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21/10/2008

Por que os europeus amam Obama?

Der Spiegel
Beth Arnold
Desde que iniciou sua carreira há 35 anos, o autodescrito esquerdista, filósofo e jornalista Bernard-Henri Lévy nunca foi pego sem uma causa ou opinião. Ele as articulou de forma ostentosa em mais de 30 livros (incluindo o muito discutido "American Vertigo"), inúmeras aparições em televisão, artigos e até mesmo filmes que ele escreveu, produziu, dirigiu e/ou narrou. Lévy é uma espécie de Robin Hood intelectual, indo para onde há totalitarismo e/ou guerra. Ele é um defensor passional da Bósnia, entrou ilegalmente em Darfur para relatar o genocídio sudanês e seguiu a perigosa trilha de Daniel Pearl, o repórter do "Wall Street Journal", no Paquistão para escrever o best-seller do "New York Times", "Quem Matou Daniel Pearl?"

Lévy é um showman - seu narcisismo é lendário - que adiciona gasolina ao fogo de seus críticos, que o acusam de falta de idéias originais. Conhecido na França como BHL, Lévy é sua própria marca de sucesso. Ele veste alegremente o manto de intelectual polarizador juntamente com roupas sob medida da casa francesa Charvet, que também fez camisas para JFK e Marcel Proust. Ele foi recentemente citado no suplemento de moda masculina de outono da "T Magazine", do "New York Times", dizendo que não tinha interesse em sua roupa sob medida ou mesmo em falar a respeito - apesar de claramente ter concordado com esse perfil de moda, situado na Bósnia, onde estava exibindo dois documentários que filmou lá e participando de um festival infantil financiado em parte pela fundação de sua família.

Em casa na França, Lévy é tratado meio como um deus (o que não passa desapercebido por ele), conhecido pela sua boa aparência e pela riqueza de sua família tanto quanto por sua produção intelectual. Não prejudica seu perfil glamouroso o fato de ser casado com a provocativa atriz e cantora Arielle Dombasle, que às vezes é impiedosamente comparada a uma boneca Barbie. O casal divide um apartamento em um endereço chique na margem esquerda do Sena, uma casa no Sul da França e um palácio em Marrakech.

A mais recente blitz de publicidade literária de Lévy coincide com a publicação de seu mais recente livro, "Left in Dark Times: A Stand Against the New Barbarism". Quando Lévy escreveu "La Barbarie à Visage Humain" há 31 anos, seu inimigo jurado - a barbárie da qual falava - era o marxismo. No novo livro, o autor se concentrou em sua própria autobiografia intelectual, examinando sua história e identidade política e ideológica. Ele acredita que um segmento de sua família política (a esquerda) está sendo conduzida na direção errada e a ataca por ter se tornado tolerante demais - especialmente em questões como o radicalismo islâmico - e por deixar sua postura antiimperialista e desprezo pelos Estados Unidos nublar sua visão e danificar seus valores democráticos. Ele é incomum em termos franceses, porque é pró-americano enquanto muitos europeus acham que os Estados Unidos se comportam como se fossem os donos do mundo. Lévy compreende e tem apreço pela cultura americana. Ele nos entende, e tentou provar isso em "American Vertigo", seu relato sobre o estado dos Estados Unidos.

Lévy atende pessoalmente a porta de seu apartamento em Paris, um homem alto e magro vestindo sua característica camisa branca, desabotoada quase até o umbigo, sob um paletó elegante. Em seu escritório grande, revestido de madeira clara, há uma enorme escultura de metal de uma cabeça de homem com painel abrindo metade dela. Dentro, a figura é vazia - o oposto completo de seu dono.

Salon - O subtítulo de seu novo livro é "uma resistência contra a nova barbárie". Você pode explicar o que quer dizer com isso?

Lévy -
O que quero dizer com nova barbárie é grandes idéias tendo efeitos ruins. Grandes ideais se revelando as células-tronco de grandes crimes, grandes injustiças, falsidades, brutalidade e assim por diante. A barbárie há 30 anos, quando escrevi "La Barbarie à Visage Humain", era o marxismo, que fingia lutar em prol da justiça, da igualdade social, liberdade, erradicação da escravidão, e fazia exatamente o contrário. E hoje há uma nova barbárie no caso destes homens e mulheres que fingem lutar em prol da tolerância, em prol do antiimperialismo, em prol do anticolonialismo, e na verdade defendem a escravidão das mulheres, uma imensa violação de direitos humanos. Ou quando não defendem isso, eles os toleram, se recusam a denunciá-los.

Hoje há um novo mecanismo (...) por exemplo, onde em nome do antiamericanismo os crimes em Darfur não são condenados. Os crimes na Bósnia eram aceitos. E tantas guerras na África e em outros lugares são simplesmente ignoradas.

Salon - São tipos específicos de pessoas das quais você está falando?

