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24/11/2008

Um giro infinito no cérebro

Der Spiegel
Da Der Spiegel
"Ninguém pode imaginar como isso é na realidade", diz Jill Price, 42, "nem mesmo os cientistas que estão me estudando".

A californiana, que tem uma memória quase perfeita, tenta descrever como é ser assim. Ela começa com uma pequena demonstração de sua capacidade. "Quando você nasceu?", pergunta.

Ela ouve a data e diz: "Ah, foi numa quarta-feira. Houve uma frente fria em Los Angeles dois dias depois, e minha mãe e eu fizemos sopa".

Price está sentada à mesa no The Grill, um restaurante em Beverly Hills. Ela é uma mulher de constituição forte, com cabelos loiros e grandes olhos azuis. Ela usa uma grande quantidade de jóias - brincos de argola de ouro, braceletes de prata e uma estrela de Davi balançando numa correntinha no pescoço, que ela alisa freqüentemente com os dedos enquanto fala. Price administra uma escola religiosa numa sinagoga próxima a Los Angeles.

Ela disse que o restaurante é um dos seus favoritos nos últimos 23 anos - desde 20 de setembro de 1985, para ser exata. Era uma sexta-feira. "Eu estava sentada com o meu pai naquela mesa, comendo frango com alho. Eu usava um chapéu grande."

Nesta quarta-feira ela pediu um filé de peixe com creme de espinafre e uma soda, mais um detalhe que ela lembrará para sempre. As palavras ditas durante a refeição, o rosto do seu acompanhante, o caderno vermelho, as lamparinas de vidro esverdeado na mesa, o jeito reservado e polido do garçom de cabelos grisalhos - tudo isso ficará impresso para sempre em sua memória, e ela não pode fazer nada a respeito.

Price pode repetir, sem hesitação, o que viu ou ouviu em praticamente qualquer data. Ela se lembra de muitas experiências do começo da infância e de quase todos os dias entre as idades de 9 e 15 anos. Depois disso, não há praticamente nenhuma falha em sua memória. "A partir de 5 de fevereiro de 1980, eu me lembro de tudo. Foi uma terça-feira."

Ela também pode dizer a data de eventos que foram noticiados pela imprensa, desde que tenha ouvido falar deles na época. Quando e onde ocorreu o acidente com o Concorde? Quando O.J. Simpson foi preso? Quando começou a segunda guerra do Golfo? Price não precisa nem parar para pensar. Ela pode discorrer sobre datas, números e histórias inteiras sem esforço.

"As pessoas me dizem: Nossa, é fascinante, deve ser uma dádiva ter uma memória tão perfeita", diz. Seus lábios curvam-se num leve sorriso. "Mas também é agonizante".

Além das boas memórias, todas as palavras enraivecidas, os erros, decepções, choques e momentos de dor não são esquecidos. O tempo não cura nenhuma ferida para Price. "Não olho para o passado com nenhum distanciamento. É como vivenciar tudo de novo e de novo, e essas memórias despertam exatamente as mesmas emoções em mim. É como um filme caótico sem fim capaz de me arrebatar por completo. E não tem um botão para parar".

Ela é constantemente bombardeada por fragmentos de memórias, exposta a um processo automático e incontrolável que se comporta como uma repetição infinita num computador. Às vezes há motivações externas, como um determinado cheiro, música ou palavra. Mas freqüentemente suas memórias voltam por conta própria. Cenas bonitas, horríveis, importantes ou banais passam no seu caótico "monitor interno", às vezes tomando o lugar do presente. "Tudo isso é incrivelmente exaustivo", diz Price.

E pode acontecer que Price, enquanto está no restaurante, de repente se sinta de novo como uma menina de 4 anos que deveria visitar os produtores de "Vila Sésamo" no estúdio com sua classe do jardim da infância. Seu pai, um agente que representava o criador dos Muppets, havia organizado a excursão. Mas quando a data foi se aproximando, Jill pegou uma amigdalite e não pode ir.

