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16/01/2009

Começa julgamento pelo homicídio de aluna de intercâmbio na Itália

Der Spiegel
Alexander Smoltczyk
Será iniciado um julgamento na cidade italiana de Perúgia pelo assassinato brutal, cometido no meio aparentemente idílico de escolas de idiomas e alunos de intercâmbio. O assassinato de Meredith Kercher, de 21 anos, abalou a Itália como poucos outros crimes.

Nesta sexta-feira (16/1), será iniciado em um alto tribunal de Perúgia, Itália, o que promete ser o julgamento do ano. É um dos casos de assassinato mais obsceno de todos os tempos e há mais de um ano abala a Itália. Não são as circunstâncias excitantes - o fato de envolver estudantes atraentes com futuros promissores com rostos que poderiam ser confundidos com a Madonna de Bellini, ou de sexo e drogas terem feito parte da mistura - que mexem com as pessoas. Sua consternação vem do fato do assassinato estar além da explicação racional.

Até agora, nenhum motivo foi descoberto para o homicídio, cometido na cidade universitária de Perúgia, na região central da Itália da Úmbria. Não há arma do crime, nem confissão, nem testemunhas estelares. Há apenas a simples circunstância de um corpo morto, encontrado aproximadamente à 1h da manhã do dia 2 de novembro de 2007. As pernas do corpo estavam afastadas, a camiseta ensanguentada acima dos seios, a cabeça virada para a esquerda, com os olhos fixos, o osso hióide quebrado e o pescoço seccionado por uma corte longo profundo.

A vítima, Meredith Kercher, que foi criada em Coulsdon, Inglaterra, tinha 21 anos na época de sua morte. Ela tinha completado seis semestres na Universidade de Leeds e estava inscrita para várias semanas na Universidade para Estrangeiros em Perúgia. Ela estava morando em um apartamento na Via della Pergola No 7 -a cena do crime, logo abaixo da universidade, com uma vista para as montanhas da Úmbria.

Com a abertura do tribunal nesta semana, o país acompanhará fascinado - como se estivesse olhando para o abismo.

Perúgia é uma cidade que parece tirada de um livro de fotos da Itália; é completa, com arcos, escadarias e vielas em curva. A aliança de casamento da Virgem Maria é guardada na catedral. De outra forma, não há nada de extraordinário na cidade, exceto que há seringas descartáveis atrás do caixa da farmácia perto do tribunal e que muitos clientes pedem as siringas e saem, sem um sorriso ou um "até logo". De fato, Perúgia tem a dúbia distinção de ter o mais alto índice de mortes relacionadas a drogas entre as cidades italianas.

Perúgia é um destino comum para jovens desejosos de aprender a língua de Dante e do astro pop Eros Ramazzotti, inclusive com os gestos correspondentes. Meredith Kercher, era uma dessas. Filha de um jornalista musical do Sul da Inglaterra e participante do programa de intercâmbio universitário da Europa Erasmus, ela aprendia rapidamente. Mas não teve a chance de aprender a língua antes de ser encontrada morta.

É fácil conhecer pessoas nos bares, boates e praças públicas da cidade, assim como é fácil desaparecer, porque Perúgia é uma cidade cheia de estrangeiros que frequentemente partem tão rápido quanto chegam. Os perpetradores dos ataques terroristas do "setembro negro", nas Olimpíadas de Munique de 1972, preparam-se para sua missão nesta cidade. E Ali Agca aprendeu suas primeiras palavras de italiano aqui, antes de atirar contra o papa em 1981. Foi também o lar temporário de Amanda Knox.

Knox, 21, que tem a aparência de uma menina americana típica, é vivaz e extrovertida, alegre e articulada. Ela lê "Harry Potter" e canta músicas dos Beatles ao violão. Em Seattle, onde cresceu, a idade legal para beber é 21. Perúgia, contanto, é diferente, um ambiente misto de famílias afluentes e pequenos traficantes, alunos do Erasmus, a futura elite e a "Punkabestia" -punks com cães.

Não há pais com quem se preocupar, apenas quantidades infinitas de tempo e multidões de pessoas, todas na mesma posição e que provavelmente nunca voltarão a se ver novamente. A bela americana sabia que encantava os homens. Ela gostava disso e até mantinha um histórico de seus primeiros encontros. Perúgia era a liberdade, e tudo parecia possível ali.

Amanda Knox e Meredith Kercher dividiam o apartamento na Via della Pergola com duas outras mulheres. Knox alega que foi a primeira a perceber que algo não estava bem na manhã no dia 2 de novembro de 2007. Knox e seu namorado na época, Raffael Sollecito, agora são os principais suspeitos no assassinato de Perúgia.

