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08/11/2008

Imigrantes do sexo masculino também são forçados a se casar na Alemanha

Der Spiegel
Katrin Elger
Azad nunca vai se esquecer daquele dia em setembro de 2005. Era o dia de seu casamento em Stuttgart, mas para Azad foram horas de vergonha. "É realmente horrível quando você tem que se forçar a fazer sexo com um parente", diz o curdo de vinte anos de idade. "É doentio. Com a minha prima de primeiro grau".

Quando Azad tinha 16 anos, seus pais o informaram que era prometido a uma prima do Leste de Anatólia, que também tinha 16 anos. Quando ele se recusou, sua mãe ameaçou cometer suicídio. "Você vai me encontrar pendurada com uma corda no porão", disse ela. Aos 17 anos, Azad e a prima se casaram em uma cerimônia civil durante as férias da família na Turquia. Quando ele fez 18 anos, sua mulher veio para a Alemanha, e foram enviados convites de casamento ornados. A cerimônia de casamento ocorreu em um hotel mediano no Sudeste da Alemanha. "Foi puro terror", diz Azad.

Na Alemanha, são comuns as histórias de meninas turcas forçadas a se casar e maltratadas. Autores como Necla Kelek e Serap Çileli descreveram-nas com detalhes. Entretanto, poucos sabem que muitos rapazes muçulmanos também são forçados a se casar contra sua vontade e sujeitos à violência nas mãos de membros da família. Quase não existem programas de assistência organizados para esses jovens, e muitos têm vergonha demais para falar sobre seus destinos. Azad, cheio de temor e vergonha, não quis usar seu nome verdadeiro para esta matéria.

A escritora Çileli, ela mesma vítima de um casamento forçado, atende meninas turcas e mulheres desde os anos 90. Ela e suas colegas da Associação Peri para Direitos Humanos e Integração (www.peri-ev.de) fornecem ajuda e apoio para pessoas que estão tentando escapar de casamentos forçados. Muitas são mulheres desesperadas, mas ocasionalmente aparecem homens em busca de ajuda. Até agora, o mais jovem tinha 16 anos, e o mais velho, 48. Azad foi um deles.

"Coesão social"
O psicólogo Kazim Erdogan estabeleceu um dos primeiros serviços de atendimento para homens turcos no bairro de Neukölln, em Berlim. Ele conhece bem o problema. "Também há jovens que são pressionados, chantageados ou surrados por suas famílias", diz ele.

Algumas vítimas são nascidas na Turquia e criadas na Alemanha e se meteram com pessoas erradas, envolveram-se com drogas, roubos e a gangues. As famílias, ansiosas para retornarem seus filhos ao caminho reto, encontram para eles mulheres puras de Anatólia. Ninguém, contudo, pergunta a opinião do noivo ou da noiva.

Algumas vezes, é o noivo que é importado, como um marido honrado para uma filha. O noivo importado quase não tem poder para se opor à união, especialmente com sua família na Turquia apostando todas suas esperanças em seu futuro.

O caso de Azad representa outra variação: ele mal tinha três meses de idade quando os parentes na Turquia enviaram as primeiras fotografias de sua prima para seus pais na Alemanha. As palavras "para meu noivo" estavam escritas atrás das fotos. "Sempre achei que fosse uma piada", disse Azad, que é mecânico.

Cem, que tem 20 poucos anos, teve experiência similar, mas, como tinha uma namorada alemã, ele se recusou a se casar com a prima. Çileli conta sua história.

Sob o pretexto de sair de férias, os pais de Cem levaram o filho para a costa do mar Negro na Turquia, onde eles tiraram seu passaporte e o pressionaram até ele assinar o contrato de casamento. Quando Cem, recém-casado, voltou para a Alemanha, sua namorada Julia tentou convencê-lo a fugir. Mas ele não conseguiu romper com os pais. No final, ele ficou com a mulher e a família.

Um estudo conduzido em Berlim revelou que uma em cada cinco mulheres turcas, em uma amostra de 300, casou-se com um parente. "Esse tipo de casamento garante uma família fechada", diz Çileli.

Azad também foi pressionado pelo pai, que dizia: "Filho, precisamos ficar fortes unidos". Casar com uma prima significa fortalecer a família. De acordo com um ditado turco: "Iogurte feito em casa é mais digerível que o leite azedo de outra pessoa". "Muitos alemães não conseguem compreender como é importante a coesão social para nós", diz Azad.

"Não quero me casar"
Todos os domingos, os membros da sua família -um total de 40 ou 50 pessoas - se congregam na casa dos pais de Azad. Eles se sentam na sala em almofadas em torno de mesas baixas. Quando o pai de Azad entra na sala, todo mundo se levanta. Ele é o mais velho, a figura de autoridade. "O paxá", diz Azad.

Em um desses domingos, pouco antes de seu noivado, Azad não podia mais agüentar. "A pressão e as expectativas eram demais". Ele foi para a cozinha, onde começou a chorar. Sua irmã mais velha o seguiu e perguntou qual era o problema. "Não quero me casar", disse ele.

Na sala, a família logo compreendeu que algo estava errado. Os garfos caíram no arroz, o chá ficou frio. A cozinha foi se enchendo gradualmente de mulheres. A mãe de Azad entrou, caiu no chão e começou a chorar. Outras entraram e se uniram a ela nos ladrilhos do chão da cozinha. Azad, em pé no meio das mulheres, finalmente disse: "Está certo. Eu o farei."

