UOL Notícias Internacional
 

21/01/2009

De "mudança" para "seja paciente"

Der Spiegel
Cordula Meyer, Gregor Peter Schmitz e Gabor Steingart
Em Washington (EUA)
Crise global definirá a presidência Obama


Agora, como presidente, Barack Obama tem que traduzir as suas palavras nobres em ações concretas. A economia mergulha ainda mais profundamente na crise, o Oriente Médio está ficando mais instável e os republicanos aguardam os primeiros erros do novo ocupante da Casa Branca.

O dia da posse é uma ocasião grandiosa na vida de um novo presidente dos Estados Unidos. Desde a época de George Washington, o homem da hora aparece em trajes de gala para dar o tom de uma nova presidência repleta de ambições elevadas. Por um breve momento, a política é transformada em poesia.

No decorrer dos anos, novos presidentes competem entre si pela criação das frases históricas que permanecerão gravadas na consciência coletiva do país. John Fitzgerald Kennedy tornou-se imortal durante o seu discurso e posse, quando fez um apelo aos norte-americanos, dizendo: "Não pergunte o que o seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pelo seu país".

Em 1933, Franklin Delano Roosevelt, o presidente que mais tarde lideraria os Estados Unidos durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial, passou para a história com uma sentença que muito provavelmente foi criada por uma outra pessoa: "A única coisa que devemos temer é o próprio medo".

Na última terça-feira, o 44º presidente ficaria de pé no mesmo local em Capitol Hill (o Congresso dos Estados Unidos). Pessoas de todo o país já trazem um brilho de antecipação nos olhos, e os redatores de discursos têm trabalhado 24 horas por dia para polir as palavras eloquentes. Os norte-americanos esperam um festival de harmonia que os ajudará a esquecer os anos amargos sob o governo do 43º presidente.

Agora, finalmente, os Estados Unidos acreditam que encontraram o homem certo para o cargo. As expectativas no dia da eleição eram altas - e elas agora tornaram-se ainda mais elevadas. No campo doméstico, espera-se que Obama dê um jeito na crise financeira, contenha a onda crescente de desemprego, reduza a desigualdade social e eleve o país a novos patamares de grandeza. "Obama tornou-se presidente para que os nossos filhos pudessem voar", dizia uma mensagem bastante visível em uma loja de produtos esportivos em Washington.

Na área de política externa, a lista de desejos da comunidade internacional aumentou ainda mais nos últimos anos, a cada desapontamento com George W. Bush. Existe a expectativa de que Obama obtenha a paz no Oriente Médio, impeça o Irã de fabricar a bomba atômica sem ter que bombardear aquele país, integre os chineses à comunidade mundial, controle os russos, una os europeus e - nas horas vagas - consiga também a reconciliação com a comunista Cuba.

Mas quando as multidões de observadores curiosos tiverem deixado a cidade e as arquibancadas em frente à Casa Branca forem desmontadas, uma realidade nova e mais áspera tomará conta do cenário. No decorrer das próximas semanas, os Estados Unidos experimentarão o fim da poesia - e o retorno da política.

"Tempos horríveis"

Após uma campanha eleitoral cheia de promessas, Obama já começou a diluir alguns dos seus compromissos. A reforma do sistema de saúde já não é tão urgente. Simplesmente não temos como arcar com os custos, diz a equipe de Obama. Os impostos pagos pelos ricos devem ser aumentados - mas não agora, não durante a crise. "Todas as promessas de campanha ainda são válidas", garante David Axelrod, o arquiteto da campanha eleitoral de Obama, que trabalhará com o presidente na Casa Branca. "Mas precisamos estabelecer prioridades".

Mas Obama está cumprindo as suas promessas de interação bipartidária. Ele integrou tanto os seus oponentes republicanos e as ideias destes nos seus planos para início de governo que os seus apoiadores de esquerda estão zonzos. A palavra-chave da campanha eleitoral foi "mudança". A nova mensagem aos seus seguidores é "Seja paciente".

E os norte-americanos têm sido pacientes com Obama. Os democratas mais liberais podem estar resmungando, mas eles resmungam baixinho.

O novo pragmatismo de Obama tem razão de ser. Nenhum presidente desde a década de 1930 enfrentou problemas tão sérios quanto aqueles que Obama precisa enfrentar. "Nada será fácil porque o tamanho dos desafios que enfrentamos é enorme", disse Obama aos norte-americanos na sexta-feira passada no Estado de Ohio. A situação econômica torna-se cada vez mais sombria. As medidas implementadas para combater a crise financeira ainda não funcionaram. O economista Paul Krugman, ganhador do Prêmio Nobel, prevê "tempos horríveis" para o país.

