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20/09/2008

Crise nos EUA: "O mundo como nós o conhecemos está desabando"

Der Spiegel
Marc Pitzke
Em Nova York (EUA)
Na verdade, o plano original previa uma dose de humor. Na noite da última quarta-feira, a atriz Christy Carlson Romano deveria tocar a campainha de fechamento do pregão na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), para marcar a estréia do musical da Broadway "Avenue Q". Ela faz dois papéis no palco - uma romântica assistente de jardim de infância, e uma devassa cantora de um clube noturno.

Depois de um dia como aquele, os corretores de ações bem que poderiam encontrar um pouco de alívio em algo cômico. Mais não foi isso o que aconteceu. Em vez de Christy Carlson Romano, um funcionário da NYSE usando um triste terno cinza apertou silenciosamente um botão. O sino soou e o funcionário desapareceu. Não houve acenos nem palmas. Nada do júbilo tradicional.

No final da quarta-feira, ninguém aqui estava em clima de risadas. As más notícias de Wall Street chegavam pesadas e rápidas. Todos os índices financeiros dos Estados Unidos desabavam novamente após uma breve e enganosa recuperação na terça-feira. Na sua queda brutal, o Dow Jones perdeu cerca de 450 pontos, quase a mesma queda registrada na segunda-feira, o dia mais catastróficos para os mercados de ações dos Estados Unidos desde 2001.

Os investidores voltavam as costas para o mercado e fugiam aos bandos para campos mais seguros. O preço do ouro bateu o recorde de maior valorização em um único dia.

Pânico é a palavra do momento

Os corretores abandonaram o templo da NYSE, visualmente derrotados e imunes às equipes de reportagem de estações de TV que aguardavam. Os desastrosos preços de encerramento do pregão piscavam nos letreiros eletrônicos sobre a entrada da NYSE: American Express -8,4%, Citigroup -10,9%, JPMorgan Chase -12,2%. Ícones norte-americanos escorraçados como vira-latas de rua. Até mesmo a Apple foi atingida.

"Não sei mais o que dizer", balbuciou um corretor, que consolava-se com vinho branco e cerveja juntamente com alguns colegas em um bar próximo chamado Beckett's. Todos estavam sem gravata ou paletó, mas, apesar da brisa noturna, ainda era possível enxergar uma fina camada de suor na testa do corretor. As palavras dele sintetizavam a perplexidade que tomou conta do setor.

E as coisas pioraram após o fechamento dos mercados. O Washington Mutual, o quarto maior banco dos Estados Unidos, declarou que dera início a um processo para a sua venda. O "Wall Street Journal" anunciou que o Wells Fargo e o Citigroup, o gigante do setor bancário, estavam interessados em adquirir o combalido banco de aplicações.

E a seguir veio a notícia que dominaria todas as atividades do mercado na quinta-feira: o Morgan Stanley - a venerável instituição de Wall Street e um dos dois últimos bancos de investimentos norte-americanos que restaram - havia perdido somas enormes e lutava para sobreviver. As reportagens da mídia diziam que ele estaria até em meio a conversações para um possível resgate por parte do governo ou uma aquisição por um outro grupo. Segundo os boatos, entre os possíveis compradores estariam o Wachovia e o Bank Citic, da China.

China?

"Colegas!", implorou aos telespectadores o economista Larry Kudlow, convidado do canal de economia e negócios CNBC. "Não desistam deste grande país!".

Fim de uma era

Na verdade, a impressão que sem tem é que o capitalismo dos Estados Unidos realmente estilhaçou-se. Desde 1864 o sistema bancário estadunidense divide-se entre bancos comerciais e bancos de investimentos. Mas agora isto está mudando. O Bear Sterns, o Lehman Brothers, o Merrill Lynch; da noite para o dia alguns dos maiores nomes de Wall Street desvaneceram-se como fumaça. O Goldman Sachs e o Morgan Stanley são os únicos gigantes que restaram. Apesar dos resultados trimestrais toleráveis, até mesmo eles foram atingidos por misteriosas quedas de preços e - pelo menos no caso do Morgan Stanley - preparavam-se para o fim.

"Nada será como era antes", afirmou James Allroy, um corretor que saboreava o seu chá com leite em uma Starbucks em Wall Street. "O mundo como nós o conhecemos está desabando".

