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03/09/2008

No leste da Alemanha, dois assassinatos bem similares passam despercebidos

Der Spiegel
Sven Röbel
Dois jovens foram mortos em um intervalo de apenas alguns dias no Estado da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha. Os suspeitos de terem cometido os assassinatos são ambos neo-nazistas que já foram condenados anteriormente por ataques similares, e, no entanto, não tem havido nenhuma indignação pública quanto aos dois casos.

Quando Rick L. morreu nos arbustos que ficam atrás de um ponto de ônibus na cidade de Magdeburg, no leste da Alemanha, ele já havia sofrido um martírio na forma de incontáveis socos e chutes. O estudante de arte de 20 anos foi literalmente espancado até a morte pelo seu algoz. Segundo o relatório de autópsia, Rick L., cujo corpo apresentava sinais de lesões internas, morreu sufocado no seu próprio sangue.

Pouco tempo depois, Bastian O., 20, um extremista de direita que já tinha passagens pela polícia por ataques semelhantes, foi preso e acusado de assassinato. Os investigadores acreditam que o espancamento fatal foi provocado pelas observações críticas da vítima em relação à postura direitista de O.

O segundo assassinato ocorreu no fim de semana seguinte, a menos de 50 quilômetros do primeiro, em 24 de agosto. Marcel W., que acabara de fazer 18 anos, foi encontrado morto, com o corpo repleto de facadas, em uma poça de sangue na cidade de Bernburg.

David B., um outro neo-nazista de 19 anos, com passagens pela polícia devido à sua conduta violenta, foi preso e acusado de assassinato. Se não tivesse morrido, a vítima iria depor na semana passada contra o extremista em um caso envolvendo uma agressão que sofreu.

Com essas duas mortes em duas semanas e dois neonazistas violentos com históricos criminais presos como os possíveis assassinos, poderia se pensar que a proximidade entre as duas ações sangrentas, tanto geográfica quanto cronologicamente, geraria uma nova discussão sobre a violência extremista de direita. No entanto, as mortes recentes dos dois jovens não chegaram a ser noticiada nos jornais diários nacionais.

E, uma semana após os incidentes, nem mesmo na Saxônia-Anhalt os dois assassinatos provocaram qualquer debate político. Tanto autoridades do governo quanto políticos trataram esses atos de violência excessiva como problemas corriqueiros semelhantes a acidentes de trânsito. Duas pessoas foram assassinadas, mas praticamente ninguém notou. Na quinta-feira passada, quando "Der Spiegel" solicitou à Assessoria de Imprensa do Ministério do Interior em Magdeburg, a capital estadual, uma declaração sobre os ataques mortíferos, o porta-voz sequer sabia do segundo assassinato. No dia seguinte ele confirmou que a polícia já havia detido ambos os suspeitos, "criminosos violentos da extrema direita". Segundo o porta-voz, até então não se sabia se os crimes tiveram motivação política.

"Bombas-Relógios"

A Saxônia-Anhalt costuma minimizar fatos desagradáveis. Algo que não falta aos habitantes do Estado, que tem um alto índice de desemprego e uma população que encolhe drasticamente, são notícias negativas. No ano passado, o ministro do Interior, Holger Hövelmann, membro do Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, foi obrigado a admitir que o número de atos criminosos cometidos por extremistas de direita tem sido bastante camuflado no seu Estado. Até mesmo no caso dos dois recentes homicídios, não está claro se eles serão classificados como "atos de violência com motivos relacionados ao extremismo de direita". Pelo menos até o momento eles têm sido tratados como crimes violentos cometidos por jovens sob a influência do álcool.

Determinar se os assassinatos em Bernburg e Magdeburg serão ou não inseridos nas estatísticas como crimes com motivação política é, na verdade, uma questão irrelevante. O fato é que os dois suspeitos faziam parte de um ambiente de radicalismo de direita que não valoriza a vida humana, especialmente a dos "fracos", e no qual um nível impressionante de brutalidade pode vitimar pessoas a qualquer momento. Os amigos descrevem tanto Bastian O. quanto David B. como "bombas-relógios que tiquetaqueavam", e dizem que "era apenas uma questão de tempo para que algo acontecesse". Mas ninguém procurou desativar essas bombas-relógios.

Segundo um ex-colega da Escola de Segundo Grau Sophie, na cidade vizinha de Baalberge, as simpatias de David B. pelo extremismo direitista começaram já na quinta série. Foi naquela época que ele conheceu aquele que mais tarde seria a sua vítima, Marcel W, um rapaz franzino de uma família conturbada, que era "gentil com todo mundo", mas que costumava ser vítima de ataques de garotos violentos na escola.

O ex-colega de escola diz que, enquanto Marcel acabou sendo enviado a uma casa para adolescentes com problemas na cidade de Schönebeck, David B. aparentemente transformou-se rapidamente em um "nazista de verdade", com tatuagens de extrema-direita pelo corpo inteiro. Ele costumava beber exageradamente e participar de manifestações de "resistência nacional".

Ao final de setembro de 2007, David B. mudou-se para um pequeno apartamento no último andar de um prédio no bairro de classe média de Martinstrasse, em Bernburg. A mãe de B., que atualmente mora em Munique, alugou para ele o apartamento que mais tarde seria a cena do assassinato. O lugar transformou-se rapidamente em um ponto de encontro da comunidade skinhead de Bernburg. Segundo os vizinhos, jovens skinheads usando botas de combate e carregando caixas de cerveja subiam as escadas até o apartamento quase todos os finais de semana. Eles infernizavam a vizinhança com músicas nazistas e hinos da extrema-direita até tarde da noite.

