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07/01/2009

O terrorismo, e não a Índia, é o nosso inimigo

Der Spiegel
Susanne Koelbl
Do Der Spiegel
Há três meses o general Ahmed Shujaa Pasha foi nomeado diretor do ISI, a agência de inteligência paquistanesa conhecida pela sua independência. Ele dá a impressão de ser um indivíduo cosmopolita e diz que recebe as suas ordens do governo civil do país. Mas até que ponto Pasha controla a sua organização?

Uma nova guerra parece estar em gestação entre o Paquistão e a Índia, duas potências nucleares. Os paquistaneses alegam que aviões de caça indianos estão invadindo o seu espaço aéreo, e especialistas normalmente moderados têm ido à televisão para exigir "vingança" devido às "falsas acusações" que viriam de Nova Déli. Em Muzaffarabad, a capital da zona da Caxemira administrada pelo Paquistão, islamitas furiosos de longas barbas e túnicas que vão até o chão fazem passeatas nas ruas, erguendo os punhos tanto contra os seus inimigos na Índia quanto para o seu próprio governo, e jurando vingança pelo fato de as autoridades terem banido a sua organização islâmica de caridade, que era suspeita de possuir vínculos com o terrorismo.

O general de 57 anos, sentado no seu escritório de terceiro andar em Islamabad, é um homem baixo e vigoroso, que traz o cabelo cuidadosamente repartido. Ele sorri. Em vez de um uniforme militar, o comandante da famosa agência paquistanesa de inteligência militar, o Inter-Services Intelligence (ISI), usa um terno cinza com uma elegante gravata rosa. Ele descansa os cotovelos confortavelmente sobre uma grande mesa de walnut, uma madeira escura.

Se existe uma pessoa no Paquistão que sabe de fato qual é a possibilidade de o país mergulhar em um conflito militar com a Índia, esta pessoa é o general Ahmed Shujaa Pasha. "Não haverá guerra", diz ele confiantemente. "Estamos nos distanciando do conflito com a Índia, tanto neste momento quanto de forma geral".

As suas palavras parecem promissoras, e as sentenças são marcadas por uma calma incomum para um oficial militar de alta patente que se pronuncia durante este período tenso que se segue aos ataques terroristas de Bombaim. As suas palavras contrastam fortemente com as opiniões da maioria dos outros oficiais, que estão ansiosos para que os seus postos de comandos sejam transferidos para a fronteira oriental do país com a Índia o mais rapidamente possível, para que se vinguem dos insultos públicos proferidos pelos indianos.

Tal transferência também lhes daria uma oportunidade de reduzir a frente impopular contra o Taleban e os seus aliados nas regiões tribais no oeste do Paquistão. Muitos oficiais militares paquistaneses não vêem o Taleban como um inimigo, mas sim como um grupo que promove secretamente os interesses paquistaneses na sua resistência contra Cabul e os Estados Unidos. Já a Índia foi inimiga do Paquistão em três guerras.

Pasha afirma que também tem "dúvidas". Segundo ele, até o momento os indianos não foram capazes de apresentar provas que corroborassem as suas alegações de que grupos paquistaneses patrocinados pelo ISI estariam por trás dos ataques de Bombaim. "Eles não nos forneceram nada. Nem números, nem conexões, nem nomes. Isto é lamentável". Pasha insiste que estava disposto a viajar até Nova Déli para ajudar na investigação.

Caso tivesse feito isso, Pasha teria sido o primeiro diretor-geral do ISI a viajar à índia, uma visita que teria sido uma pequena sensação. Mas, em vez disso, ele ficou em casa, cedendo às pressões das velhas antipatias. "Muita gente aqui simplesmente não está pronta", diz ele.

Pasha faz uma pausa momentânea. "No início acreditamos que haveria uma reação militar. Após os ataques os indianos estavam profundamente ofendidos e furiosos, mas eles são também inteligentes", explica o diretor do ISI. O general pressiona as duas mãos uma contra a outra e inclina-se para gente para enfatizar as suas palavras. "Podemos ser loucos no Paquistão, mas não estamos totalmente malucos. Sabemos muito bem que o terrorismo, e não a Índia, é o nosso inimigo".

Pasha vem comandando o ISI nos últimos três meses. Antes disso, ele foi o general a cargo das operações contra militantes extremistas nas regiões tribais da fronteira com o Afeganistão. A agência que ele atualmente chefia foi comparada a uma caixa preta contendo segredos que não seriam conhecidos sequer pelo governo civil em Islamabad.


Capaz de fazer tudo no país e no exterior
Acredita-se que o ISI tenha fraudado eleições e derrubado governos, e a agência é suspeita até mesmo de envolvimento com o assassinato de políticos que deixaram de agradar ao sistema. Com a sua história de décadas de negócios dúbios e intrigas, acredita-se atualmente que o ISI seja capaz de fazer tudo, tanto no país quanto no exterior.

Pasha diz que deseja restabelecer a credibilidade da sua agência. A dissolução da chamada ala política do serviço, cujas atividades incluíam a espionagem de figuras chave do governo, é vista em parte como a concessão militar ao novo governo civil do país. Mas o primeiro-ministro Yousuf Raza Gilani conheceu os limites da boa-vontade do ISI no verão passado, quando anunciou a sua intenção de colocar a agência sob o controle do Ministério do Interior. Gilani cancelou rapidamente os seus planos após receber um telefonema do poderoso comandante das forças armadas do Paquistão, general Ashfaq Pervez Kayani.

O general Pasha pede que seja trazido chá, que é servido em xícaras de porcelana inglesa branca. Com a cara mobília de madeira, os sofás elegantes e a gigantesca tela plana de televisão, o escritório dele parece mais uma sala de conferências em um hotel norte-americano de cinco estrelas do que o centro de comando de uma agência de inteligência.