O fluxo de crédito praticamente parou, Detroit - a capital automobilística do país - está afundando na crise, a confiança do consumidor continua em queda, e uma onda de falências no setor de comércio varejista obrigará cerca de um quarto de todas as lojas a fechar as portas até o final do ano.

Os assessores econômicos de Obama não estão tentando minimizar a gravidade da atual situação econômica e social. Até 2010, mais de cinco milhões de empregos desaparecerão, escreveram eles em um relatório de 14 páginas preparado sob a direção de Christina Romer, chefe do Conselho de Assessores Econômicos de Obama.

Um oponente extremamente difícil

As previsões sombrias são direcionadas a dois grupos alvos. Primeiro, os norte-americanos terão que se preparar para tempos difíceis. Segundo, a partir do seu primeiro dia no Salão Oval, Obama precisará derrotar um oponente que tornou a vida extremamente difícil para presidentes anteriores: muitos congressistas auto-confiantes, que acreditam contrabalançar a figura do presidente, não deverão simplesmente aprovar sem restrições o pacote de estímulo econômico no valor de US$ 800 bilhões (? 610 bilhões). Ao ser indagado sobre o plano de Obama, o deputado democrata Barney Frank - o influente líder do Comitê de Serviços financeiros da Câmara - preferiu citar Lênin: "A confiança é boa, mas o controle é melhor".

Obama esperava que o seu pacote de incentivo econômico fosse aprovado pelo Congresso antes mesmo da sua posse, e que estivesse pronto para receber a sua assinatura na mesa do Salão Oval. Mas isso não ocorreu. Na verdade, teve início uma intensa batalha a respeito de cada detalhe do plano. O pacote é muito grande para os conservadores, e muito pequeno para os liberais.

Guantánamo, Afeganistão e medos persistentes do terrorismo

E, como se as preocupações econômicas não fossem suficientes, o medo de um novo ataque terrorista e a questão da segurança nacional ainda estão presentes. O trauma dos ataques de 11 de setembro de 2001 foram substituídos, mas não superados, pela crise econômica. Nesta área o novo governo também segue um caminho intermediário. Contando com o secretário de Defesa de Bush, Robert Gates, e com o general de quatro estrelas da reserva James Jones como assessor de Segurança Nacional, a equipe de Obama está fazendo um esforço visível para obter cooperação bipartidária.

Às vezes os novos tempos soam como os velhos. "Todas as opções permanecem sobre a mesa", foi a resposta de Bush quando lhe perguntaram como pretendia lidar com o Irã. "Todas as opções permanecem sobre a mesa", repetiu a futura secretária de Estado, Hillary Clinton, na terça-feira da semana passada, durante a sua sabatina perante o Comitê de Relações Exteriores do Senado.

Obama também deu uma desacelerada na questão de Guantánamo, o símbolo mais medonho da era Bush. Ele ainda pretende fechar o campo de detenção, mas significativamente mais tarde do que prometeu durante a campanha eleitoral.

Porém, é a política externa de Obama que mais sofre com a presidência desastrosa do seu predecessor. "O legado de Bush vai bem além dos 5.000 soldados norte-americanos mortos em combate, das dezenas de milhares de iraquianos e afegãos mortos e do gasto de US$ 800 bilhões com as guerras. Nós desperdiçamos oportunidades e perdemos credibilidade", afirmou o chefe de redação da sucursal de Washington do "New York Times", David E. Sanger, no seu último livro.

Agora Obama precisa vencer os conflitos militares criados por Bush. Acredita-se que até 30 mil soldados extras serão enviados ao Afeganistão assim que sejam retirados do Iraque. O objetivo do aumento das tropas é ganhar tempo para a nova e grande estratégia, a "abordagem abrangente" sobre a qual os assessores de Obama têm falado há tanto tempo.

A equipe de Obama continuará confiando nas forças armadas, mas não mais exclusivamente. Ela pretende fortalecer a economia e o governo do Afeganistão com o auxílio dos europeus. Talebans moderados deverão ser atraídos para fora da aliança contra o Ocidente. Acredita-se que o general David Petraeus - que demonstrou as suas habilidade como comandante das forças no Iraque - liderará essa operação.