Muitos fazem comparações com a Grande Depressão, o trauma nacional que passou a ser o padrão de referência para tudo o que ocorre desde aquele colapso financeiro. "Creio que há a possibilidade de este ser o pior período desde 1929", afirmou à rede de televisão CNN a lenda dos mercados financeiros Donald Trump. E o "Wall Street Journal" concordou com esta opinião, publicando uma manchete com o título: "Pior Crise Desde a Década de 1930. Nenhum Fim Ainda à Vista".

Mas o que está de fato acontecendo? Até o momento os especialistas têm se mostrado incapazes de concordar quanto a qualquer conclusão. Será que isto é o princípio do fim? Ou trata-se apenas de um ciclo doloroso, mas normal, que corrige os excessos cometidos nos anos recentes? A responsabilidade recai sobre as agências de rating, que vêm supervalorizando as instituições financeiras há tanto tempo? Ou será que especuladores manipularam os preços das ações? Afinal, suspeita-se que eles tenham provocado a última crise do mercado de ações em julho.

A única coisa quanto à qual existe certeza é que acabou a era da economia do livre mercado sem nenhum controle nos Estados Unidos. Pelo menos por ora. A quase nacionalização do AIG, a maior companhia de seguros norte-americana, com uma injeção monetária de US$ 85 bilhões - uma despesa paga pelo contribuinte - foi uma medida surpreendente. A cifra é três vezes maior do que a garantia fornecida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) quando o Bear Sterns foi vendido ao JPMorgan Chase em março.

Porém, o aspecto mais impressionante da crise desta semana é o fato de o barco salva-vidas - que Washington só usou anteriormente para salvar as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac - estar sendo fornecido por um governo cujo partido geralmente luta contra qualquer forma de intervenção governamental. Esta política está ancorada na plataforma do Partido Republicano.

"Temo que o governo tenha passado pelo ponto de não retorno", afirmou o historiador Ron Chernow ao "New York Times". "É uma ironia ver um governo defensor do livre mercado fazendo coisas que os governos democratas mais liberais jamais teriam feito nem em sonho".

Bush cancela viagem

A situação parece ser tão séria que George W. Bush cancelou na última hora duas viagens domésticas que pretendia fazer na quinta-feira. Em vez de viajar, o presidente permanecerá em Washington para discutir os "sérios desafios com os quais se deparam os mercados financeiros dos Estados Unidos". Ele disse que permanece determinado a "tomar medidas para estabilizar e fortalecer os mercados". Antes da crise, Bush pretendia participar de eventos na Flórida e no Alabama.

Até o momento, os candidatos presidenciais têm feito poucos comentários úteis a respeito da crise, tendo se limitado mais aos slogans usuais. Ambos estão pedindo de forma vaga "regulação" e "reforma" - palavras enérgicas que são quase que universalmente recebidas com aplausos.

O candidato do Partido Republicano, John McCain, foi o que mais falou sobre a questão. Na segunda-feira, ele afirmou: "A base da nossa economia é forte". Ele acrescentou que opunha-se a um resgate governamental da seguradora AIG. Mas agora McCain está prometendo novas medidas governamentais para "impedir o tipo de especulação selvagem que coloca os nossos mercados em risco". A explicação de McCain para a atual crise é a seguinte: "Corrupção e ganância desbragadas".

Mas o candidato presidencial democrata Barack Obama também não foi além das superficialidades: "Somos americanos. Já superamos duros desafios antes, e podemos fazer isto novamente".

Mas o que mais eles poderiam dizer? Afinal, os presidentes dos Estados Unidos exercem pouco influência sobre as bolsas de valores. E Wall Street espera que o próximo presidente tenha este mesmo status quo. Na quarta-feira, uma mistura quase palpável de tensão e melancolia pairava sobre o Distrito Financeiro de Nova York. O adorado bar dos corretores, o Bull Run, estava semi-vazio, e havia muitas mesas desocupadas em restaurantes finos como o Cipriani, o Mangia e o Bobby Van's. As mesas desses restaurantes são normalmente reservada com dias de antecedência.

Na entrada lateral do Goldman Sachs na Rua Pearl, motoristas de limusines aguardavam sentados os seus clientes, que ainda estavam nos seus edifícios de escritórios debruçados sobre os números. "Se eles falirem, eu também ficarei em breve desempregado", disse Rashid Amal, que trabalha como motorista para uma firma chamada Excelsior. Pânico é a palavra do momento em Wall Street. Agora até mesmo o Morgan Stanley está lutando pela sobrevivência. O banco comercial Wachovia e o Bank Citic da China estão sendo cogitados como possíveis compradores do Stanley. A crise fez com que o presidente Bush cancelasse uma viagem UOL

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