UOL Notícias Internacional
 

28/08/2008

Branco contra negro: a questão por trás da campanha presidencial americana

Der Spiegel
Gerhard Spörl, da Der Spiegel
McCain contra Obama. Republicano contra democrata. Velho contra jovem. Há uma série de formas de definir a atual batalha pela Casa Branca. A mais importante, contudo, está recebendo atenção propositalmente pequena: negro contra branco.

Na terça-feira (26) na CNN, uma jovem chamada Rosemary entrevistava um deputado americano. Não era uma pessoa qualquer. O canal de televisão conversava com Jesse Jackson Jr., filho do famoso líder de direitos civis Jesse Jackson, que duas vezes concorreu à Casa Branca. Jackson Jr. é um homem sério e político sólido. De fato, ele parece livre da teatralidade pela qual seu pai tem uma queda.

Durante a entrevista, a moderadora da CNN fez uma ótima pergunta: ela queria saber se ele achava que os brancos americanos se sentiram alienados quando viram Michelle Obama e suas duas filhas no palco em Denver, na primeira noite da Convenção Democrata Nacional.

Jackson Jr. pegou um desvio. Ele falou sobre como Michelle Obama mostrou aos EUA que suas preocupações eram as mesmas que as deles - que ela também se preocupa com o futuro de suas filhas, que ela também aprecia os valores americanos. Jackson Jr. disse que Michelle Obama, com seu discurso, deixou claro para o público como a conexão de John McCain com o "mainstream" americano é tênue - especialmente, dadas as sete casas de McCain, salientou Jackson Jr.

A questão da jornalista da CNN de fato foi tão boa que Jackson Jr simplesmente não pôde responder. A razão está clara: o maior coringa neste duelo presidencial entre Barack Obama e John McCain é o fato que um deles é branco e o outro é negro. Toda vez que se faz uma pergunta sobre raça, o entrevistado tenta agir como se não tivesse ouvido corretamente, ou a resposta rapidamente vagueia para um vazio sem sentido.

Na segunda-feira à noite, Michelle Obama e suas filhas pareceram exatamente o que os EUA esperam das famílias dos candidatos presidenciais: torcedoras amáveis, excitadas e enérgicas. Mas também colocaram em cena a questão velada, porém decisiva, em torno dessa campanha: será que os EUA avançaram o suficiente para aceitar uma família negra morando na Casa Branca? Os EUA podem aceitar a liderança de um homem que se diz negro?

É claro que a cor da pele de Obama foi assunto na campanha. Na maior parte, contudo, as referências foram veladas e indiretas - e ocasionalmente camufladas. Hillary Clinton entrou no assunto com perfídia particularmente elegante. Quando ela colocou Robert Kennedy e Barack Obama na mesma frase, o subtexto era: bem, Bobby Kennedy foi assassinado, então talvez seja bom que eu permaneça na disputa. Bill Clinton comparou Obama a Jesse Jackson, um homem que deixou muitos eleitores brancos inconfortáveis no passado. E Geraldine Ferraro, que teria se tornado vice-presidente se Walter Mondale não tivesse perdido as eleições de 1984 para Ronald Reagan, reclamou de Obama ter sido tratado melhor pelos jornalistas por causa de sua raça - como se fosse uma vantagem sem preço nascer negro nos EUA e uma desvantagem insuperável ser branco.

Para os Clinton - que preferem atribuir todas as suas derrotas a estratagemas, conspirações e injustiças monumentais - é incrivelmente difícil dar seu apoio a um homem que os derrotou. Obama foi melhor que Hillary: melhor na oratória, mais inteligente na forma como conduziu sua campanha. Ele era o sujeito bacana novo na praça. Sua cor de pele certamente não fez a balança pesar a seu favor na batalha primária democrata, mas tampouco pareceu ser uma desvantagem.

Agora, porém, é McCain contra Obama, republicano contra democrata, velho contra novo - e, mais do que tudo, branco contra negro. McCain, é claro, não abordou a questão de raça diretamente. Mas, indiretamente, o argumento é o seguinte: ser branco significa ser como John McCain - patriota, condecorado com medalhas e honras, um herói que se sacrifica. Ser negro significa ser como Barack Obama - ansioso pelos holofotes, igual a um ator de Hollywood, egocêntrico, instável que não compartilha verdadeiramente os valores americanos. Os Estados Unidos branco estão - sutil e habilmente - sendo mobilizados contra os Estados Unidos negro.

O iluminado, o relutante e o instável

Em suma, não foi apenas a guerra entre a Rússia e a Geórgia que subitamente conferiu a McCain o status de competidor sério nessas eleições. A questão da raça aflige os EUA desde o nascimento do país e continua, apesar de ser empurrada para o pano de fundo por ser politicamente incorreta, não resolvida. Agora, a questão da raça na campanha se tornou a província dos lunáticos - como a personalidade do rádio Rush Limbaugh. A candidatura de Obama "vem do fato que ninguém teve a coragem de se levantar e dizer não a um sujeito preto", disse ele no ar. Ele também se referiu a Obama como "a pequena criança negra".

Limbaugh talvez seja extremo, mas não é difícil imaginar que uma grande percentagem de eleitores republicanos também esteja temerosa de ver um presidente negro. Mais importante, porém, é se os eleitores indecisos estarão dispostos a votar em um negro diante de um branco. Também depende dos democratas inconstantes, muitos dos quais votaram em Ronald Reagan nos anos 80. Agora precisam escolher entre votar em Obama - ou talvez, no final, em McCain.

Também dependerá, é claro, da derrotada Hillary Clinton e de sua capacidade de sumir de cena depois de seu discurso na noite de terça-feira, em Denver. Obama, de sua parte, deve segurar sua língua ao falar dos Clinton. Há, afinal, uma série de brancos com dúvidas que teriam preferido ver Clinton como a candidata do Partido Democrata. A cor, afinal, também foi um fator velado nas primárias. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host