável tinha ido dormir.

Foi erro após erro: documentos secretos mostram que os embaixadores soviéticos em Londres e Paris tinham informado os respectivos governos sobre a ação na noite anterior a invasão. O embaixador soviético Anatoly Dobrynin informara até o presidente americano Lyndon B. Johnson pessoalmente -Brejnev queria evitar dar ao Ocidente a impressão que a invasão era uma preparação para um ataque à Otan.

Os três grandes poderes mantiveram essas informações para si mesmos. Naquelas 12 horas críticas, os líderes militares da Otan tiveram que depender de relatórios da imprensa, e disso reclamaram furiosamente. Seu lamento era justificado porque poderiam ter ocorrido facilmente incidentes na fronteira entre a Alemanha Ocidental e a Tchecoslováquia. As tropas invasoras imediatamente asseguraram a fronteira ocidental do país, mas, em alguns lugares, os tanques soviéticos se aproximaram da Alemanha -a fronteira entre Oriente e Ocidente. É doloroso imaginar o que poderia ter acontecido se um comandante da Alemanha Ocidental, do outro lado, perdesse a calma.

O embaixador britânico na Otan pediu desculpas, dizendo que seu país nunca mais repetiria esse tipo de política de informação.

Mais tarde soube-se que a 4ª Força Aérea Tática Aliada da Otan tinha consciência que os pára-quedistas soviéticos tinham sido enviados à República Socialista da Tchecoslováquia. Entretanto, os oficiais responsáveis não consideraram isso um risco para a aliança e portanto não transmitiram as informações.

Esses escorregões parecem ainda mais impressionantes diante das alegações iniciais de sucesso do BND. A agência tinha enviado inúmeros contatos e informantes para Praga no verão de 1968. A ordem era informar "todos os detalhes de movimentos militares nas estradas de ferro e ruas" sob o código "Nepomuk". São João de Nepomuk é o patrono da Boêmia -e do segredo das confissões.

Nenhum 007 no Kremlin
Os agentes alemães em Praga também queriam "acesso aos políticos mais importantes do círculo de Dubcek". Grande parte do que esses e outros informaram antes da invasão estava correto, como por exemplo os relatórios sobre uma reunião de cúpula em Dresden em março de 1968.

Dubcek tinha acabado de suspender a censura na Tchecoslováquia, e agora os outros países socialistas o acusavam de pavimentar o caminho para a contra-revolução. O BND informou que Brejnev havia advertido que "não ficaria parado vendo a quebra do sistema comunista". Se o partido comunista tchecoslovaco "perdesse o controle, haveria intervenção".

Poucas semanas depois - em maio de 1968 - o BND chegou à conclusão que "quase foi alcançado o (ponto) que soviéticos consideram o limite da tolerância". As relações entre os chamados partidos irmãos em Moscou e Praga "devem ser descritas como geladas".

Isso poderia ter sido apreendido das páginas do "Pravda".

Mais tarde o BND alegou que tinha "antecipado que haveria um ataque militar de Moscou com seus aliados a partir de agosto de 1968". Entretanto, não há nenhum documento apoiando essa declaração. Mesmo que houvesse, isso não mudaria o fato que antecipação é menos do que conhecimento -que é o propósito das agências de inteligência.

Ainda assim, o BND não estava tão distante quanto a CIA. "As principais autoridades da CIA" acreditavam que "a consideração em relação à opinião do mundo forçaria União Soviética a se abster de um ataque militar", de acordo com o BND. Isso se provou totalmente errado.

Seriam necessários espiões em Moscou para entender que Brejnev e seus camaradas tinham feito a decisão essencial em meados de junho de esmagar a Primavera de Praga, se a situação não mudasse. No dia 18 de agosto, a data para a "Operação Danúbio" foi estabelecida.

O Ocidente não tinha nenhum 007 no Kremlin.
Ninguém no Ocidente soube explicar o propósito das manobras de verão incomuns nos Estados do Pacto de Varsóvia. Seriam para intimidar os reformistas em Praga ou para preparar os soviéticos para uma invasão? Se estavam preparando uma invasão - quando seria?

Essa desorganização é um fato da vida nas agências de inteligência, como admitiu o BND em uma análise posterior: "Somente nos casos mais raros (coincidências ?)" a agência consegue "se infiltrar nos corpos de decisão mais importantes dos potenciais inimigos".

Não parece ter ocorrido ao autor do documento que essa frase colocava em questão a própria existência de sua agência durante a Guerra Fria. Há 40 anos nesta quinta-feira, a União Soviética pôs fim à chamada Primavera de Praga com uma grande invasão de tropas e tanques. Arquivos de inteligência daquela época mostram que a maior operação militar na Europa desde 1945 pegou o Ocidente de surpresa Deborah Weinberg

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