Lévy -
Aquelas, por exemplo, que fingem ser antimundialistas - eu não sei se vocês têm isso na América? Os antimundialistas lutam contra a globalização. Antiglobalização... Eles são o lado sombrio da esquerda atual.

Agora, na minha família, que está no campo progressista -nesta família, eu observo que há uma tendência que pode chegar aos mesmos resultados- à mesma cegueira da direita. A mesma indiferença ao sofrimento real de pessoas reais, e assim por diante.

Salon - Então você está dizendo que acredita que a esquerda pode acabar cometendo os mesmos pecados da direita? Porque penso que nos Estados Unidos nós estamos lutando pela tolerância de muitos modos - tolerância aos gays, direitos civis...

Lévy -
Estas batalhas, é claro, vocês travaram. Eu travei. (...) E foram vencidas. Foram conquistadas. Barack Obama sendo um candidato à presidência e talvez - espero - eleito significa que a batalha foi vencida, mais ou menos. Francamente, um país onde o racismo é processado nos tribunais, um país onde as mulheres conquistaram o poder de impedir a discriminação e assim por diante, isso é ótimo. É uma revolução cultural imensa, que foi liderada pela América.

Mas em nome da tolerância também pode haver crimes - não cometidos, mas velados. (...) Por exemplo, aqueles que nos dizem que temos que ser tolerantes com os movimentos radicais islâmicos. Aqueles que nos dizem que ser tolerantes significa entender suas razões e justificativas. Aqueles que nos dizem que, a respeito das mulheres, cobrir o rosto de uma mulher é apenas um hábito costumeiro, que nós ocidentais não temos direito de julgar segundo o padrão dos direitos humanos. Isso é algo muito ruim.

Esta idéia de que todo hábito deve ser respeitado, todo costume deve ser aceito porque pertence a um todo, e que se for retirado um pedaço, nós partimos o todo -este é um dos efeitos contrários da tolerância. E há muitas pessoas na América que dizem, por que devemos pedir aos indianos que renunciem ao padrão de castas que pertence à cultura deles? Por que devemos obrigar que esta ou aquela tribo, pessoas na África, renunciem à excisão do clitóris da menina? Isso pertence à cultura deles...

Salon - Você estruturou o novo livro em torno do que você disse a Nicolas Sarkozy, de que não apoiaria nem votaria nele para presidente. Apesar de vocês dois serem amigos há 25 anos, você lhe disse por telefone que nunca votaria na direita, e que não tinha intenção de mudar isso. Qual é o seu relacionamento com Sarkozy agora?

Lévy -
Eu não sei. Eu não o vi de novo desde o livro. (...) Ele não acredita em idéias, de forma que não entende como alguém que foi uma espécie de camarada - eu não diria amigo, mas camarada- não vote nele. Ele ainda não entendeu, eu acho, de forma que interpreta histórias como estas em termos de traição, fidelidade. Eu não acredito nisso. A única fidelidade que você deve ter é com idéias, verdade, e há algumas circunstâncias quando um intelectual tem o dever da infidelidade -se ele é um amigo e você for contra suas idéias.

O que significa ser um esquerdista? Significa ser fiel a uma família, independente do que a família faça? A qualquer coisa que a família diga? Eu acho que não. Também há um dever de infidelidade para com a família em questão - à esquerda quando a esquerda é personificada por Noam Chomsky, ou quando é personificada por Naomi Klein.

Salon - Você definiria para o público americano o que significa ser um esquerdista? Eu gostaria de saber qual é a diferença entre alguém de esquerda na Europa e nos Estados Unidos.

Lévy -
Nos dois países, eu acho que a definição é a mesma: de ter liberdade e igualdade, os dois sonhos de liberdade e igualdade caminhando no mesmo passo. Se recusar a escolher entre os dois. Isto está escrito no lema da República Francesa, como você sabe, "Liberté, égalité, fraternité". E também está escrito no DNA do melhor da América. O sonho real de igualdade, que alimentou a batalha, por exemplo, dos direitos civis, Martin Luther King e assim por diante, e a batalha pela liberdade individual. Aqueles que pedem para escolher entre os dois - se você tem liberdade você não tem igualdade, se você tem igualdade, você não tem liberdade- para mim, estes não são esquerdistas. Esta é uma boa definição de esquerda.

Salon - Se houvesse três diferenças principais entre a esquerda e a direita, atualmente, quais você diria que seriam?

Lévy -
Acreditar ou não acreditar que igualdade e liberdade podem ser combinadas, como eu lhe disse, é uma diferença. (Outra é) acreditar ou não acreditar na política. Um direitista clássico ou esquerdista-direitista não acredita na política; ele acredita na mão invisível do mercado em um caso, na da história no outro caso -a mão invisível sendo capaz, sozinha e por conta própria, de promover a mudança, a reforma e assim por diante. Para mim, um esquerdista é alguém que acredita que uma democracia precisa ser construída com tempo, paciência, significado real e assim por diante.