Pasha intercala a sua fala constantemente entre o inglês e um alemão surpreendentemente destituído de sotaque. Ele morou na Alemanha durante alguns anos na década de 1980, quando participou de programas de treinamento de oficiais militares.

"Está completamente claro para mim e para o comandante do exército que este governo precisa ser bem sucedido. Caso contrário teremos muitos problemas neste país", afirma ele solenemente, colocando as mãos próximas uma da outra sobre a mesa. "O resultado seriam problemas na região ocidental e oriental do país, desestabilização política e problemas com os Estados Unidos", continua ele, franzindo a testa. "Quem não apóia este governo democrático simplesmente não entende a situação atual". Como se fizesse uma confissão, ele acrescenta: "Eu converso regularmente com o presidente e recebo ordens dele".

Mas até que ponto Pasha controla a sua própria organização? Muitos oficiais, que cresceram em meio à ascensão do fundamentalismo islâmico e à idéia de que a Índia é um país inimigo, opõem-se à nova rota adotada pelo presidente Asif Ali Zardari, o viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto. Eles vêem a guerra contra o terrorismo como uma guerra dos Estados Unidos, e não do Paquistão. "Muitos podem pensar de forma diferente, e todos têm o direito de ter opiniões diferentes, mas ninguém pode ousar desobedecer a um comando ou até mesmo fazer algo que não tenha sido ordenado", diz o general em voz baixa.

Pasha aparece no canto direito de uma foto que correu o mundo. Do lado dele está o comandante do exército Kayani. Na foto, os dois, juntamente com comandantes militares dos Estados Unidos, estão de pé no convés do porta-aviões norte-americano Abraham Lincoln. O encontro ocorreu no final de agosto, e os norte-americanos teriam chegado a um acordo com os paquistaneses no sentido de obterem autorização para combater a liderança da rede terrorista nas regiões tribais com aviões não tripulados armados, enquanto Islamabad agiria teatralmente, protestando em voz alta contra a violação da soberania paquistanesa.

O general nega que isso tenha ocorrido. "Jamais discutimos isso, e eu tampouco concordei com tal coisa", explica ele, sacudindo a cabeça de um lado para o outro. "Mas, para ser honesto, o que podemos fazer contra os ataques realizados pelos aviões não tripulados? Deveríamos combater os norte-americanos ou atacar uma base militar afegã, porque é de lá que estas aeronaves estão vindo? Somos capazes de vencer tal luta? Isso beneficiaria o Paquistão?".

Um major aparece na porta, indicando que o tempo de entrevista de Pasha está acabando. O general olha para o seu relógio e faz um sinal para o major, indicando que precisará de mais cinco minutos.

Antes da nomeação de Pasha, as relações entre norte-americanos e paquistaneses atingiram o seu patamar mais baixo. Naquela época, o ISI era ainda comandado por um amigo próximo do ex-presidente Pervez Musharraf, o general Nadeem Taj. A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) apresentou um dossiê a Islamabad descrevendo contatos estreitos entre agentes do ISI e o Taleban e líderes insurgentes radicais como os do clã Haqqani. A CIA também advertiu sobre a possibilidade de ataques dos Estados Unidos.


Superando antigas divisões

Nos últimos sete anos, os norte-americanos forneceram cerca de US$ 11 bilhões ( ? 8 bilhões) aos paquistaneses em troca do apoio destes na guerra contra o terrorismo. As forças armadas dos Estados Unidos dependem bastante de fontes fornecidas pelo ISI, que, além dos cerca de 10 mil funcionários regulares, conta com uma ampla rede de espiões e informantes. Após o novo regime ter assumido o poder, todos aprovaram o cosmopolita Pasha, que recentemente convenceu os líderes tribais da região fronteiriça de Bajaur a organizarem as chamadas Lashkars, ou milícias tribais armadas, contra os extremistas.

Pouco após assumir o novo cargo, o general de três estrelas viajou aos Estados Unidos para reunir-se com os seus congêneres naquele país. Mas primeiro ele visitou o chefe da inteligência afegã, Amrullah Saleh, que disse a "Der Spiegel" há alguns meses que contava com "montanhas de provas" de que a agência de inteligência do Paquistão estaria por detrás da insurgência no seu país. O encontro durou mais de quatro horas, e, no final, Saleh aceitou um convite para ir a Islamabad.

Pasha aparentemente defende a superação de antigas divisões. No entanto, vale a pena escutar atentamente quando o general explica por que ele também não está disposto a prender a liderança do Taleban, ainda que muitos aleguem que o líder do movimento, Mullah Omar, por exemplo, esteja em Quetta, uma cidade na qual Pasha morou alguns anos atrás. "Eles não deveriam ter permissão para pensar ou falar o que desejarem? Eles acreditam que a jihad é a sua obrigação. Isto não é liberdade do opinião?", questiona o general, defendendo os extremistas, que estão enviando uma quantidade cada vez maior de alunos de escolas islâmicas para lutar na guerra do Afeganistão.

Tais palavras de Pasha trazem à tona velhas suspeitas de que o ISI estaria fazendo um jogo duplo.

O major surge novamente na porta, mas desta vez ele não recuará. Pasha levanta-se e ajeita o seu terno cinza. Qual seria a solução para esta região, que corre o risco de mergulhar no caos? Ele acredita firmemente na coalizão do Ocidente com o Paquistão, e está convencido de que, através do trabalho conjunto, todos serão capazes de derrotar o terrorismo. Mas Pasha acrescenta que isso não acontecerá de forma precisa e segundo um plano, conforme é comum na Alemanha. O general sorri polidamente, e, a seguir, fecha a porta do elevador.

Tradução: UOL

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