A Alemanha será necessária para ajudar na reconstrução. Mas provavelmente haverá menos pressões sobre os alemães para que estes participem de operações de combate no sul do Afeganistão. Washington acredita que há pouca possibilidade de obtenção de apoio para isso em Berlim. O novo lema é: "Todos devem contribuir com o que puderem".


O maior desafio do governo Obama

Mas o verdadeiro teste que está à espera de Obama é Teerã. "Não existe nenhum desafio maior para Obama na área de política externa", afirma Dennis Ross, que foi Coordenador Especial para o Oriente Médio no governo do presidente Bill Clinton, e que agora foi designado enviado especial de Obama ao Irã.

Obama e a sua secretária de Estado, Hillary Clinton, também querem lançar uma ofensiva diplomática em grande escala em relação a ao Irã, além de manterem a ameaça de força militar. Thomas Pickering, ex-embaixador dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU), identificou os possíveis componentes desse plano. Ele incluiria a renúncia por parte de Washington à ideia de derrubar o regime do Irã, a integração de Teerã em uma arquitetura de segurança regional e a oferta ampla de acordos de cooperação econômica.

Sob determinadas condições, até mesmo um diálogo com o Hamas seria concebível para evitar a continuidade no longo prazo da situação geral do Oriente Médio. Uma observação feita pela futura secretária de Estado, Hillary Clinton, a respeito do sofrimento dos civis na Faixa de Gaza foi interpretada por muitos observadores como uma indicação de que os Estados Unidos pretendem exercer maior controle sobre os seus aliados mais próximos no Oriente Médio. Obama não deseja colocar em risco as relações especiais com Israel, mas, ao mesmo tempo, pretende mostrar que leva a sério os interesses dos árabes. "Pode ser que, já na próxima primavera, diplomatas norte-americanos estejam mais uma vez residindo em Damasco", afirma Andrew Tabler, do Instituto de Políticas para o Oriente Próximo, em Washington. No entanto, o presidente sírio Bashar Assad diz que deseja aguardar para ver se a maior cooperação que foi anunciada se materializará de fato.

Após perder uma influência considerável na era Bush, a superpotência parece agora estar preparada para fazer concessões incríveis. A fim de atingir o grande objetivo de impedir que o Irã fabrique bombas nucleares, a lista de desejos dos norte-americanos foi bastante reduzida. Em uma reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Estrasburgo, que ocorrerá em abril deste ano, acredita-se que o objetivo de expansão para o leste e a construção de um escudo de defesa anti-mísseis sejam adiados por tempo indeterminado.

Uma nova era parece estar também despontando na área de proteção climática. As políticas de Bush ignoraram sistematicamente a questão, fazendo com que os Estados Unidos negassem a existência do aquecimento global e boicotassem acordos internacionais relativos ao meio ambiente. Obama deseja agora implementar a "revolução verde" que o ganhador do Prêmio Nobel, Al Gore, defende há tantos anos. Em dezembro deste ano, na Conferência Climática em Copenhague, o novo presidente provavelmente assinará um acordo global.

Um Partido Republicano surrado aguarda

Hoje em dia dificilmente alguém fala sobre o Partido Republicano, mas ele ainda existe. Embora o presidente Bush esteja de saída, o seu partido continua vivo - ainda que um pouco machucado, surrado e dividido.

Os republicanos ainda se desentendem na hora de determinar quem provocou a perda da Casa Branca. A maioria acredita que o candidato John McCain não foi suficientemente conservador. Ao mesmo tempo, o legado de Bush não goza mais de boa reputação - nem mesmo entre os amigos do partido. "Temos que nos desvincular das políticas fracassadas de Bush e retornar aos nossos valores centrais", diz o lobista conservador Grover Norquist, presidente do grupo de lobby contra os impostos, Americanos pela Reforma Fiscal.

Mas os desmoralizados conservadores estão evitando fazer críticas a Obama, pelo menos por ora. Até mesmo o ícone republicano Newt Gingrich diz que "o país está cansado dos ataques políticos feitos pelos republicanos". Uma abordagem baseada em bloqueios políticos seria, portanto, "inefetiva".

Esta opinião é compartilhada pelo homem que, mais do que ninguém, adora fazer ataques duros: Karl Rove. O arquiteto das vitórias eleitorais de Bush, que é conhecido pelas suas campanhas de difamação, aconselhou a sua tropa a parar de lutar e "evitar fazer uma oposição inconsequente".

Portanto, por ora, até mesmo os republicanos estão fazendo o mesmo que o resto do mundo - aguardando e torcendo.

Tradução: UOL

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