Um vizinho encontrou o telefone celular de Kercher sob uma árvore e contatou a polícia. Quando os policiais tocaram a campainha às 0h35, Knox já tinha notificado um colega de quarto e dois amigos. Juntos, eles invadiram o quarto de Kercher. As duas outras mulheres que moravam no apartamento tinham saído de férias.

Knox contou à polícia que tinha passado a noite no apartamento de Sollecito e que só voltara pela manhã. A toalha com sangue no banheiro não lhe pareceu digna de nota, disse ela, nem mesmo fato da porta do prédio estar aberta quando ela chegou. Ela disse à polícia que tomou um banho e lavou o cabelo, como sempre.

Os investigadores observaram que todos os quartos aparentemente tinham sido escovados com um produto de limpeza concentrado após o assassinato. Eles ficaram ainda mais surpresos que nenhuma das digitais de Knox foi encontrada no apartamento, apesar de ela morar ali.

Sollecito, 24, contou à polícia que passou a noite em casa, na frente de seu computador, e que Knox estava com ele. Ele vem de uma boa família em Apulia, foi estudante de intercâmbio em Munique como parte do programa Erasmus e estava estudando para se tornar engenheiro de computação.

"Você passa a conhecer muitas pessoas de todo mundo", escreveu Sollecito em seu blog, "e, no final, você passa todo segundo do dia em um círculo de encontros e lugares onde pode se divertir. Você diz não uma vez, duas ou três, depois você para e já está no jogo de 'fanazzismo'" -que poderia ser traduzido como "loucura generalizada".

Knox diz que gostou de Sollecito porque seus óculos faziam-no parecer como Harry Potter. Eles se conheceram em um concerto de música clássica e estavam juntos na cama após apenas duas horas. Dali em diante, ficaram inseparáveis, fazendo amor, fumando, bebendo e falando constantemente.

Os amigos ficaram surpresos com o comportamento do casal pouco após o crime. "Eles não ficaram chateados com a morte da amiga e estavam constantemente sussurrando coisas doces no ouvido um do outro", disse um dos amigos. Eles tinham até comprado lingerie e falavam sobre a próxima noite, como se nada tivesse acontecido. Knox falou dos detalhes da morte de Kercher como se tivesse pensado neles cuidadosamente. "Ela sangrou até a morte muito lentamente", disse Knox.

"Atraído pela violência"

A polícia encontrou uma faca de cozinha no apartamento de Sollecito com traços de DNA de Knox e Kercher no cabo. A perícia, contudo, atestou que a faca era "incompatível" com a arma do crime. Entretanto, a polícia também encontrou uma pegada de tênis Nike que poderia pertencer a Sollecito no sangue no quarto de Kercher. Além disso, os computadores e telefones celulares de Knox e Sollecito tinham sido desligados na hora do assassinato.

Knox foi interrogada novamente, desta vez por horas, sem um advogado e sem um intérprete. Depois ela disse: "C'erro" -eu estava lá, na hora e na cena do crime. Sim, disse ela, ela ouviu gritos vindos do quarto de Kercher, mas cobriu os ouvidos. Ela disse à polícia que tinha sido um negro -Patrick L., proprietário de um bar chamado Le Chic, onde ocasionalmente trabalhava como garçonete. O músico de reggae de 38 anos conhecido na cidade foi preso por acusações de assassinato no dia 5 de novembro de 2007, junto com Amanda Knox e Raffaele Sollecito.

Entretanto, diferentemente de Knox e Sollecito, Patrick L. tinha um álibi e foi liberado após 10 dias.

Knox mentiu, mas por quê? Ela alegou que a polícia a tinha pressionado e insistiu em sua inocência.

Desde então, ela afirma que fumou maconha com Sollecito naquela noite e que os dois tomaram banho juntos. Sollecito, contudo, agora alega que Knox deixou seu apartamento perto das 21h. Suas declarações atuais são contraditórias e não são mais um casal.

A gravação da câmera de vigilância do estacionamento do outro lado da rua mostra que Knox entrou no prédio pouco antes do assassinato. Entretanto, traços do DNA de Sollecito também foram encontrados no sutiã da vítima. Uma vizinha disse que ouviu um grito horrível, seguido de passos de pessoas correndo. Outras testemunhas disseram que viram Knox perto do prédio, junto com Sollecito e outro homem.

O homem logo foi identificado. Alguém se esqueceu de puxar a descarga do banheiro do apartamento de Kercher. Isso se provou desastroso para Rudy Guede, pequeno traficante de drogas, hoje com 22 anos, que veio para Perúgia da Costa do Marfim quando era criança. Seu DNA foi encontrado no vaso sanitário, e traços de esperma no corpo da vítima também combinavam com seu DNA. No dia 20 de novembro, Guede foi preso na estação de trem na cidade e alemã do Oeste de Koblenz. Ele conhecia Kercher e Knox de boates e tinha estado seu apartamento uma ou duas vezes. Ele alegou que tinha se relacionado com Kercher e que estava no banheiro quando aconteceu o assassinato.