"Em retrospecto, eu sei, é claro, que isso não foi grande coisa", diz ela, girando nervosamente seu colar. "Parece ridículo, mas quando eu me lembro disso, experimento a mesma infinita decepção e a raiva que senti quando era criança".

Será que alguém que não pode esquecer pode amar? Será que eles podem perdoar, aos outros ou a si mesmos? A vida de Price teve sua cota de sofrimento, incluindo conflitos familiares, o câncer de sua mãe e, mais tarde, a morte súbita de seu marido Jim. Por causa das memórias ruins que a assombravam, ficou cada vez mais deprimida e com medo enlouquecer, então se sentou na frente do computador em 5 de junho de 2000 (uma segunda-feira) e digitou apenas uma palavra no Google:
memória.

Foi assim que Price conheceu James McGaugh, e tornou-se parte de um estudo de caso científico.

Memória semântica versus memória episódica

McGaugh, 76, parece um avô amistoso e brincalhão. Ele faz cavalos de balanço de madeira para seus netos. Toca clarineta e saxofone em bandas de jazz. E também é um dos maiores especialistas em memória dos Estados Unidos. Ele fundou o Centro de Neurobiologia do Aprendizado e Memória na Universidade da Califórnia em Irvine, e escreveu mais de 500 artigos acadêmicos e vários livros. As paredes de seu escritório são cobertas de prêmios e títulos. Como muitos grandes cientistas de sua idade, ele não tem planos de se aposentar.

"Eu não acreditei, é claro, quando Jill me contou a história dela", diz McGaugh, um homem magro e grisalho, de óculos. "Mas passei a maior parte da minha vida estudando os mecanismos do cérebro que estão associados com o desenvolvimento das memórias duradouras. Então achei que eu devia pelo menos me encontrar com a mulher".

McGaugh e sua equipe perceberam então que estavam diante de um caso exótico, talvez até mesmo de uma sensação científica. Por esse motivo, realizaram uma pesquisa ampla, e durante cinco anos submeteram Price a uma bateria de testes neuropsicológicos, vasculharam a literatura profissional sobre casos similares e desenvolveram questionários específicos que os permitisse testar a memória dela.

Certa vez pediram que ela escrevesse as datas dos feriados de Páscoa de 1980 a 2003. "Ela levou 10 minutos, e só errou uma das 24 datas, por uma questão de dois dias", diz McGaugh. Ele fez com que Price repetisse o teste dois anos depois, e da segunda vez ela acertou todas as datas. "Eu achei que isso era particularmente impressionante", diz McGaugh, "porque ela é judia. A Páscoa não significa nada para ela."

Os cientistas foram capazes de verificar os dados autobiográficos de Price porque ela havia mantido diários meticulosos desde os 10 anos de idade. Ela preencheu mais de 50 mil páginas com uma caligrafia miúda, documentando todos os acontecimentos, não importa o quão insignificantes. Escrever as coisas ajuda Price a organizar as idéias e imagens que pairam em sua cabeça.

De fato, ela sente uma forte necessidade de documentar sua vida. Isso inclui guardar todas as recordações possíveis de sua infância, incluindo bonecas, animais empalhados, fitas cassete, livros, uma gaveta da penteadeira que ela tinha aos cinco anos. "Preciso ser capaz de tocar as minhas memórias", explica Price.

McGaugh e seus colegas concluíram que a memória episódica de Price, ou seja, sua capacidade de recordar experiências pessoais e emoções associadas a elas, é praticamente perfeita. Um caso como esse nunca foi descrito na história da pesquisa de memória, de acordo com McGaugh. Ele explica que Price difere em muito de outras pessoas com poderes especiais de memória, como autistas inteligentes, porque ela não usa nenhuma estratégia que a ajude a se lembrar das coisas e até se sai surpreendentemente mal em alguns testes de memória.

