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05/02/2009

Estudo revela que muitas escolas alemãs ainda apresentam nomes de nazistas

Der Spiegel
Jan Friedmann
Um novo estudo mostra que várias escolas alemãs ainda permanecem com nomes de nazistas, incluindo defensores da limpeza racial, cientistas de foguetes e altos membros do partido. Mas as autoridades locais frequentemente relutam em mudar os nomes.

Por toda sua vida, o professor Max Kästner dedicou sua vida ao estudo da história e da vegetação da região das Montanhas de Ore. Mesmo após se aposentar, Kästner, que morreu em 1959, costumava instruir os novos professores a respeito da história local.

O historiador Geralf Gemser descobriiu que várias escolas na Saxônia ainda levam nomes de nazistas.

Kästner foi homenageado postumamente em sua cidade natal de Frankenberg, perto de Chemnitz, na Saxônia, quando uma escola para alunos com necessidades especiais recebeu seu nome há 15 anos. A decisão foi baseada, em parte, ao fato dele ter escrito um livro sobre a cidade. "Max Kästner criou um memorial para si mesmo em 1937, quando compilou um livro sobre a história local de Frankenberg para coincidir com a comemoração do 750º aniversário da cidade", explica a escola em seu site.

Os pais desta cidade consciente das tradições, com população de 18 mil habitantes, não devem ter lido o livro. Se leram, eles se depararam com várias passagens desagradáveis. Em um trecho o autor elogia o reinado de terror dos nazistas. "O último esconderijo marxista foi exposto", ele escreve, notando que o ponto alto da história de Frankenberg é quando ela abrigou a unidade de guarda dos campos de concentração, SS-Totenkopfsturmbann Sachsen. "Nós lamentamos ao ver a SS partir quando foi transferida para Weimar-Buchenwald por motivos políticos importantes", ele escreve.

O historiador intolerante da cidade é apenas uma das várias figuras duvidosas que atualmente dão nome a escolas alemãs. Entre as cerca de 2 mil escolas apenas do Estado da Saxônia, oito possuem nomes de membros do partido nazista e uma de um membro da SS.

Estes números foram apresentados em um estudo recém-publicado, realizado pelo historiador Geralf Gemser, de Chemnitz. Ele compilou as biografias de todos os homens e mulheres com ligações nazistas que dão nome a escolas na Saxônia.

Quando as escolas na Saxônia e de outras partes da ex-Alemanha Oriental foram rebatizadas após a queda do Muro de Berlim, moradores locais proeminentes -alguns com ligações nazistas- buscaram eliminar os nomes de figuras ilustres do comunismo que previamente davam nome às escolas, como o secretário-geral do Partido Socialista-Comunista Unificado, Walter Ulbricht, e o presidente da República Democrática Alemã, Wilhelm Pieck. Mas os nomes nazistas não são um fenômeno apenas oriental. O oeste também exibe seu próprio legado duvidoso, e Gemser estima que o número de escolas por toda a Alemanha que possuem nomes de membros do partido nazista pode chegar a centenas.

No distrito de Charlottenburg de Berlim, por exemplo, um colégio até recentemente levava o nome de Erich Hoepner, um general do Wehrmacht. Hoepner foi, reconhecidamente, sentenciado à morte por tramar contra Hitler na conspiração de Stauffenberg, de 1944. Antes disso, entretanto, Hoepner buscou uma política de terra arrasada na União Soviética, onde ele exigia de seus soldados "a destruição completa e impiedosa do inimigo". Quando Gemser trouxe esta história à luz, o colégio foi batizado segundo o magnata das artes judeu, Heinz Berggruen, nascido em Berlim.

Gemser reconhece que as escolas raramente levam o nome de "perpetradores, no sentido legal da palavra" -em outras palavras, nazistas que cometeram crimes de guerra- mas ele diz que as escolas deveriam ser mais cuidadosas. "Com seus nomes, as escolas ocupam um lugar na tradição histórica, mas os funcionários nazistas e aqueles que apoiaram o partido devem ser excluídos dela", ele diz. Segundo as regras do Estado, os nomes das escolas devem refletir ideais educacionais. A escolha dos nomes, entretanto, cabe às autoridades locais -com resultados imprevisíveis.

Nada a ver com política?
Um exemplo envolvendo uma escola em Kreuztal, no Estado da Renânia do Norte-Vestfália, mostra quão difícil pode ser evitar nomes familiares. Até dois meses atrás, um colégio local levava o nome de Friedrich Flick, o rico industrial condenado como criminoso de guerra nos Julgamentos de Nuremberg em 1947. Ele tinha doado milhões para pagar pela construção da escola.

Ex-estudantes lançaram uma iniciativa para mudar o nome da escola. Os professores exigiam que o conselho municipal os libertasse do "fardo do nome". Mas nada mudou até que repórteres incrédulos da Europa Oriental vieram investigar se era verdade que um homem que promovia a arianização e comandava um exército de trabalhadores forçados estava de fato sendo homenageado na Alemanha. Só então é que o conselho municipal decidiu mudar o nome da escola.

Em Bernstadt, na região de Oberlausitz, o cientista de foguetes Klaus Riedel teve uma escola batizada em sua homenagem. O inventor trabalhou no foguete V-2, entre outros projetos. O míssil foi responsável pelas mortes de cerca de 10 mil civis em outros países e cerca de 12 mil trabalhadores forçados morreram em sua produção.

Enquanto isso, escolas em Friedberg, na Baviera, e Neuhof, em Hessen, levam o nome do chefe de Riedel, o engenheiro astronáutico Wernher von Braun. Von Braun comandava as instalações de desenvolvimento de foguetes das forças armadas em Peenemünde, na costa báltica da Alemanha, e foi promovido ao posto de SS Sturmbannführer. Depois da guerra, Von Braun foi trabalhar no programa espacial da Nasa nos Estados Unidos. Até sua morte, ele insistia que a ciência não tinha nada a ver com a política.

Mesmo se isso for verdade, certos cientistas que deram seus nomes a escolas dificilmente se enquadram como modelos. Um colégio em Grossröhrsdorf, na Saxônia, leva o nome do cirurgião Ferdinand Sauerbruch, que serviu como médico do ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels. Como membro do Conselho de Pesquisa do Reich, ele aprovou o financiamento de experiências médicas em presos dos campos de concentração.

Seu colega Rainer Fetscher até mesmo compilou um arquivo sobre "pessoas biologicamente inferiores". A Lei de Prevenção de Filhos Geneticamente Doentes de 1933 foi saudada pelo médico como um "início promissor", já que não apenas instigava "a possibilidade de esterilização racial, como também permite o uso da força". Ele próprio realizou esterilização forçada em pelo menos 65 casos.

Como Fetscher posteriormente deixou a SA e abriu uma clínica que tratava de judeus e outras vítimas dos nazistas, alguns moradores de Dresden o consideravam membro da resistência alemã. Sua cidade natal batizou uma escola em sua homenagem. Ironicamente, era uma escola para deficientes físicos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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