As tentativas dos vizinhos de reclamar de David B. foram aparentemente respondidas com ameaças dos neonazistas. Os moradores dizem que a polícia, cuja base fica a apenas 300 metros do edifício, acabou deixando de responder às reclamações quanto ao barulho e à desordem, ainda que David B., que, segundo os investigadores, já era uma "entidade conhecida" na comunidade extremista de direita, tivesse uma ficha criminal. Em outubro de 2007, o Tribunal Distrital de Bernburg julgou-o por danos a propriedades, agressões múltiplas e "uso de símbolos de organizações inconstitucionais". Ele foi condenado a 18 meses de "prisão suspensa", segundo a qual o apenado responde à sentença em liberdade condicional.

Neonazista alega "defesa pessoal"

David B. voltou a atrair a atenção da polícia enquanto ainda estava sob liberdade condicional. Segundo os promotores, ele atacou brutalmente a sua última vítima, Marcel W., pela primeira vez em 20 de novembro de 2007. Mas os promotores não puderam acusar B. de agressão porque Marcel W. não compareceu a duas audiências marcadas.

Segundo uma amiga próxima, Marcel estava "apavorado" com os neonazistas. A amiga conta que, em diversas ocasiões, o rapaz, que tinha apenas 1,65 metro de altura e cujo último emprego foi em uma oficina de bicicletas, escondeu-se do violento David B. no apartamento dela. O tribunal marcou uma terceira audiência para a terça-feira da semana passada às 14h30, e ordenou a W. que comparecesse para depor.

Mas àquela altura Marcel W. já estava morto.

Ele foi visto pela última vez, nas horas anteriores à sua morte, na discoteca Bernabeum. Os amigos de Marcel dizem que não conseguem entender como o rapaz foi parar no apartamento do suposto assassino, mas acreditam que ele permitiu que B. "o convencesse a ir até lá, talvez para beber ou qualquer coisa parecida".

Mas David B., o neonazista suspeito de cometer assassinato, disse aos promotores que Marcel "invadiu" o seu apartamento na noite de sábado, e que teve que matá-lo "em defesa pessoal" - esfaqueando-o diversas vezes. No momento do assassinato, David B., que agora está preso como suspeito aguardando julgamento, estava completamente bêbado, e só depois de 24 horas pôde ser interrogado.

O caso de David B. traz uma semelhança chocante com uma outra ação sangrenta ocorrida apenas oito dias antes em Magdeburg. Os investigadores dizem que Bastian O., o principal suspeito, era também uma "figura importante" no cenário neonazista. Segundo a promotoria, o rapaz de 20 anos tem uma suástica tatuada na coxa, e a sua ficha criminal registra uma série de ações violentas. Em 16 de maio de 2006, o Tribunal Distrital de Magdeburg condenou-o a 18 meses de prisão em uma unidade de detenção de jovens, sem direito a apelação, por incitamento de ódio racial, roubo, extorsão predatória e agressão qualificada.

Em fevereiro de 2006, Bastian O. afrontou um estudante de Togo com frases racistas, espancou-o brutalmente e, finalmente, fez com que o seu cão atacasse a vítima. Quando estava encarcerado na Prisão Juvenil de Rassnitz, O. atacou um outro prisioneiro e foi condenado a passar mais dois meses na cadeia.

Quando foi libertado, em fevereiro, ele mudou-se para um prédio no bairro de Leipziger Strasse, em Magdeburg, a menos de três quilômetros do local em que o crime seria cometido. Na portaria do prédio de apartamentos há grafites feitos por hooligans, e a porta do apartamento ao lado da quitinete de O. está arrombada e tem marcas de solas de botas de combate.

Segundo um vizinho, os outros moradores daqui viviam com "medo constante" do "nazista perigoso" e dos seus comparsas. Segundo ele, os extremistas de direita, que ficavam no segundo andar do prédio, jogavam garrafas de cerveja em pedestres e carros, até que a polícia prendeu O. em 18 de agosto e lacrou o seu apartamento.

As provas contra o suposto criminoso parecem indubitáveis. Traços do DNA do estudante de artes Rick L. foram encontrados na roupa de O., e os investigadores acharam também objetos da vítima no apartamento do neonazista. Testemunhas dizem ainda ter visto o neonazista e o estudante de pensamento liberal em uma discoteca próxima, a Funpark, pouco antes do assassinato.

O próprio Bastian O., que no início recusou-se a tecer comentários a respeito das acusações, teria admitido perante os investigadores que teve uma discussão com Rick L. na discoteca, e que o estudante chamou-o de "nazista". Quando procurado por "Der Spiegel", o advogado de O. não quis comentar as acusações contra o seu cliente.

Amigos e cidadãos preocupados colocaram flores e penduraram cartazes - o tipo de demonstração que sempre se segue a tais crimes - perto dos arbustos nos quais Rick L. agonizou há duas semanas.

Mas não houve nenhuma indignação popular. A imprensa local limitou-se a noticiar o caso como sendo um "assassinato de discoteca". UOL

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