É difícil para ela memorizar poemas ou séries de números - o que ajuda a explicar porque ela nunca se sobressaiu na escola. Sua memória semântica, a capacidade de lembrar fatos não diretamente relacionados com a vida cotidiana, está apenas na média.

Há dois anos, os cientistas publicaram suas primeiras conclusões num jornal de pesquisa, sem revelar a identidade de seu objeto. Desde então, mais de 200 pessoas contataram McGaugh, todas alegando ter uma memória episódica igualmente perfeita. Descobriu-se que a maioria era de impostores. Mas três pessoas de fato parecem ter as mesmas habilidades surpreendentes. "Suas personalidades são muito diferentes. Os outros não são tão ansiosos quanto Jill. Mas eles atingem resultados semelhantes nos testes", diz McGaugh.

Todos os casos parecem ter alguns traços compulsivos em comum, diz McGaugh, principalmente a coleção compulsiva. Os outros três são canhotos, e Price também mostrou uma tendência para isso nos testes.

O que isso significa? McGaugh é cauteloso. "Por enquanto, estamos apenas descrevendo o que vemos".


"Maior do que eu"

Em termos neurobiológicos, uma memória é o registro de um padrão de ligações entre as células nervosas no cérebro. Ela é criada quando as sinapses de uma rede de neurônios são ativadas por um determinado período. Quanto mais vezes a memória for ativada depois disso, é mais provável que se desenvolvam conexões permanentes entre as células nervosas - e o padrão será registrado como uma memória de longo prazo. Em tese, há tantas ligações possíveis que um número quase ilimitado de memórias pode ser guardado de forma permanente.

Então, porque todas as pessoas não têm os mesmos poderes de memória de Jill Price? "Se nós pudéssemos nos lembrar de tudo tão bem, o cérebro seria infrutiferamente sobrecarregado e trabalharia mais devagar", diz McGaugh. Ele diz que esquecer é uma condição necessária para ter uma memória viável - exceto no caso de Price e dos outros três super astros da memória.

Para McGaugh, há outra razão pela qual as pessoas com essa memória fenomenal também são intrigantes. Elas desafiam a teoria sobre a qual seu estudo foi baseado durante a última metade de século. Essa teoria, baseada em observações clínicas, diz que as memórias são guardadas em grande detalhe e têm maior poder de duração quando estão ligadas à emoção.

As sensações são processadas emocionalmente na amídala, uma parte específica do sistema límbico do cérebro. Lá, e também no hipocampo, são tomadas as decisões em relação a que informações devem permanecer na memória de longo prazo. Quanto mais forte for a ativação da amídala, maior é a possibilidade de uma memória permanente. "Mas aqui temos essas quatro pessoas que parecem violar esse princípio, porque elas também se lembram das coisas mais banais e inconseqüentes", diz McGaugh. Ele suspira. "Eu mesmo não consigo lembrar quando Bing Crosby morreu, mesmo que eu tenha lido sobre isso umas cinco vezes até agora".

McGaugh, junto com seu colega Larry Cahill e outros pesquisadores da Universidade de Harvard, está avaliando atualmente imagens de ressonância magnética dos cérebros dos quatro indivíduos. Os cientistas já descobriram algumas peculiaridades estruturais, que planejam publicar em breve. Cerca de uma dúzia de áreas do cérebro da mulher prodígio são aparentemente maiores do que das pessoas normais.

Um dia Jill Price espera aprender mais sobre o que a torna tão diferente das outras pessoas. Talvez ela também possa contribuir com avanços significativos no estudo da memória.

"Pelo menos, trabalhar com esses cientistas dá algum sentido à minha condição", diz Price. E então ela diz algo que pode soar surpreendente, vindo de uma mulher cujos pensamentos giram constantemente dentro de sua cabeça. "Isso é maior do que eu". Não seria o máximo ser capaz de se lembrar de tudo? De ver os nossos momentos mais importantes, todos os nossos preciosos encontros, aventuras e vitórias? E se a memória nunca se extinguisse e pudesse ser recuperada a qualquer momento? Eloise De Vylder

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