E a terceira diferença para mim é não escolher as vítimas. Quando você é um direitista, você decide, por exemplo, que você têm alguns derramamentos de sangue privilegiados, algumas guerras privilegiadas com as quais você se importa e outras com as quais você não se importa. Há algumas pessoas na chamada esquerda que fazem isso -por exemplo- em Kosovo. Havia um ditador racista, neofascista lá, Milosevic. Havia uma população civil sem culpa de nada, que foi deslocada, estuprada, morta e assim por diante. E havia pessoas que, porque a América era contra Milosevic, decidiram ser a favor de Milosevic e contra a intervenção americana para impedir a coisa, e assim por diante. Esta é a falsa esquerda.

Salon - Em seu livro, você escreve: "Desde a Revolução Francesa, a palavra 'revolução', em seu significado mais puro, pelo menos na França, era a linha divisória política mais séria. A Esquerda a queria; a Direita a temia". Qual é o estado da revolução no mundo atual?

Lévy -
Depende do que você quer dizer por revolução. Se por revolução você quer dizer o sonho que predominava quando eu tinha 20 anos (nos anos 60), eu espero que este sonho tenha acabado -o sonho de reiniciar o gênero humano. Refazê-lo. Remodelá-lo completamente. (...) Esta era a velha forma de ser revolucionário.

Agora, se por revolução você quer dizer mudar o mundo a favor dos pobres, dos menos dotados, e assim por diante - se por revolução você quer dizer mais e mais democracia e democracia liberal, e não a escolha entre liberdade e igualdade, esta ainda persiste. Não o bastante. Eu espero que cresça mais.

Salon - Eu acho que se Obama for eleito, será uma revolução nos Estados Unidos.

Lévy -
De certa forma, é possível entender dessa forma. Eu pessoalmente sou a favor disso. Eu espero, se eu pudesse rezar eu rezaria, pela eleição de Obama.

Salon - Por que os europeus amam Obama?

Lévy -
Eu não sei. Eu não posso lhe dizer o motivo. A propósito, eu não amo ele. Eu quero que ele seja eleito. Não é uma questão de amor ou ódio. (...) Esta não é a melhor forma de fazer política.

Por que Obama deve ser escolhido, na minha opinião: Nº 1, porque significaria realmente o fim -e a vitória completa da batalha iniciada nos anos 60. Nº 2, porque significaria o fim de um novo mal americano, que é a divisão, a balcanização da sociedade americana. Este é outro efeito contrário de uma grande idéia, que era a tolerância. Se tolera tanto a ponto de se tolerar que a sociedade americana esteja em bolhas separadas tendo suas próprias peculiaridades, e assim por diante. Obama, como presidente, significará todas estas bolhas submetidas a um ideal real de cidadania. Esta é a mensagem dele. McCain não será capaz de fazer isso. Se McCain for eleito, eu posso dizer que os iranianos se fecharão na identidade iraniana. Os árabes se aprisionarão friamente na identidade muçulmana. Os afro-americanos acreditarão que a sociedade americana está mais e mais construída contra eles. Haverá um aumento da balcanização.

E Nº 3, há outro ideal na América de hoje, que chamo de competição das vítimas. Competição de memórias. Se você é a favor dos judeus, não pode ser a favor dos negros. Se você lembrar do sofrimento da escravidão, então não pode se lembrar demais do sofrimento do Holocausto, e assim por diante. O coração humano não tem espaço suficiente para todos os sofrimentos. Isto é o que algumas pessoas dizem. Obama diz o contrário. Significará o fim deste tópico estúpido, que é a competição da vitimização.

Salon - Se McCain for eleito, então como o mundo reagirá?

Lévy -
A única forma para a América sair da crise atual é com um mínimo de Estado de bem-estar social, de um New Deal rooseveltiano. Não será com uma redução de impostos e assim por diante. (...) Então a América reagirá mal. O mundo também reagirá mal. McCain pode não ser um mau sujeito, mas ele significará -a vitória dele significará- uma América vingativa, congelada, assustada, tímida e de retaguarda. Retaguarda. Não vanguarda. Não vitoriosa. Uma América não otimista.

Salon - Muitos americanos não entendem por que interessa o que o restante do mundo pensa a respeito de quem seja o presidente americano.

Lévy -
Porque é o país mais importante e poderoso do mundo. Mas vocês americanos não podem ser narcisistas demais. Tudo importa a todos. O próximo presidente do Irã importa para todos. Quem é presidente importa para todos. Aquele que preside um dos menores Estados do mundo, que é Israel, importa para todos. O mundo todo importa. Ainda menor -Gaza. Hamas ou não Hamas? Todo mundo fica atento a isso. Então é um princípio, uma regra nestes tempos de globalização: tudo importa para todos. O provocador francês Bernard-Henri Lévy fala sobre como a esquerda está sendo destruída pela tolerância e sobre o fascínio dos europeus pelo candidato presidencial democrata Barack Obama George El Khouri Andolfato

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