Guede sabia que não tinha chances na justiça, mesmo que o exame médico fosse incapaz de determinar conclusivamente que a vítima tinha sido violentada. Seus advogados aconselharam-no a aceitar um julgamento "rápido" para evitar a prisão perpétua. Na jurisprudência italiana, a prisão perpétua pode ser exatamente isso. Guede concordou. No dia 29 de outubro de 2008, ele foi condenado, em um julgamento fechado ao público, a 30 anos de prisão por assassinato e uso de violência sexual. Foi um julgamento baseado em evidências circunstanciais. Até hoje, Guede diz que não matou Kercher.

"Ela cai no chão, sente o gosto do sangue em sua boca e o engole. Ela não pode mais mover a mandíbula, e parece que alguém está movendo uma lâmina na sua frente, do lado esquerdo de seu rosto". Essa poderia ser a descrição da forma como Meredith Kercher morreu, mas, em vez disso, são frases do diário de Knox. Como exercício na aula de literatura criativa, ele imaginou como dois irmãos, drogados, estupraram e mataram uma menina.

Por que Kercher foi morta? Teria sido um acidente, um jogo sexual que saiu de controle? Foi vingança, um ato satânico, um crime nascido do uso excessivo de drogas, como no assassinato de Sharon Tate, em 1969? A polícia analisou o disco rígido dos computadores de Sollecito e Knox, estudou seus blogs na Internet e leu a coleção de quadrinhos "manga" de Sollecito. De acordo com a investigação, Sollecito tem uma queda pela pornografia violenta e filmes de terror, assim como facas e música mórbida punk de Marilyn Manson. Ele parece retraído e profundamente afetado pela morte de sua mãe.

Essas coisas, entretanto, são perfeitamente normais. Seu uso regular de maconha também não é incomum - a maior parte dos estudantes em Perúgia fumam maconha quando se sociabilizam.

Em seu perfil do Facebook e mySpace, Sollecito se descreve como "Honesto, pacífico, doce, mas algumas vezes completamente louco". Knox se chama de "Foxy Knoxy" e aparece bêbada em um vídeo, e em uma foto em que está segurando uma arma de brinquedo.

Entretanto, no meio da pluralidade e liberdade da Internet, isso não parece nem mesmo alarmante. Ainda assim, quando o magistrado estendeu a detenção da suspeita antes do julgamento, em uma audiência pouco antes do Natal de 2007, ele descreveu Knox como tendo "uma personalidade de muitas camadas, ingênua e esperta ao mesmo tempo", e Sollecito como sendo "atraído à violência", imaturo e desinibido. Sua descrição refletia o antigo preconceito contra jovens vivendo livremente sem restrições.

O pai de Amanda Knox, Curt Knox, é gerente da cadeia de lojas de departamento Macy's, e sua mãe é professora em Seattle. "Minha filha e 100% inocente", diz ele. Os pais de Knox têm viajado entre Seattle e Perúgia no último ano. Eles costumavam amar a Itália, diz a mãe.

Todos os pedidos para que a prisão anterior ao julgamento fosse mudada para prisão domiciliar foram negados. Para Paolo Micheli, o juiz do caso, não há dúvida que Knox, Sollecito e Guede estavam na cena do crime juntos, presumivelmente para forçar Kercher a participar em um jogo sexual. Micheli acredita que os homens a seguraram enquanto Knox aplicou a faca. Essas alegações serão levantadas no segundo julgamento.

Depois que o crime foi cometido, os três teriam tentado forjar o assassinato como resultado de um assalto, por isso limparam o apartamento e quebraram uma janela, sustenta Micheli. As evidências de DNA encontradas na cena são suficientes evidências "lógicas e de bom senso", escreve o juiz. Ele acredita que há um risco de Knox tentar fugir por causa de sua cidadania americana. Ele também está convencido, como escreve em seus argumentos de 17 páginas para rejeitar os pedidos de mudança de detenção pré-julgamento para prisão domiciliar, que ela está "preparada para matar de novo".

Knox está sendo mantida na prisão de Capanne. Ela não tem explicações para as evidências contra ela. "Eu sei que não matei Meredith", diz ela.

Knox tenta acreditar que nada mudou. Ela passa seu tempo lendo, cantando e aprendendo línguas. Ela já fala italiano fluentemente. E escreve em seu diário. Suas palavras parecem tentativas de encontrar uma história que deixe todos felizes. Ele escreve: "A verdade é que eu não sei mais qual é verdade."

Tradução: Deborah Weinberg

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