Não é sempre fácil traçar uma linha clara entre um casamento arranjado e um casamento forçado. "Para minha irmã foi tranqüilo casar com um primo", diz Azad. "Mas, para mim, nunca".

A coerção vem apenas na forma de ameaça e violência física, ou já se aplica quando a pessoa simplesmente tem medo de desapontar a família e não atender as expectativas? "Alguns nunca nem mesmo imaginam que seus pais poderiam fazer uma decisão errada", diz o psicólogo Erdogan.

A família de Azad não usou de violência física para forçá-lo a se casar. A ameaça de suicídio de sua mãe instável foi pressão suficiente. "Meu pai não me bateu", diz ele, mas depois se corrigiu: "Bem, ele me batia freqüentemente. Bastante severamente, de fato. Mas não diretamente antes do casamento".

Azad concordou com a união com sua prima porque era o que se esperava dele e porque não queria desapontar a família. "Eu tinha tremendo respeito pelo meu pai", diz ele. "Eu não queria ser uma desgraça para ele".

As festividades do casamento, com 300 convidados, começaram bastante alegremente. Pela primeira vez, Azad viu seu pai dançando de forma exuberante danças curdas. "Tive uma sensação tão calorosa em meu coração naquele momento", diz Azad. "Eu pensei que aquele era meu destino, que não havia outro caminho".

Entretanto, depois de estar casado por algumas semanas, ficou claro para Azad que aquilo não estava funcionando. Ele e sua nova mulher moravam na casa dos pais. Seu quarto era ao lado do quarto da sua irmã e o marido, que vinha a ser irmão da mulher de Azad.

"Eu ia para a cama às 21h30, para que não tivesse que dormir com a minha prima. Ou então eu saía e me divertia com outras meninas", diz ele.

As mulheres não têm essa liberdade. Elas são forçadas a se sentar em casa com seus sogros, enquanto os homens podem embarcar em escapadas. E há outro problema, diz o psicólogo de Berlim Erdogan: "Alguns homens ventilam sua frustração em suas esposas e se tornam violentos". O potencial para tal frustração é especialmente alto entre noivos importados, diz ele.

Os noivos freqüentemente não estão preparados para a vida na Europa. Com seu fraco comando da língua, eles têm dificuldade de encontrar emprego e para lidar com a burocracia alemã. Isso pode causar uma confusão sobre os papéis sociais. "Para alguns, é insuportável receber ' mesada' de suas mulheres e não serem capazes de preencher um formulário", disse Erdogan.

Exílio em Munique
Azad nunca bateu na prima. Em vez disso, depois de alguns meses, ele simplesmente foi embora. "Eu não queria mais fingir que estava tudo bem em casa", diz ele. Ele já tinha tentado partir antes, mas toda vez ele voltava. Certa vez, em um abrigo para sem-teto, ele recebeu a notícia que sua mãe estava mortalmente doente. No final, ela estava simplesmente fraca. Noutra vez, Azad se meteu em "uma grande enrascada", como diz, e precisou da ajuda da família para pagar uma dívida de honra de 15.000 euros (cerca de R$ 45.000). Sua escolha era pagar a família ofendida ou ser vítima de morte por honra. O pai de Azad, proprietário de vários restaurantes turcos, pagou a soma.

Apenas quando Azad conheceu Laura, de 18 anos, por meio de amigos, ele finalmente conseguiu sair de casa. Em maio deste ano, ele simplesmente foi embora -sem identificação, sem dinheiro, sem nada. Ele se mudou para o minúsculo apartamento de Laura em Munique.

"Tínhamos tanto medo que algo ia dar errado", diz Laura, que é loura e trabalha como vendedora. "Um medo mortal", diz ele. "Quem sabe o que meu pai teria feito se tivesse nos encontrado".

Os dois estão sentados, de mãos dadas, na frente do City Lounge, na praça Karlsplatz, em Munique. Azad ainda está casado, "mas apenas no papel", diz ele. "Acabou". Está usando as roupas de quando deixou a casa dos pais -jeans, jaqueta preta, tênis Nike. Ele tem poucas roupas.

"Estamos no processo de juntar as coisas, parte por parte", diz Laura. Azad começou a trabalhar para uma agência temporária de emprego há poucos dias. "As coisas estão acontecendo", disse ele, "Lentamente, mas seguramente".

Enquanto isso, Azad conversou com a irmã ao telefone. "Meu pai nunca mais vai falar comigo, isso está claro", diz ele. "Talvez, contudo, meu relacionamento com meus irmãos se resolva". Ele diz que poderia perdoar o resto da sua família, mas nunca seu pai. "Tudo o que eles fizeram foi obedecer".

O rapaz de 20 anos não tem planos imediatos de se divorciar: os documentos que ele precisa estão em uma gaveta na casa da família em Stuttgart. Além disso, ele não tem dinheiro. "Tampouco posso fazer isso com minha prima. Não é culpa dela que tudo isso tenha acontecido", diz ele. "Retornar à Anatólia como mulher divorciada seria uma desgraça para ela".

Azad achava sua prima atraente ou legal? "Ah sim, ela é legal", diz ele. "E ela é realmente bonita. Cabelo bom e tudo mais". Então, ele coloca a mão no braço de Laura e diz: "Minha irmã também é bonita. Ainda assim não quero fazer sexo com ela". As histórias de meninas turcas forçadas a se casar na Alemanha são famosas. Contudo, quase ninguém fala sobre os homens que são forçados a se casar -algumas vezes com pressão, chantagem ou violência física Deborah Weinberg

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