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23/12/2008

Ingrid Betancourt: "Sinto-me constantemente ameaçada"

Der Spiegel
A política franco-colombiana de 46 anos que foi ex-refém das Farc, e que atualmente mora na França fala sobre a sua visita recente à América Latina, o tempo que passou no cativeiro e os seus planos para superar o sofrimento pelo qual passou.

Spiegel: Recentemente você visitou a Colômbia pela primeira vez desde que foi libertada do cativeiro cinco meses atrás. Os medos antigos retornaram?

Betancourt:
Assim como muitos ex-reféns, eu sofro de desordem do estresse pós-traumático. Se ouço o barulho de um avião voando baixo, tenho que correr até um vaso sanitário para vomitar. É uma espécie de reflexo.

Spiegel: Você presenciou muitos ataques aéreos durante o cativeiro?

Betancourt:
Quando ouvíamos o barulho do motor de um avião ou helicóptero na selva, empacotávamos tudo e fugíamos imediatamente. O medo era terrível. O que poderíamos deixar para trás? Mesmo quando uma pessoa encontra-se no cativeiro, ela possui dois ou três pertences aos quais é muito apegada. No meu caso havia uma camisa, uma calça, a minha bíblia e o meu rádio.

Spiegel: Então, no fundo você ainda não se sente de fato livre?

Betancourt:
Às vezes o som de uma voz - sentenças curtas e autoritárias, proferidas como em um interrogatório - é suficiente para fazer com que eu me sinta gelada por dentro. É que isso me lembra o tom de comando das vozes dos meus guardas, e me bloqueia.

Spiegel: Quando retornou à Colômbia, você sentiu medo dos rebeldes das Farc? Afinal, agora você é considerada um "alvo militar".

Betancourt:
Sinto-me constantemente ameaçada por eles. Estou protegida na França, mas na Colômbia tínhamos que modificar constantemente as nossas rotas de viagem e a rotina diária. As autoridades de segurança certificavam-se de que a minha agenda não se tornasse previsível.

Spiegel: Os guerrilheiros ainda têm tanta influência?

Betancourt:
Não há dúvida de que as Farc foram enfraquecidas. A liderança do grupo não consegue mais se reunir; a pressão militar obriga-os a mudar freqüentemente de acampamentos. Isso prejudica a tomada de decisões e enfraquece a organização. No entanto, devido ao tráfico de droga, eles ainda dispõem de muito dinheiro. E isso é suficiente para que sobrevivam por muito tempo.

Spiegel: Você criou uma fundação cujo objetivo é promover o entendimento e a tolerância. O que isto significa em termos concretos?

Betancourt:
Estamos dando início a um projeto na Colômbia em Calamar, uma pequena cidade que não fica longe de Tomachipán, onde eu fui mantida em cativeiro. Foi de lá que vieram os guerrilheiros que me vigiavam para que eu não fugisse. Durante as nossas conversas, ficou claro para mim que eles não se juntaram aos rebeldes porque eram comunistas - e sim porque estavam famintos. Não havia empregos na área - na melhor das hipóteses as meninas podem tornar-se prostitutas, e os jovens trabalham todos para os barões da droga nas plantações de coca. Nós queremos criar vagas para treinamento e proporcionar a essas pessoas uma educação de melhor nível. Elas estão sendo matriculadas em uma escola na qual podem aprender uma profissão.

Spiegel: Que tipo de trabalho você vai fazer em relação ao seu passado?

Betancourt:
Em algum momento vou contar em um livro aquilo pelo qual passei, mas preciso de tempo para isso. Esta é uma questão que passa pelas profundezas da minha alma. Quando lembro do que aconteceu, sou obrigada a superar vários bloqueios mentais. Vou me isolar em um lugar tranqüilo para escrever, onde não seja perturbada pelo telefone, por e-mails e onde a única companhia seja a minha mãe. A segunda coisa que quero escrever é uma peça - que na verdade já está escrita, pelo menos na minha cabeça. Ela fala das coisas terríveis pelas quais passei e sobre as pessoa que conheci. Mas serão pessoas fictícias e deixarei que elas falem o que quiserem. UOL

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